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domingo, março 19, 2006

Para o meu pai no dia de todos os pais

Embora o meu pai já não saiba que eu ainda vivo, eu sei que ele existe, que vive, onde está, e onde posso procurá-lo sempre que me sinto triste e quando a vida me custa mais que o normal.
Ele e eu tornávamos a vida um pouco mais leve um ao outro...
Agora, quando lhe pergunto ao ouvido alguma coisa, sei que jamais me responderá. Agora, quando lhe peço algum conselho ao ouvido, sei que não mo dará. Mesmo assim, não me importo. Ele, lá no fundo, há-de saber que sou eu que lhe falo. Afinal, ele é o meu pai. Aquele que sempre me ouviu e protegeu. Que sempre esteve presente para me levar ao médico quando eu estava doente. E que eu vi muitas vezes a chorar... Era ele que se alegrava particularmente quando eu tirava uma boa nota nos estudos. Mas também era a ele que o meu coração mais gostava de dar a boa nova.
Era aborrecido muitas vezes, mais vezes que as necessárias. Mas foi ele que me deu um corpo, o meu companheiro de todos os dias, nos bons e maus momentos que têm sido a minha vida. Por isso lho agradeço.
O meu pai corrigiu-me e repreendeu-me ao longo do tempo. Foi o modo que ele encontrou para me formar como pessoa, para me educar e me dar as condições para eu ser o que sou hoje, como força intelectual, profissional e moral. De tal modo me imprimiu os valores humanos que eram seus que com eles me rejo hoje e sempre. E são esses mesmos valores que eu transmiti e que transmito àqueles que mais amo: - os meus filhos. É deste modo que prolongo o meu pai, não deixando que ele morra nunca.
Muitas vezes ele me visitou na minha casa para receber de mim algumas palavras e ideias com que orientava as suas acções e comportamentos nos seus últimos anos de consciência e de plenitude intelectual.
Dizia-me nessas alturas:
-
Filha, agora que te ouvi, já posso ir-me embora. Sinto-me reconfortado e com força para mais alguns dias. Quando me sentir perdido, bato-te à porta outra vez.
Por me ter ouvido, obrigada, meu pai. Por me ter feito sentir útil, bem-haja. Obrigada também por me ter feito sentir que eu valia a pena como ser humano. Mas, como posso agradecer-lhe o brilho dos seus olhos quando eles olhavam os meus filhos? Como pode uma mãe agradecer tais coisas? Será possível manifestar por palavras a minha gratidão?
Não posso deixar de o amar por tudo, apesar de nem sempre ter estado de acordo com as suas atitudes para com os meus irmãos que eu amava igualmente e que não conseguia ver sofrer... Mesmo assim, não posso deixar de o amar.
Bem-haja, meu pai, pelo exemplo que foi toda a sua vida e por tudo o que me ensinou e deu.
Agora, da sua cama, ele olha-me com olhos vazios. Mas, quando eu lhe falo, parece-me que sorri. Ou serão os meus olhos?...
Estou certa que, lá no fundo da sua inteligência, o meu pai sabe ainda que sou eu. Que eu sou, como ele dizia, “a menina dos seus olhos”. Será que é por eu não o ter comigo que o seu olhar se tornou baço e indefinido?... No meu coração eu sei que ele me conhece, que ele me sente e ouve. Por isso eu lhe digo baixinho, ao ouvido, para que ele não duvide:
- Papá, sou eu que estou aqui. Sou eu… Eu… A sua filha Graça.

sábado, julho 02, 2005

Sr. Doutor, salve a minha menina!...

Desde pequenina eu ouvia as pessoas a dizerem entre si, a meia voz, e referindo-se a mim: - “Esta menina não dura muito”; ou então: - “esta menina não tem saúde para durar muito”; ou ainda: - “esta menina vai morrer cedo”.
Ouvi estas frases de pessoas tão diferentes quanto a criada da minha avó Maria da Luz (a Dorinda, que me dava banho numa selha com a ajuda da Ti Moça), a minha tia Laurinda (que me adorava e, ao ver-me tão magrinha, ás vezes me abraçava contra o peito e repetia: “ó filha, não duras muito”), e o meu pai (especialmente quando, muito aflito, me transportava para Coimbra na sua bicicleta, em alturas em que eu rebentava de febre).
Lembro-me de estar muitas vezes doente quando era pequena; e de isso ser uma preocupação muito grande, dado que nessa altura morriam crianças com muita frequência.
De todos os filhos dos meus pais, eu era sem dúvida a mais débil (excluindo o caso especial do meu irmão António, que teve uma gravíssima doença do sangue chamada «Calazar» e que foi o primeiro caso de sucesso em Coimbra no que respeita a essa doença).
Mas, nesta altura, eu ainda não tinha nascido.
A frequência da ida ao médico já não era para mim uma surpresa, especialmente quando a ida era ao consultório do Sr. Dr. Manuel, de S. João do Campo. A única diferença era quem me levava ao colo: - ou a minha mãe, ou o meu pai, ou a nossa empregada Ana (abro aqui este parêntesis para referir com gosto que esta senhora Ana ainda hoje trabalha um dia por semana em casa da minha mãe).
Quando eu ia ao médico no colo da Ana, agarrava-me com toda a força que me restava ao pescoço dela. É que, sendo ela muito alta, eu tinha muito medo de cair de lá de cima.
O resultado da minha ida ao médico era sempre o mesmo: - eu tinha de levar injecções de penicilina que eram dadas pelo meu pai (que era o enfermeiro de serviço naquela terra).
Mas, houve algumas vezes que o meu pai teve de me trazer doente para a cidade de Coimbra. Nesses momentos, a angústia do meu pai era por demais evidente.
Recordo uma dessas vezes, em particular.
A febre que eu tinha era tanta e tão persistente que o médico da terra se declarou incapaz de a resolver.
A minha mãe embrulhou-me num cobertor pequeno e sentou-me no suporte da bicicleta, atrás do selim. Depois, recomendou-me para eu me agarrar bem à cintura do meu pai. Eu agarrei-me o melhor que podia. E o meu pai começou a caminhada até ao consultório do Dr. Eduardo dos Santos, na Rua Alexandre Herculano, junto aos Arcos do Jardim.
Ainda não tínhamos chegado ao lugar da Geria, o meu pai viu que eu estava a perder a força e que não conseguia agarrar-me a ele.
Então, gritou-me:
- Filha, agarra-te bem.
Mas, ele via bem que eu não tinha força e que não adiantava insistir mais.
Então, o meu pai tentou guiar só com uma das mãos, enquanto me segurava com a outra.
Porém, a ventania era tanta que o meu pai se viu obrigado a parar a bicicleta e a amarrar-me a ele com uns elásticos próprios para segurarem as mercadorias.
E, neste preparo, lá seguimos o nosso caminho.
Quando chegámos ao médico, o meu pai estava lavado em suor.
Logo que me pegou ao colo e entrou no consultório, o meu pai dirigiu-se de imediato ao médico e suplicou a este:
- Sr. Doutor, salve a minha menina.
E não me recordo de mais nada a não ser que entrei numa escuridão completa e não sei o que se passou a seguir (incluindo o regresso a casa e o tratamento que então me fizeram).
Este pequeno episódio mostra bem que o meu pai sofreu muito para criar os seus filhos. E que nunca é demais o afecto que nós lhe dedicamos, nesta altura em que a sua doença já não lhe permite tomar consciência disso. [17]

