Está a começar o ano de 2005, segundo o calendário gregoriano.
Ou será o ano de 5763, como dizem os judeus?
Ou o ano de 1380, como entendem os islâmicos?
Poderá ser qualquer outro ano, ou mês, ou dia... Não tem importância.
O que importa é que todos os Lapas, os seus familiares e os seus amigos tenham os próximos 365 dias (ou 400 ou 500) cheios de saúde, de paz e de felicidade.
Este blog pretende ajudar a que este desejo se possa concretizar.
Para todos um Bom Ano Novo
Quim
sexta-feira, dezembro 31, 2004
quinta-feira, dezembro 30, 2004
Ano Novo (2)
É quase meia-noite. Numa inquietação crescente, vou escrevinhando a consultar o relógio a cada momento. Quero assistir à passagem do ano. Faltam vinte minutos, faltam quinze, faltam dez… Um agiota não faria melhor se estivesse ao pulso de um agonizante de quem esperasse herdar uma grande fortuna. E acabo por me rir. Farto de saber que nada vai mudar, roído de desilusões, e teimo na estupidez das mais vezes! Simplesmente, não desisto. A razão argumenta, a experiência ensina, e nos recônditos do meu ser nenhuma lição de objectividade encontra eco. Orgulhosos da nossa ciência, e seguros de que dominamos a natureza, zombamos dos nossos avós e dos rituais com que tentavam exorcizar as forças do mal e propiciar a renovação do tempo. Mas, no fundo, continuamos supersticiosos e crédulos como eles. A abafar ruidosamente a emoção a tiros de petardo ou de champanhe, ouvimos bater as doze badaladas na secreta esperança de que elas sejam a meta remissa do passado e o ponto de partida dum futuro redentor. Assim persiste sob a máscara soberba do civilizado a humildade do primitivo. A humildade que o mantém vivo nas selvas da ignorância, ao lado do morto que vai sendo nas avenidas da sabedoria…
Miguel Torga - «Diário XI» (31/12/69)
Miguel Torga - «Diário XI» (31/12/69)
Ano Novo (1)
Outro ano. Toda a gente excitada, e, de conhecido para conhecido, esta senha:
- Boas entradas!
- Igualmente! – responde o contemplado.
E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé direito à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas mói os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.
Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora – agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca:
- Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei!
Que me lembre, apenas Raul Brandão teve a grandeza e a lealdade de escrever que repetiria o calvário da vida sem lhe alterar o itinerário. Isto sim, isto é de quem entendeu a fundo que a existência não deve ter soluções de continuidade, nem ser prevista. Deus me livre de saber antecipadamente que por certo beijo que roubei em rapaz a uma cachopa da minha terra receberia a bofetada que recebi!
A coisa foi maravilhosa por ter sido um jogo, um atrevimento, um risco, e motivar aquela réplica inesperada e ardente!
«- Se eu soubesse…»
Mas como felizmente ninguém pode voltar atrás, nem saber antes de saber, vai de recomeçar vida nova cada novo ano. Cada novo ano que passa a velho logo que se fazem trezentas e sessenta e cinco tolices…
Miguel Torga – «Diário II» (1/1/1943)
- Boas entradas!
- Igualmente! – responde o contemplado.
E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé direito à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas mói os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.
Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora – agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca:
- Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei!
Que me lembre, apenas Raul Brandão teve a grandeza e a lealdade de escrever que repetiria o calvário da vida sem lhe alterar o itinerário. Isto sim, isto é de quem entendeu a fundo que a existência não deve ter soluções de continuidade, nem ser prevista. Deus me livre de saber antecipadamente que por certo beijo que roubei em rapaz a uma cachopa da minha terra receberia a bofetada que recebi!
A coisa foi maravilhosa por ter sido um jogo, um atrevimento, um risco, e motivar aquela réplica inesperada e ardente!
«- Se eu soubesse…»
Mas como felizmente ninguém pode voltar atrás, nem saber antes de saber, vai de recomeçar vida nova cada novo ano. Cada novo ano que passa a velho logo que se fazem trezentas e sessenta e cinco tolices…
Miguel Torga – «Diário II» (1/1/1943)
quarta-feira, dezembro 29, 2004
Para escrever no blog
1 – Abrir o site (sítio da net) www ponto blogger ponto com;
2 – Escrever o username (nome de utilizador) e a password (palavra-passe);
3 – Clicar em «Sign in»;
4 – Clicar sobre «Lapa-Mundi»;
5 – Clicar em «Create a new post»;
6 – Escrever o título e, mais abaixo, o post (ou seja, o texto);
7 – Para ver como vai ficar, clicar em «Preview» (escrito a azul);
8 – Para sair do Preview, clicar em «Hide Preview» (escrito a azul);
9 – Por fim, clicar em «Publish post» (escrito a vermelho);
10 – Esperar que a publicação esteja completa;
11 – Para ver o blog já escrito, clicar em «View Blog»;
12 – Para sair, clicar em «Sign out».
