É quase meia-noite. Numa inquietação crescente, vou escrevinhando a consultar o relógio a cada momento. Quero assistir à passagem do ano. Faltam vinte minutos, faltam quinze, faltam dez… Um agiota não faria melhor se estivesse ao pulso de um agonizante de quem esperasse herdar uma grande fortuna. E acabo por me rir. Farto de saber que nada vai mudar, roído de desilusões, e teimo na estupidez das mais vezes! Simplesmente, não desisto. A razão argumenta, a experiência ensina, e nos recônditos do meu ser nenhuma lição de objectividade encontra eco. Orgulhosos da nossa ciência, e seguros de que dominamos a natureza, zombamos dos nossos avós e dos rituais com que tentavam exorcizar as forças do mal e propiciar a renovação do tempo. Mas, no fundo, continuamos supersticiosos e crédulos como eles. A abafar ruidosamente a emoção a tiros de petardo ou de champanhe, ouvimos bater as doze badaladas na secreta esperança de que elas sejam a meta remissa do passado e o ponto de partida dum futuro redentor. Assim persiste sob a máscara soberba do civilizado a humildade do primitivo. A humildade que o mantém vivo nas selvas da ignorância, ao lado do morto que vai sendo nas avenidas da sabedoria…
Miguel Torga - «Diário XI» (31/12/69)
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quinta-feira, dezembro 30, 2004
Ano Novo (1)
Outro ano. Toda a gente excitada, e, de conhecido para conhecido, esta senha:
- Boas entradas!
- Igualmente! – responde o contemplado.
E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé direito à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas mói os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.
Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora – agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca:
- Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei!
Que me lembre, apenas Raul Brandão teve a grandeza e a lealdade de escrever que repetiria o calvário da vida sem lhe alterar o itinerário. Isto sim, isto é de quem entendeu a fundo que a existência não deve ter soluções de continuidade, nem ser prevista. Deus me livre de saber antecipadamente que por certo beijo que roubei em rapaz a uma cachopa da minha terra receberia a bofetada que recebi!
A coisa foi maravilhosa por ter sido um jogo, um atrevimento, um risco, e motivar aquela réplica inesperada e ardente!
«- Se eu soubesse…»
Mas como felizmente ninguém pode voltar atrás, nem saber antes de saber, vai de recomeçar vida nova cada novo ano. Cada novo ano que passa a velho logo que se fazem trezentas e sessenta e cinco tolices…
Miguel Torga – «Diário II» (1/1/1943)
- Boas entradas!
- Igualmente! – responde o contemplado.
E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé direito à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas mói os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.
Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora – agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca:
- Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei!
Que me lembre, apenas Raul Brandão teve a grandeza e a lealdade de escrever que repetiria o calvário da vida sem lhe alterar o itinerário. Isto sim, isto é de quem entendeu a fundo que a existência não deve ter soluções de continuidade, nem ser prevista. Deus me livre de saber antecipadamente que por certo beijo que roubei em rapaz a uma cachopa da minha terra receberia a bofetada que recebi!
A coisa foi maravilhosa por ter sido um jogo, um atrevimento, um risco, e motivar aquela réplica inesperada e ardente!
«- Se eu soubesse…»
Mas como felizmente ninguém pode voltar atrás, nem saber antes de saber, vai de recomeçar vida nova cada novo ano. Cada novo ano que passa a velho logo que se fazem trezentas e sessenta e cinco tolices…
Miguel Torga – «Diário II» (1/1/1943)
quinta-feira, dezembro 23, 2004
Menino-Deus
Inspirada pelos anjos, recostou-se na manjedoira, duas tábuas com outra de guarda armadas contra a parede. E voltando-se para oriente, no mais quieto e sossegado da noite, com o céu a destilar mel e cinamono, Maria deu à luz o Unigénito. Era bonito o bebé, com o que saiu verdadeiro o dizer dos Cantares de que o ventre daquela mãe era um campo de trigo donde brotaria uma papoila nunca vista. Mas quando os reis da Pérsia destinavam cento e oitenta milhões para gastos de cama e as almofadas em que nasciam e se criavam os infantes; enquanto o trono de Salomão era de marfim recamado de oiro e o seu reclinatório de púrpura bordada a prata e oiro e constelada de gemas, com uma guarda de sessenta núbios à roda – ele nascia num presépio sobre o retraço dos animais.