sábado, junho 18, 2005

Só tem filhos quem os merece

O meu tio André e a minha madrinha Natália nunca tiveram filhos porque não podiam tê-los, se tivermos em conta as inúmeras tentativas que eles fizeram (e que se prolongaram durante muito tempo) de me perfilharem.
O casal visitava com muita frequência os meus pais, que tinham já uns 5 ou 6 filhos.
Destas visitas resultavam sempre duas coisas. A primeira era a vinda de um brinquedo para mim, o que era coisa rara em minha casa devido à escassez de dinheiro com que se debatiam os meus pais. Porém, aqueles não tinham quaisquer dificuldades económicas. A segunda coisa era que – com o brinquedo – aqueles convenciam-me a ir com eles para a sua casa.
Num destes momentos, eles conseguiram levar-me para Leiria, onde o meu tio dava aulas no Liceu.
Por essa altura eu tinha cerca de 4 anos.
Não me recordo da chegada. Mas, ainda me recordo da minha estadia naquela casa e dos degredos que ali passei.
O primeiro degredo a que eu era sujeita era o de ter que comer exageradamente. O segundo era o de que a comida era sempre acompanhada pela ladainha de: - “tens que comer muito para engordar esses ossos e para que os teus pais saibam que nós te tratamos bem”. O terceiro era o de que em todos os dias ao lanche eu devia comer uma gema de ovo misturada com açúcar. O quarto degredo era não poder fechar os olhos (ou sequer pender a cabeça) enquanto se rezava o terço a altas horas da noite, sendo certo que o horário das crianças não se compadece com o horário dos adultos. E o quinto era o de ir para um quarto dormir sozinha (em minha casa eu dormia com a minha irmã). Quando eles me fechavam a porta do quarto, o medo apoderava-se de mim, o sono fugia, e eu chorava até conseguir adormecer, com muitas saudades dos meus pais e dos meus irmãos.
Eu vivia num dilema e num desequilíbrio emocional que era intraduzível. De facto, sempre que a minha tia me encontrava a chorar e eu dizia que queria ir para minha casa, ela respondia-me sempre da mesma maneira:
- Não foste obrigada a vir. Ninguém te trouxe à força. Afinal, não mereces o bem que nós estamos a fazer por ti.
Ainda hoje pergunto a mim mesma que bem era esse. Nunca consegui compreendê-lo…
O silêncio regressava à minha alma, sem palavras para responder. Mas, as lágrimas não obedeciam a qualquer lógica. E a minha tia continuava a ter que me procurar e correr todos os cantos da casa a chamar por mim. Um dia, ela teve de chamar o meu tio que estava no Liceu porque não conseguia encontrar-me em lado nenhum. De facto, ao subir as escadas do prédio (que eram estreitas e escuras como breu), o meu tio tropeçou em mim porque era ali que eu me tinha escondido a chorar.
Quando isto aconteceu, os meus tios convenceram-se finalmente que o melhor era mandarem-me de volta para casa dos meus pais.
E, como aqueles não tinham carro, ainda hoje me recordo do que eles disseram ao condutor da camioneta na qual me ajudaram a subir e a sentar:
- Então, fica esta menina entregue aos seus cuidados. E, em Coimbra, não se esqueça de a mudar para o transbordo que vai para S. João do Campo, onde os pais a vão esperar.
Era noite. Lembro-me que acordei quando o senhor me pegou ao colo e me foi sentar no banco de outra camioneta, dizendo-me:
- Não tenhas receio. É um outro senhor que vai a conduzir esta camioneta. Agora, já falta pouco para chegares a casa.
A camioneta parou mesmo em frente da porta da minha casa. O meu pai foi buscar-me dentro do veículo. Cá fora, estavam todos os meus irmãos à minha espera.
A alegria da chegada traduzia-se num sentimento de paz, de tranquilidade e de equilíbrio, ao qual eu associei sempre o conceito de família, de lar. Agora eu já não tinha medo de correr dentro de casa, de pular para cima da cama, de arrastar uma cadeira, de comer sem lavar as mãos, de pegar em qualquer fruta sem pedir licença para tal, e sem ter de comer gemadas e sopa de feijão verde… Eu já podia brincar com alguém e agarrar-me ao pescoço do meu pai…
Ainda não há muitos anos que o meu pai – a propósito destes episódios que eu recordava com ele – me confessou:
- Mesmo que tu te tivesses afeiçoado aos teus tios, eu nunca teria deixado que eles te perfilhassem.
Resta apenas dizer que os meus tios fizeram muitas outras tentativas semelhantes a esta. Mas, nunca conseguiram cativar-me. Pelo contrário, essas tentativas eram cada vez mais traumatizantes para mim.
Eles não sabiam lidar com crianças e, por isso, não mereciam tê-las
Eu só me sentia bem dentro da minha casa e com a minha família. Entre nós todos havia um sentimento de cumplicidade e de interajuda total.
Ainda hoje, é este o entendimento que eu tenho do que é uma família, sejam quais forem as vicissitudes que a vida traga a cada um dos seus membros. [16]

sábado, junho 11, 2005

Mais uma história do Natal

Vivíamos durante todo o ano com uma ideia que era mil vezes repetida pelos meus pais: - “O Menino Jesus dá-vos as prendas conforme o vosso comportamento. Se tu te portares bem, tens uma bonita prenda. Por isso, és tu que escolhes”.
Havia que obedecer aos pais em tudo e sempre, apenas com o objectivo de receber em troca um brinquedo correspondente ao nosso comportamento.
Quantas vezes, da minha cama, eu ouvia o meu pai a despedir-se dos meus irmãos, antes de se deitar: - “Não se esqueçam de que hoje se portaram mal”.
Todos percebíamos o que aquilo queria dizer: - o Menino Jesus tudo via e tudo apontava. Eu metia a cabeça debaixo dos lençóis e, muitas vezes, chorava com pena dos meus irmãos que se tinham portado mal.
A mim, pertenciam-me certas tarefas que ainda hoje não sei como conseguia levá-las a cabo. Uma delas era a de lavar, durante todas as férias, a loiça das refeições.
Para que fosse capaz de fazer esta tarefa, a minha mãe punha no chão da cozinha três alguidares de plástico: - um tinha a água com o «Omo»; outro, água limpa; e o terceiro, para escorrer a loiça já lavada.
Toda a loiça que era para lavar – dos talheres aos copos, aos pratos, ao fervedor, à panela da sopa – estava sobre a banca da cozinha, junto ao forno de cozer a broa.
Sempre que acabava de lavar uma peça, eu tinha que me levantar e ir à banca buscar outra. Ajoelhava-me no chão, lavava-a, passava-a e punha-a a escorrer.
Este penoso trabalho, feito por uma criança que não tinha mais de 6 ou 7 anos, prolongava-se por uma tarde inteira.
Por vezes, o cansaço era tanto que eu me sentava nos calcanhares para suavizar a dor dos joelhos, onde ficava vincada a fisga das tábuas do soalho.
Tudo isto acontecia enquanto os meus irmãos brincavam e corriam. E, muitas vezes, ao passarem pela cozinha, eles andavam à minha volta e cada um deles empurrava-me ou dava-me uma palmada ou um safanão na cabeça.
Nunca percebi porque é que eu tinha de trabalhar, e eles (todos mais velhos do que eu) podiam brincar.
Recordo que, algumas vezes, ouvia a minha mãe na varanda do meu quarto em conversa com outras pessoas. Outras vezes, passava a ferro ou passajava meias.
Houve um dia das férias do Natal que foi particularmente penoso para mim.
Tudo aconteceu como de costume. Só que o meu pai tinha levado com ele os meus irmãos mais velhos e eu tinha ficado a lavar a loiça.
A noite chegou e eu mal via o que fazia. Ainda me faltava lavar o fervedor do leite. As mãos estavam enrugadas por estarem há tantas horas mergulhadas em água com detergente. A palha de aço queimava-me a ponta dos dedos. Eu assentei o fervedor nos joelhos e não conseguia – por mais que me esforçasse – tirar o leite queimado. E, quando me pareceu que o fervedor já estava lavado, eu passei-o e pu-lo a escorrer. Tinha terminado a minha tarefa.
Nisto, entra a minha mãe na cozinha, acende a luz e diz:
- Ainda estás nisso?
Eu respondi:
- Mamã, acabei mesmo agora.
Ela fez o que sempre fazia. Despejava na pia da cozinha as águas dos alguidares e levava o alguidar da loiça lavada para cima da banca.
E, como sempre, a primeira coisa que fez foi verificar se o fervedor estava bem ou mal lavado.
O coração começou a bater-me forte.
De imediato, eu levei uma estalada e caí redonda no chão.
Ao mesmo tempo que eu me levantava, a minha mãe disse-me:
- Vê o que ainda aqui está. Não lavaste isto em condições. Para castigo, vais voltar a lavá-lo.
E pôs-me no alguidar água ainda mais fria do que já estava a anterior.
As minhas mãos ardiam-me na água fria tanto como a cara me ardia de quente.
Nunca mais posso esquecer o que então chorei.
Sei que o meu pai chegou com os meus irmãos já de noite. E que todos ficaram especados ao verem-me no chão da cozinha ainda a lavar a loiça.
Pensei que o Menino Jesus talvez me recompensasse de tanto trabalho e de tanto sofrimento.
Mas, o dia de Natal chegou.
E, no meu sapato, não havia nada que me compensasse de todo aquele sofrimento!... Ali só havia objectos para eu trabalhar na escola!...
Deve ter sido nessa altura que eu fiquei a saber que Deus se esquece de algumas pessoas. E que eu era uma delas.
Por isso, ainda hoje não me admiro da pouca sorte que me coube. E do grande esforço que sempre tive que fazer para adquirir alguma coisa. Afinal, esta é a vida que está reservada a algumas pessoas...
Verdade seja dita: - foi assim que eu aprendi a cuidar de tudo quanto pertence a uma casa de família. Por isso, hoje dou valor ao que a minha mãe me ensinou. Mas... nunca mais poderei esquecer a tristeza e o sofrimento de toda essa aprendizagem. [15]