2 – Escrever o username (nome de utilizador) e a password (palavra-passe);
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5 – Clicar em «Create a new post»;
6 – Escrever o título e, mais abaixo, o post (ou seja, o texto);
7 – Para ver como vai ficar, clicar em «Preview» (escrito a azul);
8 – Para sair do Preview, clicar em «Hide Preview» (escrito a azul);
9 – Por fim, clicar em «Publish post» (escrito a vermelho);
10 – Esperar que a publicação esteja completa;
11 – Para ver o blog já escrito, clicar em «View Blog»;
12 – Para sair, clicar em «Sign out».
Para ser membro do blog
Fazer o seguinte:
1 - Abrir o e-mail com o convite que eu enviei;
2 - Clicar na linha que está escrita a azul;
3 - Abre-se um ecran que diz «Join a Blog»;
4 - Clicar em «Create an account»;
5 - Abre-se o ecran «Create an account»;
6 - Preencher os espaços (basta os obrigatórios) e, depois, clicar no quadradinho junto a "acceptance of terms»;
7 - Clicar em «Continue»;
8 - Abre-se um ecran que diz «Dashboard». A inscrição está completa.
9 - Para escrever, deve ler o post: «Para escrever no blog»
1 - Abrir o e-mail com o convite que eu enviei;
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3 - Abre-se um ecran que diz «Join a Blog»;
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5 - Abre-se o ecran «Create an account»;
6 - Preencher os espaços (basta os obrigatórios) e, depois, clicar no quadradinho junto a "acceptance of terms»;
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8 - Abre-se um ecran que diz «Dashboard». A inscrição está completa.
9 - Para escrever, deve ler o post: «Para escrever no blog»
domingo, dezembro 26, 2004
Bola de Neve
Apesar de não terem passado ainda três semanas desde o dia em que este blog nasceu, dá gosto ver como ele tem crescido. Os seus participantes aumentaram um pouco, mas os conteúdos aumentaram muito.
Com o decorrer do tempo, o conteúdo do blog vai aumentando cada vez mais, o que faz lembrar uma bola de neve (cujo volume aumenta à medida que ela rola).
Mas não é só a quantidade dos conteúdos que aumenta. É também a qualidade dos mesmos. De facto, o que começou por uns pequenos textos sem pretensões evoluiu para a transcrição de textos literários em língua portuguesa alusivos a esta quadra do Natal, para o cuidado estético desses textos, para a colocação de fotografias alusivas a vários temas e, por último, para a colocação de desenhos feitos por um dos membros.
O que é mais interessante é que, à medida que aumenta o grau de dificuldade de cada «post», se verifica a necessidade de uma maior colaboração entre os vários membros – cada um segundo as suas capacidades – para se atingir o resultado final.
Um exemplo disso é o post «Ti Jorge» em que a Sónia Catarina teve a ideia e fez o desenho, o irmão José Afonso ajudou a trabalhá-lo informaticamente, o pai José Alves ajudou a colocá-lo no blog, e o tio Quim colaborou na redacção do texto explicativo.
A beleza deste blog traduz-se precisamente nesta realização conjunta, na partilha de experiências e na satisfação que isto dá a quem participa e a quem usufrui deste nosso trabalho voluntário.
Espero que este espírito se alargue a outras pessoas e que se mantenha por muito tempo.
sábado, dezembro 25, 2004
Breve explicação
Alguém poderá perguntar por que razão um dos mais conhecidos textos sobre Cristo e o Natal (o «Evangelho segundo Jesus Cristo», de José Saramago) não consta dos excertos literários postos neste blog.
A razão é esta:
Aquilino Ribeiro e José Saramago são ambos cépticos (sem fé).
Mas, enquanto o primeiro (no «Livro do Menino-Deus») aborda o tema do ponto de vista popular e com absoluto respeito pelas crenças do povo, o segundo trata o mesmo tema construindo um romance em que – apesar de seguir o texto evangélico – altera o carácter das personagens e o papel tradicional representado pelas mesmas.
E, o que é pior, intercala na narração comentários que são pessoais ou subjectivos, e que – se não terão qualquer gravidade noutro contexto – aqui se tornam ofensivos da crença e da cultura do povo português em geral.
Por isso, entendo que devo defender a crença religiosa dos «Lapas», não colocando aqui (nem deixando que outros coloquem) textos extraídos do romance do prémio Nobel acima referido.
É esta uma das prerrogativas de ser administrador do blog.
Aceitam-se comentários.
A razão é esta:
Aquilino Ribeiro e José Saramago são ambos cépticos (sem fé).