(…) Nasceu sem adjutório ou ministério de qualquer pessoa, sem queixa nem moléstia de sua santíssima mãe, antes, como anunciara Isaías, laetabunda et laudans, contentíssima e dando graças. Da mesma maneira que a árvore não sente dor quando despega o fruto maduro, assim sucedeu com ela. E como não – argumentam os doutores de pensar subtil – se a dor e tormento do parto correspondem ao deleite da concepção carnal, e ela fora alheia a todo o toque?
(…) As vozes são discordes quanto à presença ou não presença da túnica placentária, secundina lhe chamavam S. Jerónimo e as nossas avós, que devia cingir o corpinho do Menino-Deus.
(…) Muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca, como ideou S. Francisco no primeiro presépio e, após ele, quantos poetas souberam pegar em pincéis, e quantos rapsodos vazaram a rude palavra de romance nas ledas estâncias dos autos e mistérios. Se veio a cavalo de Nazaré, não admira que apareça uma burra a bafejar o inocentinho intanguido nas palhas nuas. Mas donde saiu a vaca?
(…) Foi a noite santa uma noite de prodígios. Ruiu em Roma o templo da Paz, explicando os intérpretes sagrados que, bem embora há quatro anos se não ouvisse ferrolhar na bainha a espada de um legionário, tinha ali fim aquela paz torpe, feita de violência sob a égide dos fáscios romanos, e começava outra, a paz em que o leão havia de comer a palha com o boi, segundo Isaías, aquela em que Cristo seria o primeiro ladrão, na frase de Santo Ireneu, despojando o rico em favor do pobre, paz proclamada desde o começo das idades pelas longas e sacabuxas de anjos e serafins:
- Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!
Essa noite viu-se orvalhada a terra sem se molhar o véu de Gedeão. Calaram-se os oráculos em quantos bosques sagrados cobriam a Hélade e a terra latina, e ouviram-se os lamentos flébeis das pitonisas e divindades voluptuosas mergulhando para todo o sempre no recesso das selvas e nas grutas que se cisparam uma vez por todas. O grande Apolo Pítio, para o qual corriam os devotos como abelhas para a flor da esteva, desapareceu a clamar:
- Um menino judeu manda-me tornar para o Orco! Adeus para sempre, adeus para sempre!
Em Roma esteve a correr azeite à franca para quem queria, e vieram da Suburra e até mesmo da oficina de Vénus que havia na Via Ápia mulheres munidas de celhas a apará-lo. As vinhas de Engadi deram uvas. Caíram ao chão no Egipto, despedaçando-se, os ídolos de bronze. Desfez-se também em bocados a estátua da Loba e até as letras sagradas se apagaram nas colunas votivas dos templos e das praças.
Mal o Menino veio à luz, sem uma mancha, branco e limpo que nem talhado em neve pura, beijou-lhe Maria os pés como a seu Deus e depois o rosto como a seu filho. E logo ele lhe sorriu um sorriso que a inundou de luz, sinal do sol rútilo que ia alvorecer para o mundo.
Enfaixou-o a mãe nos panos de beatilha com que viera preparada e chegou-o ao peito. Foi mamando, agora já de beicinhos roxos pelo frio, que os pastores o vieram encontrar com as oferendas. Traziam queijinhos de seus bardos, braçadas de flores, fruta e aves de capoeira. (…) Os pastores entraram de surrão, com suas mocas debaixo do braço, seus chapeirões contra o sol, a gaita a espreitar da algibeira. E, dobrando o joelho, o adoraram. A voz dum vulto que se escoava na noite dissera-lhes na primeira modorra:
- Ide à corte dos gados, à entrada de Belém, no caminho da cisterna de David, que nasceu lá o Messias!
Era então verdade? Os coxos e os trôpegos iam saltar como cervos? Ia raiar o sol da justiça para todos? Nunca mais o forte espancaria o fraco, nem o rico poderia jantar duas vezes enquanto ao pobre só restava o direito de morrer a louvar o Senhor?
Afirmam os teólogos que ali se operou miraculosamente a união dos termos mais antitéticos que o espírito pode conceber: - Deus e homem, virgem e mãe, eternidade e tempo, céu e terra, morte e vida, e a percepção de tal mistério pelo coração do homem. Os pastores, esses, esperavam a redenção humana do mal, do sofrimento, da dor e da agonia. Por isso, entoavam e a sua voz chamava a gente que passava para os agros na manhã alta:
- Gloria in excelsis Deo!!
