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domingo, maio 31, 2009

Respostas que levantam outras tantas perguntas

Hoje o meu marido faz 57 anos.
Ele é o meu companheiro há quase 31 anos e é o pai dos meus filhos.
Não me tenho como uma pessoa vivida; mas conheço o suficiente dele para afirmar que hoje escolhe-lo-ia de novo como o homem da minha vida. Só ele me atura o mau feitio que tenho; e, embora não seja o marido ideal, ele é o pai PERFEITO.
Sinto-me feliz. E, se mais não tivesse, isso bastava para dar sentido e valer a pena ter vivido.
Ele não é homem para gastar dinheiro e não atribui valor a prendas, úteis ou inúteis, agradáveis ou nem por isso. Para ele isso não tem valor porque eu lhe dei as melhores prendas que um pai pode receber: o Miguel e a Joana.
Neste momento eles não estão "aqui presentes". Mas estão e são os mais preciosos bens que o pai poderia desejar na vida. Os nossos filhos são a nossa vida. E, quanto a mim, respiro para que eles vivam; e eles sorriem para que eu continue viva.
O mesmo acontece com o Quim. Eles são os seus olhos, a sua alegria, a sua razão de ser.
Gosto de pensar que o Quim é o meu sol, o fogo que me aquece; o Miguel o ar que eu respiro; a Joana a terra que me dá força; eu sou apenas a água que os incomoda (a Rosa diz: a água que refresca).
O meu marido é o esteio dos meus dias, por muitas dúvidas que embaracem o meu pensamento. Eu e o Quim encontramo-nos nos nossos filhos e aí somos realmente um só.
Este homem de 57 anos conheço-o há 39. Ele é um homem peculiar: é sensível mas envergonhado, ama mas não o confessa, gosta e não o mostra, aprecia mas nada diz, está contente mas diz que não, fala muito pouco e nunca pede desculpa. Só o sorriso nos revela alguma coisa, e o seu sentido de humor.
Não sei explicar o motivo pelo qual me atribui a responsabilidade do que nos corre mal, mas desconfio que a razão deve estar no facto de ele ser muito exigente consigo mesmo e de conviver mal com o erro e com a culpa.
É, acima de tudo, um homem que se refugia na poesia e na música clássica. Assim se protege de mim e da vida. É de facto um homem peculiar mas muito especial.
Tenho como desejo chegar com ele a velhinha (o Zé Afonso diz: - o desejo está quase a realizar-se...) e passear com ele todos os fins-de-tarde em ameno convívio e apoiada no seu braço, porque tenho a certeza que então ele me dirá a cada passo:
-Tem cuidado! Vê lá, tem cuidado!

A tua mulher

quarta-feira, maio 07, 2008

O Vitor Lapa já é Professor Doutor

É a primeira vez que eu escrevo directamente neste blog.
Hoje faço-o com uma enorme alegria.
O meu irmão mais velho, o Vitor, defendeu hoje a sua tese de Doutoramento e foi unanimemente aceite como "igual" pelos seus pares Professores Doutores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Aveiro, Portugal, na especialidade de Engenharia Mecânica.
Estamos todos muito felizes.
Somos uma família de trabalhadores.
Desejo que todos os que fazem parte deste Lapa-Mundi saibam honrar este valor que é ser trabalhador.
Muitas são as qualidades do meu irmão Vítor.
Eu gostava que ele apenas fosse persistente e não teimoso.
Todavia, ele soube transformar esse defeito numa qualidade ao investigar e dissertar sobre o estudo experimental e numérico de um sistema biomecânico de implante de osso com um material inovador e que não é rejeitado pelo organismo humano.
Como o nosso Papá ficaria feliz no dia de hoje?...
E o que diria agora de ti o nosso tio André?...
Parabéns, Doutor.
Parabéns, meu querido irmão.
Recebe um beijo muito grande da tua irmã

Graça

P.S. - Ver esta notícia aqui e outra ali.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Aniversário

Hoje faz 43 anos a minha amiga Cristina Machado.
Aqui fica o texto que escrevi em 2005 e que continua a traduzir fielmente o que eu sinto por ela.
Parabéns, minha querida amiga.
Recebe muitos abraços e beijos de nós todos.