Mas, enquanto o primeiro (no «Livro do Menino-Deus») aborda o tema do ponto de vista popular e com absoluto respeito pelas crenças do povo, o segundo trata o mesmo tema construindo um romance em que – apesar de seguir o texto evangélico – altera o carácter das personagens e o papel tradicional representado pelas mesmas.
E, o que é pior, intercala na narração comentários que são pessoais ou subjectivos, e que – se não terão qualquer gravidade noutro contexto – aqui se tornam ofensivos da crença e da cultura do povo português em geral.
Por isso, entendo que devo defender a crença religiosa dos «Lapas», não colocando aqui (nem deixando que outros coloquem) textos extraídos do romance do prémio Nobel acima referido.
É esta uma das prerrogativas de ser administrador do blog.
Aceitam-se comentários.
quinta-feira, dezembro 23, 2004
Saudação
Olá a todos!
Sou a Graça Lapa.
A partir de agora, também sou membro deste blog.
De vez em quando virei aqui dizer-vos alguma coisa.
Por agora, só quero agradecer ao meu marido (Quim) e ao meu filho (Miguel) pelo seu entusiasmo na criação deste esplêndido meio de comunicação entre os «Lapas» e respectivos familiares.
Aproveito para desejar a todos vocês um Feliz Natal e um Bom Ano Novo!
Graça
Coimbra
As fotos de S. Paulo e de Newark são bonitas.
Mas, temos de mostrar também algumas imagens da nossa bela cidade de Coimbra.
Ficam aqui dois exemplos arranjados um pouco à pressa.
A primeira é uma imagem mundialmente conhecida da Universidade (parte antiga - onde se situa a Faculdade de Direito e o Instituto Jurídico); e a segunda é uma vista geral da cidade (centro histórico).
Mas, temos de mostrar também algumas imagens da nossa bela cidade de Coimbra.
Ficam aqui dois exemplos arranjados um pouco à pressa.
A primeira é uma imagem mundialmente conhecida da Universidade (parte antiga - onde se situa a Faculdade de Direito e o Instituto Jurídico); e a segunda é uma vista geral da cidade (centro histórico).
Menino-Deus
Inspirada pelos anjos, recostou-se na manjedoira, duas tábuas com outra de guarda armadas contra a parede. E voltando-se para oriente, no mais quieto e sossegado da noite, com o céu a destilar mel e cinamono, Maria deu à luz o Unigénito. Era bonito o bebé, com o que saiu verdadeiro o dizer dos Cantares de que o ventre daquela mãe era um campo de trigo donde brotaria uma papoila nunca vista. Mas quando os reis da Pérsia destinavam cento e oitenta milhões para gastos de cama e as almofadas em que nasciam e se criavam os infantes; enquanto o trono de Salomão era de marfim recamado de oiro e o seu reclinatório de púrpura bordada a prata e oiro e constelada de gemas, com uma guarda de sessenta núbios à roda – ele nascia num presépio sobre o retraço dos animais.
(…) Nasceu sem adjutório ou ministério de qualquer pessoa, sem queixa nem moléstia de sua santíssima mãe, antes, como anunciara Isaías, laetabunda et laudans, contentíssima e dando graças. Da mesma maneira que a árvore não sente dor quando despega o fruto maduro, assim sucedeu com ela. E como não – argumentam os doutores de pensar subtil – se a dor e tormento do parto correspondem ao deleite da concepção carnal, e ela fora alheia a todo o toque?
(…) As vozes são discordes quanto à presença ou não presença da túnica placentária, secundina lhe chamavam S. Jerónimo e as nossas avós, que devia cingir o corpinho do Menino-Deus.
(…) Muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca, como ideou S. Francisco no primeiro presépio e, após ele, quantos poetas souberam pegar em pincéis, e quantos rapsodos vazaram a rude palavra de romance nas ledas estâncias dos autos e mistérios. Se veio a cavalo de Nazaré, não admira que apareça uma burra a bafejar o inocentinho intanguido nas palhas nuas. Mas donde saiu a vaca?
(…) Foi a noite santa uma noite de prodígios. Ruiu em Roma o templo da Paz, explicando os intérpretes sagrados que, bem embora há quatro anos se não ouvisse ferrolhar na bainha a espada de um legionário, tinha ali fim aquela paz torpe, feita de violência sob a égide dos fáscios romanos, e começava outra, a paz em que o leão havia de comer a palha com o boi, segundo Isaías, aquela em que Cristo seria o primeiro ladrão, na frase de Santo Ireneu, despojando o rico em favor do pobre, paz proclamada desde o começo das idades pelas longas e sacabuxas de anjos e serafins:
- Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!
Essa noite viu-se orvalhada a terra sem se molhar o véu de Gedeão. Calaram-se os oráculos em quantos bosques sagrados cobriam a Hélade e a terra latina, e ouviram-se os lamentos flébeis das pitonisas e divindades voluptuosas mergulhando para todo o sempre no recesso das selvas e nas grutas que se cisparam uma vez por todas. O grande Apolo Pítio, para o qual corriam os devotos como abelhas para a flor da esteva, desapareceu a clamar:
- Um menino judeu manda-me tornar para o Orco! Adeus para sempre, adeus para sempre!