Aquilino Ribeiro – “O Livro do Menino-Deus”
(…) Nasceu sem adjutório ou ministério de qualquer pessoa, sem queixa nem moléstia de sua santíssima mãe, antes, como anunciara Isaías, laetabunda et laudans, contentíssima e dando graças. Da mesma maneira que a árvore não sente dor quando despega o fruto maduro, assim sucedeu com ela. E como não – argumentam os doutores de pensar subtil – se a dor e tormento do parto correspondem ao deleite da concepção carnal, e ela fora alheia a todo o toque?
(…) As vozes são discordes quanto à presença ou não presença da túnica placentária, secundina lhe chamavam S. Jerónimo e as nossas avós, que devia cingir o corpinho do Menino-Deus.
(…) Muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca, como ideou S. Francisco no primeiro presépio e, após ele, quantos poetas souberam pegar em pincéis, e quantos rapsodos vazaram a rude palavra de romance nas ledas estâncias dos autos e mistérios. Se veio a cavalo de Nazaré, não admira que apareça uma burra a bafejar o inocentinho intanguido nas palhas nuas. Mas donde saiu a vaca?
(…) Foi a noite santa uma noite de prodígios. Ruiu em Roma o templo da Paz, explicando os intérpretes sagrados que, bem embora há quatro anos se não ouvisse ferrolhar na bainha a espada de um legionário, tinha ali fim aquela paz torpe, feita de violência sob a égide dos fáscios romanos, e começava outra, a paz em que o leão havia de comer a palha com o boi, segundo Isaías, aquela em que Cristo seria o primeiro ladrão, na frase de Santo Ireneu, despojando o rico em favor do pobre, paz proclamada desde o começo das idades pelas longas e sacabuxas de anjos e serafins:
- Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!
Essa noite viu-se orvalhada a terra sem se molhar o véu de Gedeão. Calaram-se os oráculos em quantos bosques sagrados cobriam a Hélade e a terra latina, e ouviram-se os lamentos flébeis das pitonisas e divindades voluptuosas mergulhando para todo o sempre no recesso das selvas e nas grutas que se cisparam uma vez por todas. O grande Apolo Pítio, para o qual corriam os devotos como abelhas para a flor da esteva, desapareceu a clamar:
- Um menino judeu manda-me tornar para o Orco! Adeus para sempre, adeus para sempre!
Em Roma esteve a correr azeite à franca para quem queria, e vieram da Suburra e até mesmo da oficina de Vénus que havia na Via Ápia mulheres munidas de celhas a apará-lo. As vinhas de Engadi deram uvas. Caíram ao chão no Egipto, despedaçando-se, os ídolos de bronze. Desfez-se também em bocados a estátua da Loba e até as letras sagradas se apagaram nas colunas votivas dos templos e das praças.
Mal o Menino veio à luz, sem uma mancha, branco e limpo que nem talhado em neve pura, beijou-lhe Maria os pés como a seu Deus e depois o rosto como a seu filho. E logo ele lhe sorriu um sorriso que a inundou de luz, sinal do sol rútilo que ia alvorecer para o mundo.
Enfaixou-o a mãe nos panos de beatilha com que viera preparada e chegou-o ao peito. Foi mamando, agora já de beicinhos roxos pelo frio, que os pastores o vieram encontrar com as oferendas. Traziam queijinhos de seus bardos, braçadas de flores, fruta e aves de capoeira. (…) Os pastores entraram de surrão, com suas mocas debaixo do braço, seus chapeirões contra o sol, a gaita a espreitar da algibeira. E, dobrando o joelho, o adoraram. A voz dum vulto que se escoava na noite dissera-lhes na primeira modorra:
- Ide à corte dos gados, à entrada de Belém, no caminho da cisterna de David, que nasceu lá o Messias!
Era então verdade? Os coxos e os trôpegos iam saltar como cervos? Ia raiar o sol da justiça para todos? Nunca mais o forte espancaria o fraco, nem o rico poderia jantar duas vezes enquanto ao pobre só restava o direito de morrer a louvar o Senhor?
Afirmam os teólogos que ali se operou miraculosamente a união dos termos mais antitéticos que o espírito pode conceber: - Deus e homem, virgem e mãe, eternidade e tempo, céu e terra, morte e vida, e a percepção de tal mistério pelo coração do homem. Os pastores, esses, esperavam a redenção humana do mal, do sofrimento, da dor e da agonia. Por isso, entoavam e a sua voz chamava a gente que passava para os agros na manhã alta:
- Gloria in excelsis Deo!!