sábado, maio 28, 2005

Outra história do Natal

Quantos anos é que eu teria? Não sei. Mas tinha os que bastavam para eu nunca mais esquecer, e ainda hoje sentir que sou fruto do que me aconteceu então.
Sei que ainda não sabia falar o suficiente para reclamar o que era meu. E que me limitava a olhar sem perceber o que acontecia e porque acontecia.
A noite de Natal chegou.
E, como de costume, só na manhã seguinte teríamos o direito de saber o que nos tinha reservado o Menino Jesus.
Os meus irmãos mais velhos atravessaram o meu quarto – onde eu dormia na cama de grades – e correram para o quarto dos meus pais, cada um com um carro de plástico de cores diferentes.
Eu acordei e, ainda trôpega, comecei a descer com dificuldade por cima da grade da cama.
Era a minha vez de correr para a cozinha.
Durante estes minutos, ouvia claramente os meus irmãos a dizerem uns para os outros:
- A Graça é que teve sorte. Tem uma bola de futebol tão linda!...
Todos repetiam a mesma coisa.
Eu corri para a cozinha para ver o meu sapato. E constatei com espanto que eles tinham razão: - eu tinha a bola mais linda do mundo!
Abracei-me a ela. Não sei se era do tamanho da bola ou se era do meu contentamento. Só sei que não conseguia ver o caminho até ao quarto dos meus pais. Mas, a memória conduziu-me até eles. E quando lá cheguei, pousei a bola em cima da cama como se tivesse pousado o mundo. O mundo era meu!...
Com tristeza posso afirmar aqui hoje: - foi a primeira vez que lhe peguei e também deve ter sido a última!
O que é que aconteceu? Qual era o sentido verdadeiro do meu presente tão lindo?...
É que o meu pai (compreendi-o mais tarde) não podia comprar uma bola para cada um dos três filhos. E como não sabia a qual deles atribuir esta – pois isso provocaria um conflito de interesses e era motivo para o dono da bola se vingar de qualquer irmão e não o deixar brincar com ela – a bola foi dada a quem não podia dar-lhe uso, mas apenas e tão-só admirá-la.
Na minha inocência, percebi naquele dia de Natal que o verdadeiro dono da bola era o meu pai quando este declarou:
- Agora, quem manda na bola sou eu porque a menina, afinal, não precisa dela.
Não tenho palavras para descrever o primeiro momento de plena infelicidade que vivi na minha vida. O que era meu deixou de o ser! O mais belo deu lugar ao absolutamente nada!...
Isto foi o que eu senti. E, embora não o soubesse expressar nessa altura, ficou para sempre gravado na minha memória depois de o meu pai ter respondido a esta pergunta do meu irmão mais velho:
- Porque é que o Menino Jesus deu a bola à Graça (uma menina)?
A resposta do meu pai foi clara:
- Porque ela foi, de todos vocês, a que se portou melhor durante o ano.
Justificada a atitude, aparentemente desconexa, do Menino Jesus, o pensamento repetia-me sem que eu tivesse capacidade de dizê-lo alto: “Então como é que, sendo eu a que me portei melhor, e tendo recebido o melhor presente, acabei por não ter absolutamente nada?”
Ainda hoje sonho com esta amargura de ter alguma coisa e de ma tirarem. Talvez isso explique o amor que eu sinto por tudo quanto é meu e a dificuldade que tenho em dar o que me pertence. Isso caracteriza a minha personalidade: - o apego ou amor que tenho ao que é meu; e a ausência total de inveja dos outros em relação ao que lhes pertence.
Aliás, quero recordar aqui o que já é do conhecimento de alguns: - a primeira palavra que o meu filho Miguel disse foi a palavra “Meu”.
Quem pensa que as crianças – por serem pequenas – não sofrem porque não entendem, e que não ficam marcadas com as suas experiências, está completamente enganado. São experiências ainda mais dolorosas e mais marcantes aquelas que não conseguimos compreender.
Ao educar os meus filhos, eu tive sempre o cuidado de lhes explicar porque agia deste ou daquele modo porque sabia bem que eles me compreendiam. [14]

sábado, maio 21, 2005

Uma história do Natal

O meu irmão Jorge teria 8 ou 9 anos quando, pelo Natal, pediu ao Menino Jesus uma caneta de tinta permanente.
Uma caneta destas era coisa rara porque as canetas de pau e aparo sujavam os dedos e a pedra-pomes era áspera e dolorosa.
A caneta de tinta permanente era, pois, um presente muito apreciado.
Chegou a noite de Natal.
E, antes de nos deitarmos, havia algo que era «sagrado»: - todos corriam com o coração ansioso a porem os seus sapatos na banca a cujo canto estava o forno de cozer a broa.
Feito isto, a ordem era de irmos todos para a cama. E, por maiores que fossem as nossas expectativas, não tardávamos a cair no sono.
Mas, o Jorge sonhava com a sua bonita caneta de tinta permanente. E hoje sei que ele foi o primeiro a acordar e a ir ver o seu presente.
Mas, ao chegar ali… Desilusão!... Espanto!... A “sua” caneta de tinta permanente não estava nos seus sapatos, mas sim nos do Vítor!... Tinha sido, de certeza, um engano do Menino Jesus!...
Por isso, sem que ninguém desse conta do sucedido, o Jorge resolveu fazer a troca “justiceira”. O seu irmão mais velho nunca tinha pedido ao Menino Jesus uma caneta de tinta permanente. Por isso…
Mal a troca acabou de ser feita, já a cozinha era invadida pelas outras crianças, todas elas com os corações ansiosos.
E, como era habitual, cada uma delas correu para os respectivos sapatos.
Desembrulhadas as prendas, era também «sagrado» o ritual de irem todos a correr até ao quarto dos pais, a informar estes da prenda que o Menino Jesus lhes trouxera.
Quando o Jorge mostrou a sua linda caneta com uma tonalidade verde, ele reparou que os pais se entreolharam admirados... E teve mesmo a impressão de que o «engano» do Menino Jesus se devia a um qualquer erro da minha mãe.
É que ele ouviu o meu pai a dirigir-se à minha mãe e a perguntar a esta:
- Ó Lurdes, tens a certeza de que não te enganaste a pôr as prendas nos sapatos?
Até agora, o Jorge manteve esta história em segredo.
E ainda hoje continua sem saber explicar o que naquela altura foi pior para ele: - ou o saber que a caneta que pedira ao Menino Jesus não era, afinal, para ele; ou a descoberta de que... não era o Menino Jesus que trazia as prendas às crianças!!!...
Esta história mostra que a inocência de uma criança – ao pretender emendar aquele «engano» do Menino Jesus – acabou por tornar justa uma atitude dos pais que era apenas lógica (o filho mais velho é aquele que deve ter primeiro uma caneta de tinta permanente).
Ou, por outras palavras, o Menino Jesus pôs e a criança dispôs… [13]