Em Roma esteve a correr azeite à franca para quem queria, e vieram da Suburra e até mesmo da oficina de Vénus que havia na Via Ápia mulheres munidas de celhas a apará-lo. As vinhas de Engadi deram uvas. Caíram ao chão no Egipto, despedaçando-se, os ídolos de bronze. Desfez-se também em bocados a estátua da Loba e até as letras sagradas se apagaram nas colunas votivas dos templos e das praças.
Mal o Menino veio à luz, sem uma mancha, branco e limpo que nem talhado em neve pura, beijou-lhe Maria os pés como a seu Deus e depois o rosto como a seu filho. E logo ele lhe sorriu um sorriso que a inundou de luz, sinal do sol rútilo que ia alvorecer para o mundo.
Enfaixou-o a mãe nos panos de beatilha com que viera preparada e chegou-o ao peito. Foi mamando, agora já de beicinhos roxos pelo frio, que os pastores o vieram encontrar com as oferendas. Traziam queijinhos de seus bardos, braçadas de flores, fruta e aves de capoeira. (…) Os pastores entraram de surrão, com suas mocas debaixo do braço, seus chapeirões contra o sol, a gaita a espreitar da algibeira. E, dobrando o joelho, o adoraram. A voz dum vulto que se escoava na noite dissera-lhes na primeira modorra:
- Ide à corte dos gados, à entrada de Belém, no caminho da cisterna de David, que nasceu lá o Messias!
Era então verdade? Os coxos e os trôpegos iam saltar como cervos? Ia raiar o sol da justiça para todos? Nunca mais o forte espancaria o fraco, nem o rico poderia jantar duas vezes enquanto ao pobre só restava o direito de morrer a louvar o Senhor?
Afirmam os teólogos que ali se operou miraculosamente a união dos termos mais antitéticos que o espírito pode conceber: - Deus e homem, virgem e mãe, eternidade e tempo, céu e terra, morte e vida, e a percepção de tal mistério pelo coração do homem. Os pastores, esses, esperavam a redenção humana do mal, do sofrimento, da dor e da agonia. Por isso, entoavam e a sua voz chamava a gente que passava para os agros na manhã alta:
- Gloria in excelsis Deo!!
Aquilino Ribeiro – “O Livro do Menino-Deus”
(…) Nasceu sem adjutório ou ministério de qualquer pessoa, sem queixa nem moléstia de sua santíssima mãe, antes, como anunciara Isaías, laetabunda et laudans, contentíssima e dando graças. Da mesma maneira que a árvore não sente dor quando despega o fruto maduro, assim sucedeu com ela. E como não – argumentam os doutores de pensar subtil – se a dor e tormento do parto correspondem ao deleite da concepção carnal, e ela fora alheia a todo o toque?
(…) As vozes são discordes quanto à presença ou não presença da túnica placentária, secundina lhe chamavam S. Jerónimo e as nossas avós, que devia cingir o corpinho do Menino-Deus.
(…) Muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca, como ideou S. Francisco no primeiro presépio e, após ele, quantos poetas souberam pegar em pincéis, e quantos rapsodos vazaram a rude palavra de romance nas ledas estâncias dos autos e mistérios. Se veio a cavalo de Nazaré, não admira que apareça uma burra a bafejar o inocentinho intanguido nas palhas nuas. Mas donde saiu a vaca?
(…) Foi a noite santa uma noite de prodígios. Ruiu em Roma o templo da Paz, explicando os intérpretes sagrados que, bem embora há quatro anos se não ouvisse ferrolhar na bainha a espada de um legionário, tinha ali fim aquela paz torpe, feita de violência sob a égide dos fáscios romanos, e começava outra, a paz em que o leão havia de comer a palha com o boi, segundo Isaías, aquela em que Cristo seria o primeiro ladrão, na frase de Santo Ireneu, despojando o rico em favor do pobre, paz proclamada desde o começo das idades pelas longas e sacabuxas de anjos e serafins:
- Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!
Essa noite viu-se orvalhada a terra sem se molhar o véu de Gedeão. Calaram-se os oráculos em quantos bosques sagrados cobriam a Hélade e a terra latina, e ouviram-se os lamentos flébeis das pitonisas e divindades voluptuosas mergulhando para todo o sempre no recesso das selvas e nas grutas que se cisparam uma vez por todas. O grande Apolo Pítio, para o qual corriam os devotos como abelhas para a flor da esteva, desapareceu a clamar:
- Um menino judeu manda-me tornar para o Orco! Adeus para sempre, adeus para sempre!
