sábado, março 26, 2005

Aniversário

Olá Vinícius.
Não sabemos quantos anos fazes hoje.
Mas, a família que mora em Portugal espera que tu tenhas um dia muito feliz e divertido, que te dêem muitas prendas, que te vejas rodeado e acarinhado por aqueles que te amam, e que este dia se repita por muitos anos.
Muitos parabéns para ti e também para os teus pais (Regina e Sérgio).

Um grande abraço de nós todos.


P A R A B É N S !!!

Uma profissão de risco

Vivíamos na aldeia de S. João do Campo, perto de Coimbra.
O meu pai era o responsável pela vigilância do rio Mondego e seus afluentes desde Coimbra até à Figueira da Foz. Entre as suas competências contava-se a de proteger as margens da chamada vala do norte (um braço do rio), especialmente no tempo das cheias.
Com ele trabalhavam os guarda-rios que o acompanhavam a qualquer hora do dia ou da noite.
O seu zelo profissional não era bem aceite por uma parte da população, a qual costumava aproveitar essas alturas de inundações para atravessar os diques, ir à mata do Estado cortar árvores e arrastá-las na corrente até suas casas.
Esta actividade era proibida por lei. De facto, os troncos que eram conduzidos através da corrente provocavam a destruição dos diques, que tinham de ser reconstruídos a fim de protegerem os campos e as casas daquela zona.
Ora, todas as manhãs o meu pai ia encontrar os diques destruídos em vários sítios e as pessoas na maior aflição por terem as suas propriedades inundadas.
Para obviar a isto, o meu pai resolveu fazer a vigilância dos diques durante a noite.
É necessário que se diga que o meu pai tinha – por causa das suas funções – autorização de uso e porte de arma de fogo.
Logo que foram descobertos os vários infractores, estes foram multados e participadas as ocorrências ao tribunal.
Tendo visto frustrada a sua actividade criminosa, os referidos indivíduos juraram que um dia haviam de matar o meu pai.
E diziam pela aldeia fora para quem os ouvia:
- O senhor chefe só é destemido porque anda armado. Mas, um dia ele há-de ficar sem a pistola.
Contudo, o meu pai era muito corajoso e nunca se deixou intimidar. Assim, continuou a fazer a vigilância nocturna, muitas vezes sozinho.
Uma certa noite, ele saiu de casa para trabalhar. A minha mãe foi vê-lo sair à varanda do meu quarto. É que ela ficava muito aflita sempre que ele saía em missão de fiscalização.
Quando aquele estava prestes a chegar à esquina da casa, no cruzamento da povoação, a minha mãe deu um grito de aflição, exclamando:
- Cuidado, Manel!... Eles estão na esquina da loja e vão te matar!
Eu já estava a dormir na minha cama, e foi com este grito de aflição da minha mãe que acordei.
Soube depois que quatro indivíduos (alguns dos quais já eram ex-presidiários) tinham corrido para junto do meu pai, procurando imobilizá-lo e tirar-lhe a arma.
Para se defender, o meu pai ainda disparou um tiro para o ar.
Mesmo assim, eles conseguiram agarrá-lo, deram um golpe de navalha na mão que segurava a arma e tiraram-lhe esta.
A minha mãe continuou a gritar com toda a força que podia, repetindo sempre:
- Ah, seus malandros! Deixem o meu homem que ele tem filhos para criar e nunca vos fez mal.
Ao ouvirem o barulho, outros populares vieram às janelas de suas casas e gritavam de lá:
- Deixem o senhor Lapa.
Os quatro indivíduos puseram-se de imediato em fuga, levando com eles a arma da vítima.
Estando bastante ferido, o meu pai regressou logo a casa.
No dia seguinte, ele apresentou uma queixa-crime na esquadra da Polícia Judiciária de Coimbra.
O processo seguiu os trâmites legais, os quatro indivíduos vieram a ser condenados e a arma foi restituída ao meu pai.
Resta acrescentar apenas que esta arma acompanhou o meu pai durante toda a sua vida de funcionário público, uma vez que ele tinha uma profissão de risco e precisava de defender a sua vida e integridade física dos ataques dos criminosos.
Mas, embora essa arma lhe pertencesse, ele não quis continuar na sua posse nem deixá-la para os seus filhos na altura em que se reformou, com 70 anos de idade. Por isso, aquele decidiu entregar a pistola e os respectivos documentos na esquadra da Polícia de Segurança Pública mais próxima. [12]