sábado, março 26, 2005

Uma profissão de risco

Vivíamos na aldeia de S. João do Campo, perto de Coimbra.
O meu pai era o responsável pela vigilância do rio Mondego e seus afluentes desde Coimbra até à Figueira da Foz. Entre as suas competências contava-se a de proteger as margens da chamada vala do norte (um braço do rio), especialmente no tempo das cheias.
Com ele trabalhavam os guarda-rios que o acompanhavam a qualquer hora do dia ou da noite.
O seu zelo profissional não era bem aceite por uma parte da população, a qual costumava aproveitar essas alturas de inundações para atravessar os diques, ir à mata do Estado cortar árvores e arrastá-las na corrente até suas casas.
Esta actividade era proibida por lei. De facto, os troncos que eram conduzidos através da corrente provocavam a destruição dos diques, que tinham de ser reconstruídos a fim de protegerem os campos e as casas daquela zona.
Ora, todas as manhãs o meu pai ia encontrar os diques destruídos em vários sítios e as pessoas na maior aflição por terem as suas propriedades inundadas.
Para obviar a isto, o meu pai resolveu fazer a vigilância dos diques durante a noite.
É necessário que se diga que o meu pai tinha – por causa das suas funções – autorização de uso e porte de arma de fogo.
Logo que foram descobertos os vários infractores, estes foram multados e participadas as ocorrências ao tribunal.
Tendo visto frustrada a sua actividade criminosa, os referidos indivíduos juraram que um dia haviam de matar o meu pai.
E diziam pela aldeia fora para quem os ouvia:
- O senhor chefe só é destemido porque anda armado. Mas, um dia ele há-de ficar sem a pistola.
Contudo, o meu pai era muito corajoso e nunca se deixou intimidar. Assim, continuou a fazer a vigilância nocturna, muitas vezes sozinho.
Uma certa noite, ele saiu de casa para trabalhar. A minha mãe foi vê-lo sair à varanda do meu quarto. É que ela ficava muito aflita sempre que ele saía em missão de fiscalização.
Quando aquele estava prestes a chegar à esquina da casa, no cruzamento da povoação, a minha mãe deu um grito de aflição, exclamando:
- Cuidado, Manel!... Eles estão na esquina da loja e vão te matar!
Eu já estava a dormir na minha cama, e foi com este grito de aflição da minha mãe que acordei.
Soube depois que quatro indivíduos (alguns dos quais já eram ex-presidiários) tinham corrido para junto do meu pai, procurando imobilizá-lo e tirar-lhe a arma.
Para se defender, o meu pai ainda disparou um tiro para o ar.
Mesmo assim, eles conseguiram agarrá-lo, deram um golpe de navalha na mão que segurava a arma e tiraram-lhe esta.
A minha mãe continuou a gritar com toda a força que podia, repetindo sempre:
- Ah, seus malandros! Deixem o meu homem que ele tem filhos para criar e nunca vos fez mal.
Ao ouvirem o barulho, outros populares vieram às janelas de suas casas e gritavam de lá:
- Deixem o senhor Lapa.
Os quatro indivíduos puseram-se de imediato em fuga, levando com eles a arma da vítima.
Estando bastante ferido, o meu pai regressou logo a casa.
No dia seguinte, ele apresentou uma queixa-crime na esquadra da Polícia Judiciária de Coimbra.
O processo seguiu os trâmites legais, os quatro indivíduos vieram a ser condenados e a arma foi restituída ao meu pai.
Resta acrescentar apenas que esta arma acompanhou o meu pai durante toda a sua vida de funcionário público, uma vez que ele tinha uma profissão de risco e precisava de defender a sua vida e integridade física dos ataques dos criminosos.
Mas, embora essa arma lhe pertencesse, ele não quis continuar na sua posse nem deixá-la para os seus filhos na altura em que se reformou, com 70 anos de idade. Por isso, aquele decidiu entregar a pistola e os respectivos documentos na esquadra da Polícia de Segurança Pública mais próxima. [12]

sábado, março 19, 2005

Uma falsa acusação

Eu ainda não teria seis anos de idade. Os meus padrinhos Natália e André trouxeram-me da casa dos meus pais em S. João do Campo para a casa em que eles viviam, na rua Augusta, em Coimbra.
O tempo estava quente e decorria a Festa do Espírito Santo, em Santo António dos Olivais.
Numa dessas noites, tínhamos ido ver os carrosséis. O meu tio comprou-me dois lindos brinquedos: - um pequeno fogareiro de barro e uma cântara pequenina do mesmo material. Senti-me feliz. Mas, essa alegria não durou muito tempo. Aliás, as minhas alegrias nunca duravam muito tempo quando eu estava junto dos meus tios.
No dia seguinte, Domingo, de manhã cedo, acordei e fui para a cozinha brincar com os meus presentes.
Aquele dia decorreu normalmente.
Na segunda-feira à tarde, a minha madrinha chamou-me e disse-me:
- Não te chegou o que te comprámos? Ainda tinhas que ir roubar o dinheiro que estava em cima do frigorífico para ires à mercearia comprar rebuçados?
Eu fiquei sem fala!... Não fazia a mínima ideia do que ela estava a falar.
- Então, ficas aí com essa cara espantada e não dizes nada? – perguntou a minha tia.
Eu, timidamente, respondi-lhe:
- Eu não tirei dinheiro nenhum. Eu não comprei nada.
- És uma mentirosa
– disse ela. Aliás, com esses dentes assim raros, quem é que pode acreditar em ti? Não só roubas como ainda mentes. Mas, quando o teu pai vier cá almoçar amanhã, podes crer que lhe contaremos este episódio.
Ao final da tarde, o meu tio chegou das suas aulas no Liceu D. João III.
A primeira coisa que a minha tia lhe disse foi:
- Sabes, André? A tua sobrinha tirou os trocos que estavam em cima do frigorífico. E não só os tirou como ainda negou tê-lo feito.
Eu estava aterrorizada porque era habitual o meu tio bater-me por qualquer motivo.
Ele sentou-se num banco, encostou-se à mesa da cozinha e disse-me:
- É verdade o que a tua tia acaba de me contar?
Com as lágrimas a rolarem-me pela cara abaixo, e aos soluços, eu disse-lhe:
- Eu não tirei dinheiro nenhum.
Ao ver-me chorar assim, o meu tio disse:
- O teu pai vem cá amanhã almoçar connosco e já resolve esse problema.
Nessa mesma noite, rezámos o terço todos juntos, como era habitual. Eu rezava em voz baixa por me sentir muito triste. De repente, levei uma grande chapada do meu tio, ao mesmo tempo que ele me dizia:
- Quero ouvir a tua voz. Reza alto, ouviste?
No outro dia, o meu pai chegou para almoçar. Ainda me lembro bem da felicidade que ele tinha no rosto ao ver-me. Eu também fiquei feliz por o ver e agarrei-me ao pescoço dele. Então, dei largas à minha tristeza e chorei convulsivamente, agarrada a ele.
Perante isto, ele perguntou-me:
- Filha, o que é que tu tens?
Eu não conseguia largar-me do pescoço dele e parar de chorar.
A minha tia apressou-se a explicar as minhas lágrimas, narrando todas as falsas acusações que já antes me tinha feito.
Depois de a ouvir, o meu pai sentou-se num banco, muito triste, tirou-me os braços do pescoço e pôs-me no chão entre as suas pernas.
E perguntou-me:
- Minha filha, tu tiraste o dinheiro à tua tia? Onde é que o tens?
Eu respondi-lhe:
- Ó papá, eu não tirei dinheiro nenhum. Não sei onde ele está.
Enquanto eu falava com o meu pai, a minha tia ia dizendo:
- Ó Manuel, é natural. São crianças. Elas nem sequer sabem o valor do dinheiro.
O meu pai disse-me então:
- Pronto, filha, não te aflijas. Mas, não voltes a tirar dinheiro nenhum porque eu fico muito magoado contigo. Não foi isso o que eu te ensinei.
Almoçámos. O meu pai foi-se embora e eu continuei a viver naquela casa.
Os dias continuaram sempre iguais. Só eu não esquecia o que tinham feito comigo.
A partir dali, eu metia-me nos cantos, atrás das portas, debaixo das camas, dentro dos guarda-vestidos, em silêncio, e sempre a chorar.
Ao ver isto, foi a minha tia que tomou a iniciativa de dizer ao marido que tinham de me levar para casa dos meus pais.
Uma certa noite, enquanto rezávamos o terço, a minha tia ia arrumando a cozinha. Terminada esta tarefa, começou a limpar o chão da mesma cozinha.
Ao passar com a serapilheira por baixo do frigorífico, ouviu-se um ruído metálico. A minha tia desencostou o aparelho e – ao ver o dinheiro no chão – disse:
- Ó André, afinal as moedas estão aqui. Caíram para trás do frigorífico.
O meu tio continuou a rezar e não disse uma palavra sobre o assunto.
Terminado o terço, fomos todos para a cama sem qualquer alusão ao acontecido.
Eles terão pensado na altura que eu não me apercebi de que aquele dinheiro encontrado no chão era o mesmo que eles afirmavam que eu tinha roubado.
Mas, eu vi bem os olhares que eles trocaram entre si e percebi que aquelas moedas eram as mesmas (duas brancas e três pretas) que eles disseram que eu tinha roubado de cima do frigorífico.
Para aqueles adultos, uma criança como eu não valia nada.
Talvez por isso, eu tratei sempre os meus filhos com seriedade e justiça, como se eles fossem pessoas adultas.
Quando regressei ao seio da minha família (deixando para trás todos os brinquedos que aqueles tios me tinham dado) eu levava esta grande alegria para contar ao meu pai:
- Papá, a madrinha encontrou as cinco moedas no chão, atrás do frigorífico. Como vês, eu não as roubei.
Nessa altura, ele abraçou-me muito e levantou-me no ar.
Depois disse-me:
- Ó minha querida filha, eu acreditei sempre em ti. Sei bem que tu nunca me mentiste. E queres saber uma coisa? Os teus tios bem querem perfilhar-te, mas eu nunca deixarei que isso aconteça. Nunca! [11]