Em Roma esteve a correr azeite à franca para quem queria, e vieram da Suburra e até mesmo da oficina de Vénus que havia na Via Ápia mulheres munidas de celhas a apará-lo. As vinhas de Engadi deram uvas. Caíram ao chão no Egipto, despedaçando-se, os ídolos de bronze. Desfez-se também em bocados a estátua da Loba e até as letras sagradas se apagaram nas colunas votivas dos templos e das praças.
Mal o Menino veio à luz, sem uma mancha, branco e limpo que nem talhado em neve pura, beijou-lhe Maria os pés como a seu Deus e depois o rosto como a seu filho. E logo ele lhe sorriu um sorriso que a inundou de luz, sinal do sol rútilo que ia alvorecer para o mundo.
Enfaixou-o a mãe nos panos de beatilha com que viera preparada e chegou-o ao peito. Foi mamando, agora já de beicinhos roxos pelo frio, que os pastores o vieram encontrar com as oferendas. Traziam queijinhos de seus bardos, braçadas de flores, fruta e aves de capoeira. (…) Os pastores entraram de surrão, com suas mocas debaixo do braço, seus chapeirões contra o sol, a gaita a espreitar da algibeira. E, dobrando o joelho, o adoraram. A voz dum vulto que se escoava na noite dissera-lhes na primeira modorra:
- Ide à corte dos gados, à entrada de Belém, no caminho da cisterna de David, que nasceu lá o Messias!
Era então verdade? Os coxos e os trôpegos iam saltar como cervos? Ia raiar o sol da justiça para todos? Nunca mais o forte espancaria o fraco, nem o rico poderia jantar duas vezes enquanto ao pobre só restava o direito de morrer a louvar o Senhor?
Afirmam os teólogos que ali se operou miraculosamente a união dos termos mais antitéticos que o espírito pode conceber: - Deus e homem, virgem e mãe, eternidade e tempo, céu e terra, morte e vida, e a percepção de tal mistério pelo coração do homem. Os pastores, esses, esperavam a redenção humana do mal, do sofrimento, da dor e da agonia. Por isso, entoavam e a sua voz chamava a gente que passava para os agros na manhã alta:
- Gloria in excelsis Deo!!
Aquilino Ribeiro – “O Livro do Menino-Deus”
quarta-feira, dezembro 22, 2004
Pausa para pensar
Tenho pena que só eu e o Zé Alves estejamos a escrever neste blog. Ambos temos trocado belos textos sobre o Natal em língua portuguesa. Mas, será que estes textos contribuem para afastar ainda mais os outros membros da grande família dos «Lapas»? Ou será que ninguém mais quer utilizar este fantástico meio de comunicação que está à disposição dentro das nossas próprias casas? As pessoas têm uma grande tendência para se fecharem no seu casulo, na sua toca, no seu galho, e para não conviverem umas com as outras. Isto não contece apenas na comunidade nacional ou citadina. Como vemos, acontece também nas famílias unidas por laços de parentesco. E em qualquer época do ano, incluindo esta do Natal. É uma pena que assim seja. Espero que a desculpa não seja o facto de não saberem inglês suficiente para se tornarem membros ou para poderem escrever no blog. Se sucedesse isto, penso que as pessoas deviam tentar outros modos de comunicação (e-mail, telefone, etc.) para esclarecerem as suas dúvidas e removerem as dificuldades. Que pensam disto os que lêem este blog? Se não souberem ou não quiserem escrever um «post», pelo menos façam um comentário breve no espaço reservado para isso.
domingo, dezembro 19, 2004
Um conto de Natal
De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam… Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim…Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.
E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa… E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura… Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele, então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo… Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa…
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida… Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas, estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.
- Boas festas! – desejou-lhe então, a sorrir também.
Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
- Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.
Miguel Torga – “Novos Contos da Montanha”
E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa… E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura… Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele, então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo… Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa…
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida… Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas, estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.
- Boas festas! – desejou-lhe então, a sorrir também.
Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
- Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.
Miguel Torga – “Novos Contos da Montanha”
Um auto de Natal
Figuras do auto: - um Anjo e vários pastores.
………………………………………
Dormem e o Anjo os chama cantando:
Ah pastor
qu’es nacido el redentor.
GIL
Zagales llevantar d’ahi
que grande nueva es venida
que es la virgem parida
a los ángeles lo oí.
Oh qué tónica acordada
de tan fuertes caramillos.
BRÁS
Cata que serían grillos.
GIL
Júri a nos
Que eran ángeles de Dios.
LUCAS
E nos aqui llevantados
qué le habemos de hacer?
GIL
Mi fe vámoslo a ver.
BRÁS
Y ansí despelluzados?
GIL
Pardiez que es para notar
pues el rey de los señores
se sirve de los pastores
nueva cosa
es esta y muy espantosa.
Id vosotros al llugar
muy presto carillos mios
y no vamos tan vacíos
traed algo que le dar.
