Vivíamos na aldeia de S. João do Campo, perto de Coimbra.
O meu pai era o responsável pela vigilância do rio Mondego e seus afluentes desde Coimbra até à Figueira da Foz. Entre as suas competências contava-se a de proteger as margens da chamada vala do norte (um braço do rio), especialmente no tempo das cheias.
Com ele trabalhavam os guarda-rios que o acompanhavam a qualquer hora do dia ou da noite.
O seu zelo profissional não era bem aceite por uma parte da população, a qual costumava aproveitar essas alturas de inundações para atravessar os diques, ir à mata do Estado cortar árvores e arrastá-las na corrente até suas casas.
Esta actividade era proibida por lei. De facto, os troncos que eram conduzidos através da corrente provocavam a destruição dos diques, que tinham de ser reconstruídos a fim de protegerem os campos e as casas daquela zona.
Ora, todas as manhãs o meu pai ia encontrar os diques destruídos em vários sítios e as pessoas na maior aflição por terem as suas propriedades inundadas.
Para obviar a isto, o meu pai resolveu fazer a vigilância dos diques durante a noite.
É necessário que se diga que o meu pai tinha – por causa das suas funções – autorização de uso e porte de arma de fogo.
Logo que foram descobertos os vários infractores, estes foram multados e participadas as ocorrências ao tribunal.
Tendo visto frustrada a sua actividade criminosa, os referidos indivíduos juraram que um dia haviam de matar o meu pai.
E diziam pela aldeia fora para quem os ouvia:
- O senhor chefe só é destemido porque anda armado. Mas, um dia ele há-de ficar sem a pistola.
Contudo, o meu pai era muito corajoso e nunca se deixou intimidar. Assim, continuou a fazer a vigilância nocturna, muitas vezes sozinho.
Uma certa noite, ele saiu de casa para trabalhar. A minha mãe foi vê-lo sair à varanda do meu quarto. É que ela ficava muito aflita sempre que ele saía em missão de fiscalização.
Quando aquele estava prestes a chegar à esquina da casa, no cruzamento da povoação, a minha mãe deu um grito de aflição, exclamando:
- Cuidado, Manel!... Eles estão na esquina da loja e vão te matar!
Eu já estava a dormir na minha cama, e foi com este grito de aflição da minha mãe que acordei.
Soube depois que quatro indivíduos (alguns dos quais já eram ex-presidiários) tinham corrido para junto do meu pai, procurando imobilizá-lo e tirar-lhe a arma.
Para se defender, o meu pai ainda disparou um tiro para o ar.
Mesmo assim, eles conseguiram agarrá-lo, deram um golpe de navalha na mão que segurava a arma e tiraram-lhe esta.
A minha mãe continuou a gritar com toda a força que podia, repetindo sempre:
- Ah, seus malandros! Deixem o meu homem que ele tem filhos para criar e nunca vos fez mal.
Ao ouvirem o barulho, outros populares vieram às janelas de suas casas e gritavam de lá:
- Deixem o senhor Lapa.
Os quatro indivíduos puseram-se de imediato em fuga, levando com eles a arma da vítima.
Estando bastante ferido, o meu pai regressou logo a casa.
No dia seguinte, ele apresentou uma queixa-crime na esquadra da Polícia Judiciária de Coimbra.
O processo seguiu os trâmites legais, os quatro indivíduos vieram a ser condenados e a arma foi restituída ao meu pai.
Resta acrescentar apenas que esta arma acompanhou o meu pai durante toda a sua vida de funcionário público, uma vez que ele tinha uma profissão de risco e precisava de defender a sua vida e integridade física dos ataques dos criminosos.
Mas, embora essa arma lhe pertencesse, ele não quis continuar na sua posse nem deixá-la para os seus filhos na altura em que se reformou, com 70 anos de idade. Por isso, aquele decidiu entregar a pistola e os respectivos documentos na esquadra da Polícia de Segurança Pública mais próxima. [12]
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