sábado, março 12, 2005

Um homem pobre...mas feliz

O meu pai ia com frequência para longe de casa durante vários dias para fazer a fiscalização dos rios e das ribeiras. Ele ia de camioneta até certos sítios e, a partir daí, a viagem era feita a pé pelas serras, a corta-mato, seguindo aqueles cursos de água.
Os subordinados do meu pai (guarda-rios) acompanhavam-no e iam mostrando a este o trabalho por eles feito, as infracções verificadas, as multas aplicadas, as licenças concedidas, e os casos mais complicados que podiam acabar no tribunal.
Nesses longos percursos, os guarda-rios chamavam por vezes a atenção do meu pai para a necessidade de fazerem uma pausa e de comerem alguma coisa do farnel que traziam consigo.
Diziam eles:
- Meu chefe, é melhor nós pararmos aqui e aproveitarmos para comer qualquer coisa.
E tiravam dos cestos de verga que traziam pedaços de carne, de broa, e uma garrafa de vinho.
O meu pai dizia-lhes:
- Podem sentar-se e comer à vontade porque eu ainda vou dar por ali uma volta.
Isto ia-se repetindo ao longo do dia, de modo especial quando os muitos quilómetros percorridos exigiam ao corpo algum descanso e uma refeição mais substancial.
Mas, a resposta do meu pai era sempre a mesma:
- Sentem-se e comam porque eu vou comendo mesmo a andar.
E, ao dizer isto, ele continuava a andar enquanto tirava alguma coisa da sua mochila.
O meu pai nunca se sentou a comer junto aos seus funcionários. Comia sempre caminhando, o que era interpretado pelos subordinados como um excesso de zelo.
Só à noite, quando chegava a casa esgotado, é que nós ficávamos a saber que o meu pai tinha levado na sua mochila apenas três ou quatro pães que comia enquanto andava e que dobrava ao meio para que parecesse que eles tinham alguma coisa lá dentro.
O meu pai era o chefe de lanço. Mas, era muito mais pobre do que os seus funcionários (guarda-rios) que viviam nas aldeias remotas das serras e aí possuíam algumas terras que também agricultavam.
O meu pai sempre foi zeloso e cumpridor. Mas, aquilo que parecia um excesso de zelo era afinal um certo pudor em mostrar a sua pobreza.
Hoje, ao recordar estes factos, e tendo em conta as muitas ofertas que os guarda-rios faziam ao meu pai ao longo do ano (dizendo sempre “É para os seus meninos” – porque sabiam bem que este não aceitava nada para si), fico convencida de que aquele não conseguiu ocultar totalmente aos outros a pobreza de quem só tinha o seu magro ordenado de funcionário público e tinha sete filhos para criar. [10]

sábado, março 05, 2005

A verdade acima de tudo

O meu irmão Francisco tinha nascido no Hospital da Lousã.
Todos nós estávamos ansiosos por ir lá conhecê-lo.
O meu pai comprou na praça – sabe Deus com que dificuldade – um grande cacho de lindas bananas.
Depois de retirar as compras dos sacos, na cozinha, disse para os filhos ali presentes:
- Estas bananas são para nós levarmos à mamã, na visita que amanhã faremos ao Hospital.
Aquele dia passou.
No dia seguinte, um Domingo, o meu pai vestiu e arranjou os filhos. Depois, preparou-se para embalar o presente que ia levar à sua esposa. Então, deu-se conta de que tinham sido comidas muitas daquelas bananas.
Ao ver isto, o meu pai ficou muitíssimo perturbado. Assim, resolveu chamar todos os filhos à sua presença.
O tom de voz que ele utilizou era aquele que nós bem conhecíamos e que a todos aterrorizava.
Colocou os filhos em fila por ordem decrescente de idades, e a cada um deles perguntou se tinha sido ele que tinha comido as bananas.
A forma como foi feita aquela pergunta mostrava bem que o meu pai não admitia que alguém faltasse à verdade.
O interrogatório começou pelo Vítor, na altura com 18 anos. E terminou no Henrique, que então contava 7 anos.
Todos disseram que não tinham sido eles a comerem as bananas.
Perante isto, o meu pai decidiu:
- Então, vocês vão ser todos castigados. E começo já pelo mais velho que fica aqui comigo. Os outros vão embora, que eu depois vou chamando um de cada vez.
Os meus irmãos começaram a sair lentamente.
De imediato, eu resolvi dar um passo em frente e dizer ao meu pai:
- Papá, não lhes bata. Fui eu que comi aquelas bananas.
O meu pai mudou logo o seu tom de voz. E mandou que saíssem todos imediatamente da sala. Só ali fiquei eu e ele.
Aquele fixou o seu olhar no meu e disse-me:
- Nunca mais voltes a mentir. Eu conheço-te muito bem e sei que não foste tu a comer as bananas. Quem as comeu foi a Rosa e o Henrique. Mas, com a atitude que tu tomaste, impediste-me de os educar. Desta vez eu desculpo-te, porque sei que só o fizeste por amor a todos os teus irmãos.
Este episódio é um pouco triste. Sobretudo por ter acontecido num dia que devia ser só de alegria por irmos visitar pela primeira vez o meu irmão mais novo que acabara de nascer.
Hoje, porém, eu compreendo um pouco o meu pai. Ele tinha imenso gosto em levar aquelas bananas à esposa porque sabia bem que ela gostava muito delas e que se tratava de uma fruta que raramente era comprada em minha casa.
Recordo este facto porque ele mostra bem que o meu pai tudo fez para nos ensinar a nunca faltarmos à verdade.
Essa regra de conduta tem sido o princípio orientador de toda a minha vida e é também aquilo que eu procuro transmitir aos meus filhos, tendo a felicidade de verificar que eles compreenderam bem este valor. [9]