Y el rabé de Juan Xabato
y la gaita de Pravillos
y todos los caramillos
que hay enel hato
y para el niño un silbato.
Partem-se pera o presépio cantando:
Aburremos la majada
y todos con devoción
vamos ver aquel garzón.
Veremos aquel niñito
d’agora recién nacido
asmo que es el prometido
nuestro mexía bendito.
Cantemos a voz en grito
con hemencia y devoción
veremos aquel garzón.
E chegando ao presépio diz GIL:
Dios mantenga a vuestra gloria
ya veis que estamos acá
muy allegres soncas ah
de vuestra nueble vitoria.
A vos virgem digo yo
qu’el mochacho que hoy nasció
no entiendo que me entiende
mas sí que todo comprende
del punto que se engendró.
LUCAS
Qué casa tan pobrecita
escogió para nascer.
BRÁS
Ya comienza a padecer
dende su niñez bendita.
SILVESTRE
De paja es su camacita.
LUCAS
Y establo su posada.
BRÁS
Loada sea y adorada
y bendita
la su clemencia infinita.
GIL
Señora con estos hielos
el niño se está temblando
de frio veo llorando
el criador de los cielos
por falta de pañizuelos.
Juri a san si tal pensara
o por dicha tal supiera
um zamarro le truxera
de una vara
que ahotas qu’él callara.
Ora vosotros qué hacéis?
Com muy chapada hemencia
e con vuestra revellencia
dalde deso que traéis.
SILVESTRE
Perdonad señor por Dios
que como somos bestiales
los presentes no son tales
como los merecéis vos.
Com tangeres e bailos oferecem
e à despedida cantam esta chançoneta:
Norabuena quedes Menga
a la fe que Dios mantenga
Zagala santa bendita
graciosa y morenita
nuestro ganado visita
que nengún mal no le venga.
Norabuena quedes Menga
a la fe que Dios mantenga.
……………………………………….
Gil Vicente – “Auto Pastoril Castelhano”
quinta-feira, dezembro 16, 2004
Dia de Natal
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão – “Poesias Completas (1956-1967)”
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão – “Poesias Completas (1956-1967)”
quarta-feira, dezembro 15, 2004
Natal Português
Ia nascer o Menino-Deus. Já a beata da Clarinha mai-lo (mais o) João Lájeas lhe armavam a cabana, colmo de palha, chão de musgo, e uma manjedoira para a burra e para a novilha, que era mocha (sem cornos), salvo seja. De parede, punham velhos chamalotes (tecidos) e, em torno do santo berço, os zagais (pastores) de anhos às cavaleiras, os reis com bornal farto e toda a rude malta dos caminhos. A Clara pernóstica (espevitada) todos os anos mandava cortar à Glòrinhas, que tinha muito boas mãos, uma camisa nova para o menino; camisa de fina holanda (tecido), muito cóscora (duro) da goma, colarinho à marialva, e ele, que era mesmo um torrão de açúcar, ria, ria, nem que lhe estivessem a fazer cócegas no umbigo. E assim fagueiro (sereno), nas sombras esvaentes da missa do galo, à luz das velas de chama de oiro, o dava a beijar o Sr. Padre, murmurando:
- Venite, adoremus.
O Menino-Deus era regalado de beijos, que de prendas não. Para o vale, peitavam-no (presenteavam-no) com melápios (peros doces), camoesas, peras, pinhas de gulosaria, enchendo-se a rica bandeja que no adro ia à praça para quem mais desse. Na Serra, não havia mimos e o João da Cruz andava caro. Embora, o Salvador do Mundo acolhia os serranos sempre muito prazenteiro, como se cada um lhe levasse todo o oiro, incenso e mirra dos magos do Oriente.
Lá andava no presépio o João Lájeas, entrementes que as donas da casa faziam os preparos da consoada.
O carujo (nevoeiro espesso) vinha descendo dos picotos, e os ladridos dos cães, nos rebanhos, soavam de longe, que nem do cabo do mundo. Caía um taró (frio) de rachar, mas larga, não era com o juiz da capela que ele queria meças. Temente a Deus e observador daquele grande dia de preceito, vingava-se de bocada a menos com gòlada a mais. A santa madre igreja, benfeitora dos homens, ordenava: tende fome, mas nanja (não) tende sede. E, ao ir por pregos, e pelo martelo, e por água para lavar a cara tisnada de Belchior (rei mago), torcia o caminho pelo vendeiro (mercearia/taberna).
- Que bafo vomecê deita, tio João! – exclamava a Clarinha beata, desviando a venta. – Se lhe prantam (põem) um lume à boca, arde como pólvora.
- Pois olha, mal o provei; não tem lastro (comida). O Menino-Deus me aceite o sacrifício!