sábado, março 19, 2005

Uma falsa acusação

Eu ainda não teria seis anos de idade. Os meus padrinhos Natália e André trouxeram-me da casa dos meus pais em S. João do Campo para a casa em que eles viviam, na rua Augusta, em Coimbra.
O tempo estava quente e decorria a Festa do Espírito Santo, em Santo António dos Olivais.
Numa dessas noites, tínhamos ido ver os carrosséis. O meu tio comprou-me dois lindos brinquedos: - um pequeno fogareiro de barro e uma cântara pequenina do mesmo material. Senti-me feliz. Mas, essa alegria não durou muito tempo. Aliás, as minhas alegrias nunca duravam muito tempo quando eu estava junto dos meus tios.
No dia seguinte, Domingo, de manhã cedo, acordei e fui para a cozinha brincar com os meus presentes.
Aquele dia decorreu normalmente.
Na segunda-feira à tarde, a minha madrinha chamou-me e disse-me:
- Não te chegou o que te comprámos? Ainda tinhas que ir roubar o dinheiro que estava em cima do frigorífico para ires à mercearia comprar rebuçados?
Eu fiquei sem fala!... Não fazia a mínima ideia do que ela estava a falar.
- Então, ficas aí com essa cara espantada e não dizes nada? – perguntou a minha tia.
Eu, timidamente, respondi-lhe:
- Eu não tirei dinheiro nenhum. Eu não comprei nada.
- És uma mentirosa
– disse ela. Aliás, com esses dentes assim raros, quem é que pode acreditar em ti? Não só roubas como ainda mentes. Mas, quando o teu pai vier cá almoçar amanhã, podes crer que lhe contaremos este episódio.
Ao final da tarde, o meu tio chegou das suas aulas no Liceu D. João III.
A primeira coisa que a minha tia lhe disse foi:
- Sabes, André? A tua sobrinha tirou os trocos que estavam em cima do frigorífico. E não só os tirou como ainda negou tê-lo feito.
Eu estava aterrorizada porque era habitual o meu tio bater-me por qualquer motivo.
Ele sentou-se num banco, encostou-se à mesa da cozinha e disse-me:
- É verdade o que a tua tia acaba de me contar?
Com as lágrimas a rolarem-me pela cara abaixo, e aos soluços, eu disse-lhe:
- Eu não tirei dinheiro nenhum.
Ao ver-me chorar assim, o meu tio disse:
- O teu pai vem cá amanhã almoçar connosco e já resolve esse problema.
Nessa mesma noite, rezámos o terço todos juntos, como era habitual. Eu rezava em voz baixa por me sentir muito triste. De repente, levei uma grande chapada do meu tio, ao mesmo tempo que ele me dizia:
- Quero ouvir a tua voz. Reza alto, ouviste?
No outro dia, o meu pai chegou para almoçar. Ainda me lembro bem da felicidade que ele tinha no rosto ao ver-me. Eu também fiquei feliz por o ver e agarrei-me ao pescoço dele. Então, dei largas à minha tristeza e chorei convulsivamente, agarrada a ele.
Perante isto, ele perguntou-me:
- Filha, o que é que tu tens?
Eu não conseguia largar-me do pescoço dele e parar de chorar.
A minha tia apressou-se a explicar as minhas lágrimas, narrando todas as falsas acusações que já antes me tinha feito.
Depois de a ouvir, o meu pai sentou-se num banco, muito triste, tirou-me os braços do pescoço e pôs-me no chão entre as suas pernas.
E perguntou-me:
- Minha filha, tu tiraste o dinheiro à tua tia? Onde é que o tens?
Eu respondi-lhe:
- Ó papá, eu não tirei dinheiro nenhum. Não sei onde ele está.
Enquanto eu falava com o meu pai, a minha tia ia dizendo:
- Ó Manuel, é natural. São crianças. Elas nem sequer sabem o valor do dinheiro.
O meu pai disse-me então:
- Pronto, filha, não te aflijas. Mas, não voltes a tirar dinheiro nenhum porque eu fico muito magoado contigo. Não foi isso o que eu te ensinei.
Almoçámos. O meu pai foi-se embora e eu continuei a viver naquela casa.
Os dias continuaram sempre iguais. Só eu não esquecia o que tinham feito comigo.
A partir dali, eu metia-me nos cantos, atrás das portas, debaixo das camas, dentro dos guarda-vestidos, em silêncio, e sempre a chorar.
Ao ver isto, foi a minha tia que tomou a iniciativa de dizer ao marido que tinham de me levar para casa dos meus pais.
Uma certa noite, enquanto rezávamos o terço, a minha tia ia arrumando a cozinha. Terminada esta tarefa, começou a limpar o chão da mesma cozinha.
Ao passar com a serapilheira por baixo do frigorífico, ouviu-se um ruído metálico. A minha tia desencostou o aparelho e – ao ver o dinheiro no chão – disse:
- Ó André, afinal as moedas estão aqui. Caíram para trás do frigorífico.
O meu tio continuou a rezar e não disse uma palavra sobre o assunto.
Terminado o terço, fomos todos para a cama sem qualquer alusão ao acontecido.
Eles terão pensado na altura que eu não me apercebi de que aquele dinheiro encontrado no chão era o mesmo que eles afirmavam que eu tinha roubado.
Mas, eu vi bem os olhares que eles trocaram entre si e percebi que aquelas moedas eram as mesmas (duas brancas e três pretas) que eles disseram que eu tinha roubado de cima do frigorífico.
Para aqueles adultos, uma criança como eu não valia nada.
Talvez por isso, eu tratei sempre os meus filhos com seriedade e justiça, como se eles fossem pessoas adultas.
Quando regressei ao seio da minha família (deixando para trás todos os brinquedos que aqueles tios me tinham dado) eu levava esta grande alegria para contar ao meu pai:
- Papá, a madrinha encontrou as cinco moedas no chão, atrás do frigorífico. Como vês, eu não as roubei.
Nessa altura, ele abraçou-me muito e levantou-me no ar.
Depois disse-me:
- Ó minha querida filha, eu acreditei sempre em ti. Sei bem que tu nunca me mentiste. E queres saber uma coisa? Os teus tios bem querem perfilhar-te, mas eu nunca deixarei que isso aconteça. Nunca! [11]