domingo, fevereiro 27, 2005

A minha mãe volta à vida

Eu vinha do colégio de Santo António, na Lousã. O frio era intenso. Entrei pelo portão do fundo do quintal, atravessei a eira e subi as escadas da varanda a correr. Chamei pela minha mãe. Era hora do lanche e eu vinha cheia de frio e de fome. Abri a porta da cozinha, dei a volta à casa, pousei os livros, e saí de novo para a varanda pela porta do quarto dos meus pais.
O único ruído que se ouvia era o da tesoura que podava as videiras.
Voltei a chamar a minha mãe, enquanto me dirigia para o quarto da roupa, onde ela costumava coser e passar a ferro.
Abri a porta do quarto e vi logo a minha mãe sentada no divã com os pés sobre o estrado que suportava a braseira de carvão. Olhei para ela e apercebi-me logo que a mesma não estava bem porque se limitava a fazer-me gestos e não articulava qualquer palavra. Dirigi-me a ela, agarrei-a por baixo dos braços e puxei-a para mim para evitar que ela caísse na braseira. A minha mãe – quase sem forças e suspensa em mim – inclinou-se em direcção à porta do compartimento. Eu arrastei-a como pude até à varanda. Aí, ela estendeu os braços e agarrou-se com ambas as mãos ao parapeito da varanda.
Neste momento, apercebi-me que as mãos da minha mãe perderam toda a força e estavam a escorregar lentamente para o chão da varanda. De imediato, vi o corpo dela a cair, batendo com a cabeça na parede da casa e estatelando-se no chão. Tinha desmaiado.
Peguei-lhe nos braços e, gritando como louca pelo meu pai que estava a trabalhar no lanço, tentei arrastá-la pelo chão da varanda em direcção ao seu quarto. Mas, ela era tão pesada que a deixei e corri sempre a gritar pelo meu pai para a porta que dava acesso ao lanço.
Quando abri esta porta, já o meu pai estava no cimo das escadas.
Ao vê-lo, eu gritei-lhe:
- A mamã está morta!...
O meu pai puxou a minha mãe até ao meio da varanda, junto à janela do quarto dos meus irmãos.
Nesta altura, eu notei que a minha mãe estava completamente roxa e com os olhos abertos e todos brancos.
O meu pai meteu as mãos na boca da minha mãe e tentou separar-lhe os maxilares, enquanto dizia:
- Lurdes, abre a boca… Não me trinques…
O esforço do meu pai foi enorme, mas lá conseguiu abrir a boca dela o suficiente para lhe introduzir o lenço de assoar, a fim de impedir que ela voltasse a fechar a boca.
Logo a seguir, com os dedos, aquele puxou-lhe a língua que se encontrava enrolada.
Ao mesmo tempo, ia dizendo sempre:
- Lurdes, não morras, não morras. Eu não te deixo morrer.
Depois de o meu pai conseguir abrir totalmente a boca e desenrolar a língua da minha mãe, eu verifiquei que ela começava a ficar menos roxa, ao mesmo tempo que ouvia alguém atrás de mim a dizer:
- Ela já respira, Sr. Lapa. Já não morre, já não morre.
Era o senhor que andava a podar as videiras e que tinha acorrido, ao aperceber-se de que algo de grave se estava a passar.
O meu pai continuava a chamar pela minha mãe e a tentar dialogar com ela, enquanto as lágrimas caíam abundantemente sobre o peito da esposa.
Passados longos minutos, a minha mãe fixou os olhos no meu pai. Mas, continuava deitada no chão e ainda não conseguia falar.
Nesta altura, o meu pai pediu-me:
- Vai buscar qualquer coisa para cobrir a tua mãe.
Eu fui buscar um cobertor e cobri-a, enquanto o meu pai continuava sempre a manter-lhe a boca aberta e a segurar-lhe a língua.
Para mim, que na altura tinha onze ou doze anos, tudo isto durou uma eternidade.
A pouco e pouco, notámos que a minha mãe começava a recuperar a sua cor natural, a mexer a cabeça e os olhos, e a mostrar sinais de consciência e de profundo cansaço.
Durante este tempo de espera, eu narrei ao meu pai como tinha encontrado a minha mãe e tudo o que tinha acontecido antes de ele chegar.
Foi então que o meu pai me disse:
- Ó filha, foste tu que salvaste a tua mãe!...
Com a ajuda do senhor podador, o meu pai levou a minha mãe para a cama.
Passado mais algum tempo, a minha mãe tirou o lenço da boca, olhou em volta, e perguntou:
- O que é que me aconteceu?!... Só me lembro de estar à braseira…
Nesta altura, o meu pai explicou-nos que a minha mãe tinha sido intoxicada pelos gases libertados pela combustão do carvão na braseira e por se encontrar num compartimento fechado.
Só há pouco tempo, quando recordava este acontecimento, é que fiquei a saber que a Rosa e o Henrique – que andavam no quintal a ver podar as videiras – tinham também assistido a este regresso da nossa mãe à vida.
Para terminar, gostava de referir apenas o seguinte:
Se é verdade que a minha mãe teve alguns momentos menos felizes na sua convivência com o meu pai - quase todos por causa da educação dos filhos - também é verdade que este homem toda a vida a adorou e que só teve olhos para a ela.
Em relação a este episódio, parece-me que o mesmo mostra bem que a minha mãe deve a vida ao meu pai e não a mim, como ele na altura afirmou. [8]

sábado, fevereiro 26, 2005

A prova de honestidade

O tesoureiro da Hidráulica do Mondego, que era vulgarmente chamado de pagador, a braços com o excesso de trabalho na tesouraria, dirigiu-se um dia ao gabinete do Sr. Director, dizendo-lhe que tinha necessidade urgente de um auxiliar de confiança.
E rematou a sua pretensão da seguinte forma:
- Mas tem de ser uma pessoa de absoluta confiança, porque neste serviço manuseiam-se milhares e milhares de contos e eu tenho tido muitos problemas com o pessoal que me mandam para lá.
Quando se dirigia já para a porta, o Director perguntou-lhe de uma forma simples e directa:
- Tem preferência por algum dos contínuos? É que eu só posso dispensar funcionários dessa categoria.
O pagador parou, deu um passo em direcção ao Director, e indicou-lhe então o nome de um dos contínuos.
O Director respondeu-lhe que estava de acordo com a escolha. Mas, advertiu o pagador que este teria de assumir pessoalmente toda a responsabilidade por eventuais desencontros de contas (ou seja, desvios de dinheiro), como os que vinham acontecendo habitualmente.
Ao ouvir isto, o pagador retorquiu:
- Não, senhor Director. Isso nunca! Está fora de questão. Eu não me responsabilizo por nenhum homem que vá para lá. Estou farto de me enviarem para a tesouraria ajudantes desonestos que só me criam problemas.
Perante uma tal resposta, o Director olhou calmamente o pagador e observou-lhe:
- Então, vou propor que o seu ajudante seja o Lapa.
Com um ar admirado, o pagador perguntou:
- Porquê esse homem, se ele não tem experiência nenhuma de contabilidade?
O Director respondeu:
- Porque eu só confio no Lapa. E, por ele, sou eu próprio que me responsabilizo.
- Então, está decidido. Vai o Lapa para junto de mim
– disse o pagador.
Deve dizer-se, em abono da verdade, que o pagador não tinha deste homem (o Manuel Lapa) a mesma impressão que o Director. Para além de ele ser muito pobre, tinha ainda uma ranchada de filhos…
O tempo foi decorrendo e chegou o momento das férias do pagador.
Este deixou no cofre o dinheiro dos salários de todos os trabalhadores. Mas, para além do que era devido, deixou ali um excedente bastante grande.
Ao despedir-se do seu ajudante, o pagador disse a este:
- Ó Lapa, o dinheiro do cofre está certo. Não quero que haja quaisquer falhas na minha ausência.
Quando regressou das férias, o pagador encontrou o seu ajudante a trabalhar tranquilamente.
- Então, novidades? Correu tudo bem na minha ausência? – perguntou. As contas bateram todas certas?
Ao ouvir esta última pergunta, algo inquietou o espírito do pobre ajudante, que lhe respondeu de imediato:
- Não, senhor pagador. As contas não bateram certas. Eu acho que não me enganei no pagamento dos salários aos trabalhadores porque todos vieram aqui buscar os seus envelopes, confirmaram as quantias, e nenhum deles se queixou. O certo é que ainda sobrou muito dinheiro, o qual está ali guardado no cofre. O senhor pagador saberá que rumo lhe há-de dar.
O pagador dirigiu-se ao cofre, contou o dinheiro, e disse ao Lapa:
- O teu Director confiava plenamente em ti. Agora, também eu confio.
Naquele momento, o meu pai compreendeu que tinha sido posta à prova a sua honestidade. E contava muitas vezes este episódio aos seus filhos.
A este propósito, e a título pessoal, devo acrescentar que foi este senhor pagador que me deu a mais bonita boneca que eu alguma vez tive, com a qual os meus filhos também brincaram, e que ainda hoje guardo com gosto.
A essa boneca eu dei o nome de Leonilde, por assim se chamar a minha professora da terceira classe, que eu adorei e de quem tenho uma grata recordação.
Mas, nunca poderei esquecer também a profunda tristeza que a minha irmã Rosa sentiu naquela altura por não ter sido contemplada com um presente igual. Esse sentimento impediu que a minha alegria tivesse sido total, já que eu fiquei dividida entre o amor que nutria pela minha irmã e a paixão que tinha pela boneca. [7]