A noite vinha descendo, nimbada (nublada) de bruma. Levava um ano a voltar, bem-vinda fosse com o cepo a infundir-se (queimar-se) na lareira, caçoilas cheias, paz e alegria! Muitos, antes de perfazer seu giro a roda do tempo, estariam a adubar a terra da verdade (mortos). Outros levá-los-ia o fadário (a sorte) para longe. Toca a comer e a beber, e salve, noite do Natal!
- Venite, adoremus.
O Menino-Deus era regalado de beijos, que de prendas não. Para o vale, peitavam-no (presenteavam-no) com melápios (peros doces), camoesas, peras, pinhas de gulosaria, enchendo-se a rica bandeja que no adro ia à praça para quem mais desse. Na Serra, não havia mimos e o João da Cruz andava caro. Embora, o Salvador do Mundo acolhia os serranos sempre muito prazenteiro, como se cada um lhe levasse todo o oiro, incenso e mirra dos magos do Oriente.
Lá andava no presépio o João Lájeas, entrementes que as donas da casa faziam os preparos da consoada.
O carujo (nevoeiro espesso) vinha descendo dos picotos, e os ladridos dos cães, nos rebanhos, soavam de longe, que nem do cabo do mundo. Caía um taró (frio) de rachar, mas larga, não era com o juiz da capela que ele queria meças. Temente a Deus e observador daquele grande dia de preceito, vingava-se de bocada a menos com gòlada a mais. A santa madre igreja, benfeitora dos homens, ordenava: tende fome, mas nanja (não) tende sede. E, ao ir por pregos, e pelo martelo, e por água para lavar a cara tisnada de Belchior (rei mago), torcia o caminho pelo vendeiro (mercearia/taberna).
- Que bafo vomecê deita, tio João! – exclamava a Clarinha beata, desviando a venta. – Se lhe prantam (põem) um lume à boca, arde como pólvora.
- Pois olha, mal o provei; não tem lastro (comida). O Menino-Deus me aceite o sacrifício!
A noite vinha descendo, nimbada (nublada) de bruma. Levava um ano a voltar, bem-vinda fosse com o cepo a infundir-se (queimar-se) na lareira, caçoilas cheias, paz e alegria! Muitos, antes de perfazer seu giro a roda do tempo, estariam a adubar a terra da verdade (mortos). Outros levá-los-ia o fadário (a sorte) para longe. Toca a comer e a beber, e salve, noite do Natal!
Aquilino Ribeiro – "Terras do Demo"
Fernando Pessoa
Eu escrevo este post porque quero partilhar convosco as aulas de port. Têm sido espectaculares com o estudo do FP (Fernando Pessoa), esse ganda maluco que teve internado no sobral cid pk mandava cartas dele para ele próprio e criticava-s ele mm mas com outros nomes para tentar disfarçar. A razão dele ter morrido tão jobem foi pk não aguentava a sua estadia no sobral cid e foi então que o Álvaro de Campos, juntamente com Ricardo Reis e com o conhecimento de Alberto Caeiro, decidiu por termo à vida de FP. So para vocês verem o k eu e os meus colegas passamos aki vai um excerto dum poema dele:
“O poeta é um fingidor,
Finge tão completamente,
Que chega a fingir que é dor,
A dor que deveras sente.”
Agora leiam o excerto outra vez mas mais lento…
Digam-m 1 coisa, vocês percebem o k é k ele ker dizer com aquilo, so podia tar maluco, a tradução para português deste excerto é:
“O Pessoa está maluco,
Foi-o desde criança,
De tanto escrever está rouco
K já a mim me cansa”
É para verem o k eu tenho de aturar nas aulas, os pensamentos escritos de um louco…
Mas para dar um espírito natalício a este post (que é o k se tem visto nos posts deste blog), vou digitar 1 poema de natal do FP intitulado “Ó sino da minha aldeia”.
“Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.”
Não era bem isto k estavam a espera, é verdade, isto não e um poema de natal nem tem nada a ver com tal tema, mas achei k os sinos da aldeia do FP (estranho, porque FP vivia na cidade) vos fizesse lembrar os sinos de natal… LOL
“O poeta é um fingidor,
Finge tão completamente,
Que chega a fingir que é dor,
A dor que deveras sente.”
Agora leiam o excerto outra vez mas mais lento…
Digam-m 1 coisa, vocês percebem o k é k ele ker dizer com aquilo, so podia tar maluco, a tradução para português deste excerto é:
“O Pessoa está maluco,
Foi-o desde criança,
De tanto escrever está rouco
K já a mim me cansa”
É para verem o k eu tenho de aturar nas aulas, os pensamentos escritos de um louco…
Mas para dar um espírito natalício a este post (que é o k se tem visto nos posts deste blog), vou digitar 1 poema de natal do FP intitulado “Ó sino da minha aldeia”.
“Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.”