Aquilino Ribeiro – “O Livro do Menino-Deus”
domingo, dezembro 19, 2004
Um conto de Natal
De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam… Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim…Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.
E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa… E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura… Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele, então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo… Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa…
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida… Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas, estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.
- Boas festas! – desejou-lhe então, a sorrir também.
Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
- Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.
Miguel Torga – “Novos Contos da Montanha”
E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa… E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura… Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele, então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo… Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa…
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida… Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas, estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.
- Boas festas! – desejou-lhe então, a sorrir também.
Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
- Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.
Miguel Torga – “Novos Contos da Montanha”
Um auto de Natal
Figuras do auto: - um Anjo e vários pastores.
………………………………………
Dormem e o Anjo os chama cantando:
Ah pastor
qu’es nacido el redentor.
GIL
Zagales llevantar d’ahi
que grande nueva es venida
que es la virgem parida
a los ángeles lo oí.
Oh qué tónica acordada
de tan fuertes caramillos.
BRÁS
Cata que serían grillos.
GIL
Júri a nos
Que eran ángeles de Dios.
LUCAS
E nos aqui llevantados
qué le habemos de hacer?
GIL
Mi fe vámoslo a ver.
BRÁS
Y ansí despelluzados?
GIL
Pardiez que es para notar
pues el rey de los señores
se sirve de los pastores
nueva cosa
es esta y muy espantosa.
Id vosotros al llugar
muy presto carillos mios
y no vamos tan vacíos
traed algo que le dar.
Y el rabé de Juan Xabato
y la gaita de Pravillos
y todos los caramillos
que hay enel hato
y para el niño un silbato.
Partem-se pera o presépio cantando:
Aburremos la majada
y todos con devoción
vamos ver aquel garzón.
Veremos aquel niñito
d’agora recién nacido
asmo que es el prometido
nuestro mexía bendito.
Cantemos a voz en grito
con hemencia y devoción
veremos aquel garzón.
E chegando ao presépio diz GIL:
Dios mantenga a vuestra gloria
ya veis que estamos acá
muy allegres soncas ah
de vuestra nueble vitoria.
A vos virgem digo yo
qu’el mochacho que hoy nasció
no entiendo que me entiende
mas sí que todo comprende
del punto que se engendró.
LUCAS
Qué casa tan pobrecita
escogió para nascer.
BRÁS
Ya comienza a padecer
dende su niñez bendita.
SILVESTRE
De paja es su camacita.
LUCAS
Y establo su posada.
BRÁS
Loada sea y adorada
y bendita
la su clemencia infinita.
GIL
Señora con estos hielos
el niño se está temblando
de frio veo llorando
el criador de los cielos
por falta de pañizuelos.
Juri a san si tal pensara
o por dicha tal supiera
um zamarro le truxera
de una vara
que ahotas qu’él callara.
Ora vosotros qué hacéis?
Com muy chapada hemencia
e con vuestra revellencia
dalde deso que traéis.
SILVESTRE
Perdonad señor por Dios
que como somos bestiales
los presentes no son tales
como los merecéis vos.
Com tangeres e bailos oferecem
e à despedida cantam esta chançoneta:
Norabuena quedes Menga
a la fe que Dios mantenga
Zagala santa bendita
graciosa y morenita
nuestro ganado visita
que nengún mal no le venga.
Norabuena quedes Menga
a la fe que Dios mantenga.
……………………………………….
Gil Vicente – “Auto Pastoril Castelhano”
quarta-feira, dezembro 15, 2004
Natal Português
Ia nascer o Menino-Deus. Já a beata da Clarinha mai-lo (mais o) João Lájeas lhe armavam a cabana, colmo de palha, chão de musgo, e uma manjedoira para a burra e para a novilha, que era mocha (sem cornos), salvo seja. De parede, punham velhos chamalotes (tecidos) e, em torno do santo berço, os zagais (pastores) de anhos às cavaleiras, os reis com bornal farto e toda a rude malta dos caminhos. A Clara pernóstica (espevitada) todos os anos mandava cortar à Glòrinhas, que tinha muito boas mãos, uma camisa nova para o menino; camisa de fina holanda (tecido), muito cóscora (duro) da goma, colarinho à marialva, e ele, que era mesmo um torrão de açúcar, ria, ria, nem que lhe estivessem a fazer cócegas no umbigo. E assim fagueiro (sereno), nas sombras esvaentes da missa do galo, à luz das velas de chama de oiro, o dava a beijar o Sr. Padre, murmurando:
- Venite, adoremus.