sábado, fevereiro 19, 2005

Um jantar estragado

A minha mãe desencostou a mesa rectangular da parede da cozinha. Pôs a toalha e os pratos sobre ela. Os bancos foram distribuídos e eu sentei-me no lugar que me pertencia. À cabeceira da mesa, sentou-se o meu pai.
A minha mãe começou a servir a sopa e cheirou-me de imediato a nabos. Eu nem queria acreditar que tinha de comer sopa de nabos!... O estômago revoltava-se-me e todos sabiam que eu não conseguia comer um tal manjar. Diante do prato da sopa, eu nem pegava na colher. Ouvia os meus irmãos a comerem, mas eu nem tirava os olhos do prato nem segurava a colher.
De repente, o meu pai grita-me:
- Fazes o favor de pegar na colher e de começar a comer?
E ficou a olhar fixamente para mim.
A minha mãe balbuciou algumas palavras para me incentivar a comer (do género “Eu já te pus tão pouca sopa…”). Mas, para mim, aquilo era uma imensidão de sopa de nabos.
Sentia os olhos do meu pai fixos em mim. E, de cotovelos na mesa, segurava a cabeça.
O meu pai voltou a dizer-me com cara de poucos amigos:
- Fazes o favor de começar a comer? Ou queres que eu me levante?
Eu arredei para trás o banco, levantei-me, e – do alto dos meus nove ou dez anos – bati com o pé no chão, dizendo:
- Esta sopa eu não como!...
O meu pai apareceu de repente ao pé de mim, puxou-me por um braço, afastou-me da mesa e deu-me um par de chapadas que ainda hoje me doem.
Perante isto, a minha reacção instantânea foi a de me abraçar fortemente ao meu pai e gritar-lhe:
- Papá querido, eu gosto tanto de ti.
O meu pai acalmou-se um pouco e tirou as minhas mãos da sua cintura, enquanto eu repetia vezes sem conta:
- Papá, eu gosto tanto de ti.
De seguida, o meu pai saiu da cozinha.
Voltei a sentar-me à mesa e a minha mãe tirou-me a sopa da frente.
Já não recordo o que comi a seguir. Mas sei que, enquanto eu comi alguma coisa juntamente com os meus irmãos, a minha mãe – que tinha ido ver do marido e que regressara – pegou no prato do meu pai e voltou a pôr a sopa na panela.
Olhámos todos uns para os outros e ninguém ousou dizer uma única palavra.
Findo o jantar, chegou a hora de nos deitarmos.
Para me dirigir ao meu quarto, eu tinha que passar pelo quarto dos meus pais. Então, descobri que o meu pai já se tinha deitado há muito.
Naquela noite, ele ficou sem jantar por minha causa.
Posso dizer que o meu pai nunca me tinha batido antes e que nunca mais me voltou a bater. Mais tarde, ele explicou-me que o que o magoara mais foi eu ter-lhe batido o pé.
Daí em diante, sempre defendi as minhas convicções. Mas, nunca mais ousei bater o pé a ninguém.
Hoje não tenho qualquer dúvida de que aquelas duas chapadas custaram bem mais ao meu pai do que a mim própria.
E assim aprendi que, afinal, os pais também sofrem quando castigam os filhos. [6]

sábado, fevereiro 12, 2005

Um dia de anos diferente

Acordei feliz por ser o dia dos meus anos.
Até a escola me parecia ser um lugar mais agradável naquele dia.
Passei pelo quarto dos meus pais. A minha mãe dormia ainda, mas o meu pai já tinha saído para a serra em serviço de fiscalização.
Ia passando pelos meus irmãos e a todos anunciava:
- Hoje faço anos!
Alguns davam-me os parabéns. Outros apressavam-se a comer o pão para irem apanhar o comboio que os levava para o Liceu em Coimbra.
Aquele dia parecia ser igual ao anterior. E, como acontece em todos os dias de anos, é só no nosso espírito (na nossa esperança) que eles são diferentes.
A noite chegou e o meu pai tardava em regressar.
Estávamos a jantar quando sentimos bater a porta da varanda que dava acesso ao lanço (escritório do meu pai).
- O vosso pai chegou – disse a minha mãe.
Eu fiquei toda contente, à espera de um presente de anos.
Quando entrou, o meu pai dirigiu-se imediatamente a mim e, ao mesmo tempo que despia a gabardina, disse-me:
- Levanta a aba do teu vestido.
Depois, começou a tirar castanhas de todos os bolsos e a pôr-mas no regaço.
E acrescentou:
- Estas castanhas foram todas apanhadas por mim nos ouriços que encontrei no caminho. O meu guarda-rios, ao ver-me fazer isto, e porque já estava a fazer-se tarde, ainda me disse: - “Ó meu chefe, quando chegarmos a minha casa, eu dou-lhe um saco delas. Não precisa de estar a perder tempo a apanhá-las. É coisa que de que não tenho falta”. Mas, eu disse-lhe apenas que tinha de encher os bolsos com castanhas que fossem apanhadas por mim.
Depois, o meu pai prosseguiu:
- E assim apanhei mais algumas castanhas. É que eu não tinha outro presente para te dar pelos teus anos. Por isso, resolvi dar-te algo que obtivesse pelo meu esforço, pelo meu trabalho, enquanto pensava em ti.
Por fim, dirigiu-se à minha mãe e acrescentou:
- Tens um grande saco de castanhas no lanço. Podes ir lá buscá-lo.
Então, eu senti que as castanhas que o meu pai me deu eram muito especiais e que tinham muito valor. Elas mostravam bem que ele não se tinha esquecido de mim (que me teve presente no seu coração) e que queria dar-me alguma coisa que fosse mesmo dele.
Afinal, aquele dia de anos foi bem diferente!...
E eu aprendi que, mesmo os que são pobres, podem com pequenos gestos mostrar aos seus filhos o amor que têm por eles. [5]

sábado, fevereiro 05, 2005

Uma prenda de anos

Vivíamos na Lousã.
E todos os anos, no final do Verão, o meu pai trazia para casa – provenientes de várias localidades da serra que ele visitava no serviço de fiscalização – vários cestos de maçãs de diversas qualidades.
Estas maçãs eram espalhadas no chão de um compartimento por cima de vários papelões.
Só os pais é que davam aquela fruta aos filhos. Nenhum destes estava autorizado a servir-se daquelas maçãs autonomamente.
No dia 21 de Outubro de um certo ano, aconteceu que o meu pai – como era habitual – chegou muito tarde a casa.
Todos os filhos estavam já a dormir.
Ele não se esqueceu que nesse dia a minha irmã Rosa fazia anos. Então, foi ao quarto em que eu e a Rosa dormíamos e acordou a sua menina, tentando não me acordar a mim. Pegou nela ao colo e saiu do quarto.
Daí a pouco, apareceu de novo no quarto com a minha irmã. Mas, agora, a Rosa trazia nas mãos uma enorme e bela maçã vermelha.
O meu pai deitou-a novamente e disse-lhe:
- Agora dorme. E amanhã comes a tua maçã.
Quando ficámos sós, eu perguntei à minha irmã o que tinha acontecido.
Antes mesmo de eu terminar a pergunta, a Rosa – que estava louca de contente – disse-me:
- O papá levou-me às maçãs. E, como não tinha outro presente para me dar, disse-me para eu escolher a maçã que eu quisesse. Eu vi lá tantas!... Mas, escolhi esta!...
Jamais esquecerei a felicidade que então vi no rosto da minha irmã e na maneira como ela me contou o sucedido.
E tenho quase a certeza que, no dia seguinte, devo ter comido uma grande parte daquele presente. É que a minha irmã Rosa – tal como sucede ainda hoje – dava tudo o que tinha a quem lho pedia.
A alegria daquela prenda de anos é vivida por nós ainda nos dias de hoje. E serve para entendermos o afecto que o meu pai – que em certos momentos parecia ser um pouco severo – verdadeiramente sentia pelos seus filhos. [4]

sábado, janeiro 29, 2005

Mudar de nome

Hoje é a minha vez de contar um episódio da vida do meu pai.
Vivíamos na Lousã. Eu tinha cerca de 11 anos. Uma tarde, cheguei da catequese e fui ao escritório do meu pai (lanço). Ali, dirigi-me a ele dizendo que o Sr. Padre me tinha dito na catequese para as crianças entregarem aos pais uns documentos, a fim de estes preencherem. Disse ainda que, se quisessem, as crianças podiam aproveitar o crisma para mudarem o seu nome.
O meu pai parou o que estava a fazer, ouviu-me com muita atenção, e disse-me:
- Está bem. Eu preencho esses papéis. Mas, porque me disseste que se pode mudar de nome?
Eu respondi-lhe:
- Não gosto do meu nome porque as minhas colegas estão sempre a gozar com ele, por ele significar piada e à borla (gratuito, sem valor).
O meu pai disse então:
- Mas olha que o teu nome tem um sentido bíblico muito bonito. Significa sagrado, luz, claridade, pureza, dom divino. As tuas colegas são umas ignorantes.
Depois, voltou a perguntar-me:
- Então, qual era o nome que tu gostavas de ter?
Eu disse-lhe:
- Ana Maria (este era o nome da minha melhor amiga).
O meu pai ficou em silêncio durante algum tempo. Depois disse:
- Muito bem. Se é isso que tu queres, fala com a tua mãe e logo resolveremos isso. Porém, eu gostava de te contar a história do teu nome.
E prosseguiu:
- Quando tu nasceste, foi uma alegria muito grande para todos. Não foi fácil escolher um nome para a primeira menina, porque todos (padrinhos, tias, família) queriam que o nome escolhido fosse o que cada um propunha. Mas, eu tinha muito pouco tempo para fazer o registo. Então, fui eu que decidi qual seria o teu nome. Escolhi o de Graça Maria. Portanto, tu ficas a saber que sou eu o responsável pelo teu nome. Se o quiseres mudar, mudas o nome que o teu pai escolheu para ti.
Depois disto, eu subi para minha casa e pus-me a pensar no que o meu pai me tinha dito.
À noite, o meu pai chamou-me para, na minha presença, falar com a minha mãe sobre este assunto.
A minha mãe apenas me disse isto:
- Olha, filha. Tu podes não gostar do teu nome. Mas, quando eras pequenina e nós fomos viver para S. João do Campo, todas as meninas que lá nasceram depois de nós ali chegarmos tiveram no seu nome a palavra Graça.
O meu pai disse-me então:
- Filha, devolvo-te os papéis do Sr. Padre para que sejas tu a escrever o que entenderes.
Quando chegou a altura de eu entregar os papéis, o meu pai ajudou-me a preenchê-los.
Mas, quando chegámos ao lugar do nome a escolher, fui eu que o preenchi sem hesitação.
E ali escrevi: - Graça Maria da Cruz Lapa.
[3]