Não era bem isto k estavam a espera, é verdade, isto não e um poema de natal nem tem nada a ver com tal tema, mas achei k os sinos da aldeia do FP (estranho, porque FP vivia na cidade) vos fizesse lembrar os sinos de natal… LOL
segunda-feira, dezembro 13, 2004
Olá Zé
Vi o poema de Torga que enviaste. És um brincalhão porque o escreveste em webdings e, a princípio, eu não percebi nada. Mas, como vês, já o traduzi para uma língua de gente e pintei-o um pouco. Agora, já todos podemos ver que é um belo poema. Gostei da brincadeira. Obrigado.
domingo, dezembro 12, 2004
Web Cam
Já tenho uma web cam. Em breve espero estar pronto a utilizá-la. Não faço ideia de todas as possibilidades que ela oferece. Mas, creio serem muitas. Para já, sei que ela pode ser utilizada para transmitir imagens e sons dos participantes no MSN. Por isso, convido os membros deste blog a comprarem uma câmara destas (elas já são bastante baratas). Se ela puder ser utilizada no blog, tanto melhor. Se não puder, será muito interessante pôr-mo-nos em comunicação áudio e vídeo através do MSN. Que me dizem a isto? Fico à espera da vossa opinião.
Boas-vindas
Finalmente conseguiste, Zé. Estou muito contente com isso. Já estava a cansar-me de ser o único a escrever aqui. O interesse disto está na partilha, na troca de experiências e de ideias. Ontem, a Rosa perguntava se podíamos pôr aqui anedotas. Claro que sim. Podemos pôr aqui tudo o que entendermos. Até crítica política... desde que não haja ofensas a pessoas concretas. Este blog serve para nós partilharmos o que cada um tem de bom (e, se calhar, até as tristezas que a vida nos trouxer). Bem-vindos sejam. Vamos continuar.
quinta-feira, dezembro 09, 2004
Natal
Estamos no tempo do Natal! Por isso, gostava de partilhar convosco dois poemas de Miguel Torga sobre esta quadra tão bela, na qual os homens são um bocadinho menos maus uns para com os outros...
* * * * *
* * *
*
Natal (1950)
--------------
Foi tudo tão normal
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.
Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.
Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário...
E Deus não representou.
* * * * * *
Natal (1962)
--------------
Um anjo imaginado,
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.
Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra e de incenso e oirro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breves como o vento
Que entra por uma fresta, quezilento,
Redemoinha e sai:
À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternamente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?
quarta-feira, dezembro 08, 2004
Jorge
Jorge, já és membro deste clube. Agora espero que escrevas aqui muitas e boas coisas. Tu moras lá longe. Mas, a partir de agora, todos nós estamos aqui para te ouvir e acompanhar o melhor que pudermos. Aguardo as tuas primeiras palavras.
terça-feira, dezembro 07, 2004
Miguel
O meu filho Miguel é o meu «técnico de informática» privativo. Sem ele, não teria sido possível nem o site nem este blog. Por isso, é justo que neste início de jornada lhe deixe aqui expresso o meu muito obrigado. Espero que as longas horas de estudo que ele dedicou a estas matérias lhe sejam proveitosas para a sua vida, e que ele se sinta compensado com a enorme alegria que já deu e continua a dar a nós todos!
Nome do Blog
Como é fácil de ver, o nome escolhido para este blog resulta de uma brincadeira que lembra a palavra mapa-mundi. O termo Mapa é sustituído por Lapa. E o termo Mundi permaneceu porque a família dos Lapas de Alcouce e as famílias que com ela se relacionaram têm os seus membros espalhados por vários continentes.
Lapa-Mundi
Este é o primeiro «post» (assim se chamam as mensagens que se inserem no blog) de mais um projecto que visa reforçar os laços de amizade e cooperação que ligam toda a família Lapa. Há Lapas em diversas partes do mundo. E, enquanto que no website http://www.quim.pt.to a informação é estática, aqui todos podem contribuir para a actualização e a partilha das novidades.
Assim, todos ficaremos mais unidos. E os que moram longe de Portugal sentir-se-ão mais perto da sua família e do seu país.
Este projecto é também uma novidade para mim. Por isso, a evolução do blog acompanhará o ritmo da minha aprendizagem.
Se tiverem alguma dúvida quanto à forma de participarem neste projecto, não hesitem em contactar-me para o meu e-mail: jmoreiragomes@netcabo.pt
Vamos então começar esta aventura, da qual espero que resultem muitas alegrias para todos!
Joaquim Gomes
Este projecto é também uma novidade para mim. Por isso, a evolução do blog acompanhará o ritmo da minha aprendizagem.
Se tiverem alguma dúvida quanto à forma de participarem neste projecto, não hesitem em contactar-me para o meu e-mail: jmoreiragomes@netcabo.pt
Vamos então começar esta aventura, da qual espero que resultem muitas alegrias para todos!
Joaquim Gomes
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