O Menino-Deus era regalado de beijos, que de prendas não. Para o vale, peitavam-no (presenteavam-no) com melápios (peros doces), camoesas, peras, pinhas de gulosaria, enchendo-se a rica bandeja que no adro ia à praça para quem mais desse. Na Serra, não havia mimos e o João da Cruz andava caro. Embora, o Salvador do Mundo acolhia os serranos sempre muito prazenteiro, como se cada um lhe levasse todo o oiro, incenso e mirra dos magos do Oriente.
Lá andava no presépio o João Lájeas, entrementes que as donas da casa faziam os preparos da consoada.
O carujo (nevoeiro espesso) vinha descendo dos picotos, e os ladridos dos cães, nos rebanhos, soavam de longe, que nem do cabo do mundo. Caía um taró (frio) de rachar, mas larga, não era com o juiz da capela que ele queria meças. Temente a Deus e observador daquele grande dia de preceito, vingava-se de bocada a menos com gòlada a mais. A santa madre igreja, benfeitora dos homens, ordenava: tende fome, mas nanja (não) tende sede. E, ao ir por pregos, e pelo martelo, e por água para lavar a cara tisnada de Belchior (rei mago), torcia o caminho pelo vendeiro (mercearia/taberna).
- Que bafo vomecê deita, tio João! – exclamava a Clarinha beata, desviando a venta. – Se lhe prantam (põem) um lume à boca, arde como pólvora.
- Pois olha, mal o provei; não tem lastro (comida). O Menino-Deus me aceite o sacrifício!
A noite vinha descendo, nimbada (nublada) de bruma. Levava um ano a voltar, bem-vinda fosse com o cepo a infundir-se (queimar-se) na lareira, caçoilas cheias, paz e alegria! Muitos, antes de perfazer seu giro a roda do tempo, estariam a adubar a terra da verdade (mortos). Outros levá-los-ia o fadário (a sorte) para longe. Toca a comer e a beber, e salve, noite do Natal!
- Venite, adoremus.
O Menino-Deus era regalado de beijos, que de prendas não. Para o vale, peitavam-no (presenteavam-no) com melápios (peros doces), camoesas, peras, pinhas de gulosaria, enchendo-se a rica bandeja que no adro ia à praça para quem mais desse. Na Serra, não havia mimos e o João da Cruz andava caro. Embora, o Salvador do Mundo acolhia os serranos sempre muito prazenteiro, como se cada um lhe levasse todo o oiro, incenso e mirra dos magos do Oriente.
Lá andava no presépio o João Lájeas, entrementes que as donas da casa faziam os preparos da consoada.
O carujo (nevoeiro espesso) vinha descendo dos picotos, e os ladridos dos cães, nos rebanhos, soavam de longe, que nem do cabo do mundo. Caía um taró (frio) de rachar, mas larga, não era com o juiz da capela que ele queria meças. Temente a Deus e observador daquele grande dia de preceito, vingava-se de bocada a menos com gòlada a mais. A santa madre igreja, benfeitora dos homens, ordenava: tende fome, mas nanja (não) tende sede. E, ao ir por pregos, e pelo martelo, e por água para lavar a cara tisnada de Belchior (rei mago), torcia o caminho pelo vendeiro (mercearia/taberna).
- Que bafo vomecê deita, tio João! – exclamava a Clarinha beata, desviando a venta. – Se lhe prantam (põem) um lume à boca, arde como pólvora.
- Pois olha, mal o provei; não tem lastro (comida). O Menino-Deus me aceite o sacrifício!
A noite vinha descendo, nimbada (nublada) de bruma. Levava um ano a voltar, bem-vinda fosse com o cepo a infundir-se (queimar-se) na lareira, caçoilas cheias, paz e alegria! Muitos, antes de perfazer seu giro a roda do tempo, estariam a adubar a terra da verdade (mortos). Outros levá-los-ia o fadário (a sorte) para longe. Toca a comer e a beber, e salve, noite do Natal!
Aquilino Ribeiro – "Terras do Demo"
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