sábado, março 12, 2005

Um homem pobre...mas feliz

O meu pai ia com frequência para longe de casa durante vários dias para fazer a fiscalização dos rios e das ribeiras. Ele ia de camioneta até certos sítios e, a partir daí, a viagem era feita a pé pelas serras, a corta-mato, seguindo aqueles cursos de água.
Os subordinados do meu pai (guarda-rios) acompanhavam-no e iam mostrando a este o trabalho por eles feito, as infracções verificadas, as multas aplicadas, as licenças concedidas, e os casos mais complicados que podiam acabar no tribunal.
Nesses longos percursos, os guarda-rios chamavam por vezes a atenção do meu pai para a necessidade de fazerem uma pausa e de comerem alguma coisa do farnel que traziam consigo.
Diziam eles:
- Meu chefe, é melhor nós pararmos aqui e aproveitarmos para comer qualquer coisa.
E tiravam dos cestos de verga que traziam pedaços de carne, de broa, e uma garrafa de vinho.
O meu pai dizia-lhes:
- Podem sentar-se e comer à vontade porque eu ainda vou dar por ali uma volta.
Isto ia-se repetindo ao longo do dia, de modo especial quando os muitos quilómetros percorridos exigiam ao corpo algum descanso e uma refeição mais substancial.
Mas, a resposta do meu pai era sempre a mesma:
- Sentem-se e comam porque eu vou comendo mesmo a andar.
E, ao dizer isto, ele continuava a andar enquanto tirava alguma coisa da sua mochila.
O meu pai nunca se sentou a comer junto aos seus funcionários. Comia sempre caminhando, o que era interpretado pelos subordinados como um excesso de zelo.
Só à noite, quando chegava a casa esgotado, é que nós ficávamos a saber que o meu pai tinha levado na sua mochila apenas três ou quatro pães que comia enquanto andava e que dobrava ao meio para que parecesse que eles tinham alguma coisa lá dentro.
O meu pai era o chefe de lanço. Mas, era muito mais pobre do que os seus funcionários (guarda-rios) que viviam nas aldeias remotas das serras e aí possuíam algumas terras que também agricultavam.
O meu pai sempre foi zeloso e cumpridor. Mas, aquilo que parecia um excesso de zelo era afinal um certo pudor em mostrar a sua pobreza.
Hoje, ao recordar estes factos, e tendo em conta as muitas ofertas que os guarda-rios faziam ao meu pai ao longo do ano (dizendo sempre “É para os seus meninos” – porque sabiam bem que este não aceitava nada para si), fico convencida de que aquele não conseguiu ocultar totalmente aos outros a pobreza de quem só tinha o seu magro ordenado de funcionário público e tinha sete filhos para criar. [10]