sábado, janeiro 22, 2005

O dinheiro do Sr. Director

Numa altura em que o Sr. Lapa era contínuo na Hidráulica do Mondego, em Coimbra, desapareceu uma certa importância em dinheiro da secretária do Director.
Quando o facto ocorreu pela segunda vez, o Director chamou à sua presença todos os funcionários dos escalões mais baixos, entre os quais se contava o Sr. Lapa.
Esses funcionários eram três e tinham em comum o facto de possuírem a chave do gabinete do Director.
Então, o Director deu-lhes conhecimento da ocorrência, mostrou-lhes a sua preocupação e perguntou a cada um se tinha sido ele o autor do desvio.
O Sr. Lapa foi o último a ser ouvido. O Director fez-lhe as mesmas perguntas. Mas acrescentou que um dos colegas daquele lhe dissera que desconfiava que tivesse sido o Lapa, porque o viu por várias vezes a entrar no gabinete do Director fora das horas de expediente.
Convém referir que o Director era muito amigo do Sr. Lapa. Esteve na origem da sua admissão, pagava as propinas e os livros deste no curso comercial nocturno e dava-lhe mesmo algumas explicações de matemática.
Mas, o Director referiu-lhe que, apesar da confiança que tinha nele, teve de o chamar e fazer-lhe as mesmas perguntas que fizera aos outros.
O Sr. Lapa ficou “sem pinga de sangue” com toda esta situação. E disse que era verdade que tinha ido ali por várias vezes fora das horas de expediente para praticar dactilografia na máquina de escrever do Sr. Director, conforme lhe fora autorizado expressamente por este. Mas, jurou-lhe pela sua honra que não tinha sido ele o autor do furto.
Ao ver a reacção do Sr. Lapa, o Director disse-lhe:
- Conheço-te bem a ti e à tua família. Sei que és uma pessoa honesta. Por isso, nunca me passou pela cabeça que me tivesses tirado o que quer que fosse. Mas, tinha que te chamar aqui porque preciso de descobrir quem me anda a tirar o dinheiro.
Então, o Sr. Lapa disse ao Director o seguinte:
- Agradeço-lhe muito a sua confiança. E, se me permite a sugestão, parece-me que V. Ex.ª poderia continuar a deixar na sua secretária dinheiro em notas pequenas e em maior quantidade. Eu vou estar atento, fazendo tudo o que puder para ajudar na descoberta do autor do furto.
Passaram-se meses de atenção e discreta vigilância.
De vez em quando, o Sr. Lapa perguntava ao Director se tinha voltado a faltar-lhe dinheiro.
O Director respondia-lhe que não. E, a certa altura, disse-lhe:
- Lapa, não te preocupes mais. Já passou muito tempo. Não voltou a acontecer nada. O assunto está encerrado.
O Sr. Lapa pensou então que o autor do furto estaria também convencido de que todos teriam já esquecido o caso. Mas, em vez de abrandar a vigilância, ele resolveu reforçá-la, indo muito cedo para a repartição e ficando no exterior a ver quem entrava.
Um dia, os seus esforços foram compensados.
O colega que o tinha acusado entrou antes da hora de início do trabalho. O Sr. Lapa não entrou logo atrás dele, como vinha fazendo antes. Deixou passar alguns minutos. Depois, dirigiu-se directamente ao corredor do gabinete do Director, verificando que o casaco do colega não se encontrava no cabide. Abriu de imediato a porta do gabinete e deu de caras com esse colega ainda a fechar a gaveta da secretária. Chamou um outro colega que ia a passar e pediu-lhe que ficassem ali os três até à chegada do Director. No meio do diálogo que se gerou, o autor do furto tirou o dinheiro do bolso e atirou-o para dentro da secretária.
Logo que chegou ao gabinete, o Director deparou-se com esta cena e ficou o caso esclarecido.
No dia seguinte, o Director chamou ao seu gabinete o Sr. Lapa e o outro funcionário, tendo este acabado por confessar ser ele o autor de todos os furtos.
Então, o Director dirigiu-se ao Sr. Lapa, dizendo:
- A minha vontade é despedir imediatamente este funcionário. Mas, como ele te acusou a ti, és tu que deves decidir o futuro dele. O que tens a dizer?
O Sr. Lapa respondeu:
- Sr. Director, se me dá licença, a minha opinião é que ele não deve ser despedido porque, se o fosse, não era só ele que sofreria mas também toda a família dele. E os filhos dele não têm culpa das asneiras do pai.
Apesar desta atitude do Sr. Lapa, o funcionário em questão nunca foi um bom colega para aquele.
[2]

domingo, janeiro 16, 2005

Filha duas vezes

Então, aqui vai o primeiro registo.
Trata-se de um facto que o Sr. Lapa contava muitas vezes à sua filha Graça, especialmente quando queria expressar o grande afecto que tinha por ela.
Numa altura em que a família vivia na Conchada (ainda hoje uma zona pobre da cidade de Coimbra) e o Sr. Lapa trabalhava numa loja de bicicletas situada na Baixa da mesma cidade, aquele auferia o ordenado mensal de 300$00 e pagava de renda 200$00 por mês.
O agregado familiar era constituído pelo casal e por três filhos, o mais novo dos quais tinha uma doença muitíssimo grave que exigia um tratamento diário no hospital da Universidade.
A D. Lurdes encontrava-se na altura grávida da Graça.
Então, pretendendo aumentar um pouco os seus modestos rendimentos, o Sr. Lapa dirigiu-se ao seu patrão, explicou-lhe a situação aflitiva em que se encontrava e pediu-lhe um aumento do ordenado.
O patrão respondeu-lhe que compreendia bem a situação dele, que o Sr. Lapa era um empregado exemplar e indispensável para o seu negócio, mas que não podia aumentar-lhe o ordenado. No entanto, disse-lhe que o ia ajudar.
Ao dizer isto, o patrão abriu a gaveta da sua secretária, tirou uma nota de 1.000$00 e disse-lhe:
- Toma lá este dinheiro e, com ele, diz à tua mulher que vá fazer um “desmancho” (aborto).
O Sr. Lapa respondeu:
- Muito obrigado, mas uma ajuda dessas eu não a quero - e regressou ao seu trabalho de balcão.
Ao chegar a casa, o Sr. Lapa contou o sucedido à sua esposa, tendo da conversa entre ambos resultado a decisão comum de ele se despedir imediatamente daquele emprego, o que veio a suceder no dia seguinte.
E o quarto filho veio ao mundo e foi uma grande alegria para o casal, já que era a primeira menina.
Daí em diante, sempre que a Graça realizava algo de importante na sua vida ou que alguém fazia algum elogio àquela, o Sr. Lapa voltava a contar o episódio à filha e terminava sempre o mesmo com estas palavras:
- Não te esqueças que tu és minha filha duas vezes.
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Outras Memórias

Nas suas «Memórias» (ver o site “A página do Quim”), Manuel Vicente Lapa quis tão só registar as conversas que ouvira aos pais dele para as transmitir aos seus netos.
Em relação à sua pessoa, ele escreveu apenas isto: - “De mim nada direi, visto que os meus filhos me conheceram bem. Eles dirão, se o entenderem por bem, quanto eu fiz pela minha família”.
Pois bem. Parece-me que chegou a altura - e que este blog é o lugar próprio - para os filhos do Sr. Lapa recordarem alguns dos episódios que marcaram a vida do seu pai e que mostram bem que ele foi, de facto, um homem extraordinário.
Estas «Novas Memórias» (digamos assim) serão contadas em episódios breves e sem qualquer preocupação de respeitar a sua ordem cronológica.
Todos os contributos serão bem-vindos. Se alguém não puder ou não quiser escrever no blog, poderá ao menos indicar aqueles episódios que considere serem também merecedores deste simples registo.