quinta-feira, março 10, 2005

Kinas Forever

tou a ver k este blog tem estado a crescer nao so no num de visitas como tambem na quatidade de pessoas k postam nele, parabens ao blog! vejam so k agora até a minha mae posta neste blog, ela k e dada às novas tecnologias!......
continua assim tio Kinas!

terça-feira, março 08, 2005

Aniversário

Olá Lucas:

Só hoje soubemos que tu fizeste 12 anos no passado dia 19 de Fevereiro.
Já não vamos a tempo de te desejar um feliz dia de aniversário.
Mas desejamos que todo este ano seja para ti cheio de saúde e alegria, com muito amor dos teus pais (Sérgio e Rosângela) e da tua irmã (Paula) e também com muitos êxitos nos teus estudos.
Muitos beijinhos da família de Portugal.

sábado, março 05, 2005

A verdade acima de tudo

O meu irmão Francisco tinha nascido no Hospital da Lousã.
Todos nós estávamos ansiosos por ir lá conhecê-lo.
O meu pai comprou na praça – sabe Deus com que dificuldade – um grande cacho de lindas bananas.
Depois de retirar as compras dos sacos, na cozinha, disse para os filhos ali presentes:
- Estas bananas são para nós levarmos à mamã, na visita que amanhã faremos ao Hospital.
Aquele dia passou.
No dia seguinte, um Domingo, o meu pai vestiu e arranjou os filhos. Depois, preparou-se para embalar o presente que ia levar à sua esposa. Então, deu-se conta de que tinham sido comidas muitas daquelas bananas.
Ao ver isto, o meu pai ficou muitíssimo perturbado. Assim, resolveu chamar todos os filhos à sua presença.
O tom de voz que ele utilizou era aquele que nós bem conhecíamos e que a todos aterrorizava.
Colocou os filhos em fila por ordem decrescente de idades, e a cada um deles perguntou se tinha sido ele que tinha comido as bananas.
A forma como foi feita aquela pergunta mostrava bem que o meu pai não admitia que alguém faltasse à verdade.
O interrogatório começou pelo Vítor, na altura com 18 anos. E terminou no Henrique, que então contava 7 anos.
Todos disseram que não tinham sido eles a comerem as bananas.
Perante isto, o meu pai decidiu:
- Então, vocês vão ser todos castigados. E começo já pelo mais velho que fica aqui comigo. Os outros vão embora, que eu depois vou chamando um de cada vez.
Os meus irmãos começaram a sair lentamente.
De imediato, eu resolvi dar um passo em frente e dizer ao meu pai:
- Papá, não lhes bata. Fui eu que comi aquelas bananas.
O meu pai mudou logo o seu tom de voz. E mandou que saíssem todos imediatamente da sala. Só ali fiquei eu e ele.
Aquele fixou o seu olhar no meu e disse-me:
- Nunca mais voltes a mentir. Eu conheço-te muito bem e sei que não foste tu a comer as bananas. Quem as comeu foi a Rosa e o Henrique. Mas, com a atitude que tu tomaste, impediste-me de os educar. Desta vez eu desculpo-te, porque sei que só o fizeste por amor a todos os teus irmãos.
Este episódio é um pouco triste. Sobretudo por ter acontecido num dia que devia ser só de alegria por irmos visitar pela primeira vez o meu irmão mais novo que acabara de nascer.
Hoje, porém, eu compreendo um pouco o meu pai. Ele tinha imenso gosto em levar aquelas bananas à esposa porque sabia bem que ela gostava muito delas e que se tratava de uma fruta que raramente era comprada em minha casa.
Recordo este facto porque ele mostra bem que o meu pai tudo fez para nos ensinar a nunca faltarmos à verdade.
Essa regra de conduta tem sido o princípio orientador de toda a minha vida e é também aquilo que eu procuro transmitir aos meus filhos, tendo a felicidade de verificar que eles compreenderam bem este valor. [9]