"Hoje faz anos a minha querida amiga Cristina Machado.
Desnecessário será dizer até onde e quanto me enche de alegria e de serena tranquilidade esta profunda amizade.
Nela repouso, porque me sinto mais protegida.
Nela me espanto, porque convivo continuamente com uma profunda inteligência e uma perspicácia admiráveis.
Por vezes nela sofro, porque me traz um sentimento, o sentimento humaníssimo do contraste: - alegramo-nos e sofremos juntas.
Afinal, esta é a essência da vida.
Quem ler este «post» pensará que amizades deste «tamanho», ou melhor, estas «irmandades», só podem ter nascido nos bancos da escola.
Realmente, quem assim pensa não está nem completamente certo nem completamente errado, porque é verdade que é na escola que se comunga o sofrimento e a alegria quando se é jovem. E nessa comunhão enraízam fortemente as amizades, especialmente aquelas que nem a morte separa.
Porém, esta amizade nasceu na escola José Falcão, não propriamente na sala de aula mas na sala dos professores, ou melhor, nas cadeiras do gabinete de filosofia desta mesma escola.
É que aí, como nas aulas, também se partilha o sofrimento e a traição.
Só uma amizade verdadeira nos alerta. Só a inteligência de uma Razão justa e atenta é capaz de nos consciencializar dos precipícios escavados pela inveja e pela maldade gratuita daqueles que «são ricos de espírito».
Do grupo de professores de filosofia desta escola, pântano imundo, emergiu para mim um bela flor, um nenúfar tão puro na sua brancura como na sua essência.
É esta amizade que eu agradeço a Deus: - «Ele sabe mais o que me há-de dar do que eu sei o que Lhe hei-de pedir».
Para a Cristina, eu não preciso de dizer o que ela é para mim. Nem sequer o que lhe desejo como mulher, como mãe, como esposa, como professora. Enfim, como ser humano.
Ela já o sabe.
Apenas queria dizer-lhe que está sempre presente em mim, e que com ela partilho todos os meus pensamentos, mesmo os menos sensatos (ela tudo aceita e compreende).
Queria dizer-lhe também que dialogo continuamente com ela, sempre que necessito, mesmo quando o telefone não toca, mesmo quando o trabalho nos distancia fisicamente.
Eu sei que ela está sempre aí, ao estender da mão, ou seja, sempre disponível, mesmo quando não faço ideia em que lugar se encontra.
Aqui fica, minha amiga, para além dos parabéns pelos teus 41 anos, um pouco do muito que eu gostaria de te dizer mas que não sei como fazê-lo, a não ser pelo silêncio.

Um beijo muito grande desta tua amiga que nunca te esquece,

Graça Lapa"

sexta-feira, setembro 01, 2006

Miguel - 27anos

Miguel, hoje completas 27 anos.
Para mim, e comigo, já vives há 27 anos e nove meses. E estes últimos foram só comigo, só para mim, só meus.
Um irmão meu disse-me que eu não devia expôr a minha vida no blog porque toda a gente ficava a conhecê-la... Eu tenho uma opinião diferente. Escrevo o que sinto, o que sou, precisamente para que a minha vida não seja esquecida. O nada dizer, o nada narrar da experiência da minha vida é uma condição para que dela ninguém tire proveito, e que ela se perca na bruma do esquecimento, mesmo antes que eu morra.
É por isso, meu filho, que te digo novamente o que já sabes: És a minha vida, és o meu Sol.
Agora que o meu pai não pode cuidar de mim, só contigo me sinto tranquila e segura. Só tu me dás a protecção de que eu necessito para viver.
Fica aqui um episódio da nossa vida, que recordo com um carinho enorme:
Quando tinhas 3 anos e vivíamos em Viseu, estavas a ver televisão e eu ao teu lado. Gostavas muito dos episódios do «D’Artacão». Quando a música anunciava o início de mais um desenho animado, era acompanhada pela imagem do Planeta Terra que se ia afastando no ecran, e tu perguntaste-me:
- Aquilo é a Lua?
- Não. Aquilo é a Terra – respondi.
- Porque é que as casas não caem? – perguntaste tu.
Fiquei surpreendida e atrapalhada porque não sabia bem como explicar-te e resolvi responder:
- Sabes, a Terra é um planeta que tem dentro dela uma força que puxa os objectos...
Olhaste-me com um ar de pena pela minha ignorância e respondeste:
- Ó mãe, as casas não caem porque têm cola por baixo.
Calei-me!!! Quando o teu pai chegou, contei-lhe logo o acontecido na esperança de que pudesse alterar um pouco a tua ideia; e ele brincou contigo com um carrinho de íman que conseguia estar seguro ao irradiador de metal mesmo quando estava por baixo dele. O teu pai explicou-te então que acontecia o mesmo com as casas e a Terra. E tu correste para mim e disseste:
- Afinal, não é cola. As casas têm íman, mamã.
Aqui fica isto escrito para que um dia os teus filhos leiam e saibam como tu conseguias fazer-me perguntas mais difíceis que os meus alunos de Filosofia.
Parabéns, meu Filho.


P.S. – Aproveito este momento para dar também os parabéns à Ana Margarida, tua namorada, pelo seu aniversário de ontem.

quarta-feira, maio 31, 2006

O meu marido faz hoje 54 primaveras!

Todos os anos espero ansiosa pelo dia 31 de Maio. As razões são muitas, mas a primeira é a de finalmente poder dizer que não sou "mais velha" do que o meu marido. Neste dia do ano ele atinge a minha idade e com orgulho podemos dizer que “temos a mesma idade”. Além disso, invade-me a alegria tão natural que é a de “parabenizar” o pai dos meus filhos que, por sinal, foi o meu único namorado.
Por falar nisso, já lá vão 35 anos de “vida em comum”. Como o tempo passou tão depressa!... Não damos conta de como ele é veloz.
Neste último ano, as razões deste meu contentamento intensificaram-se, pois o facto do meu marido estar a lutar contra uma doença muito grave faz-me transbordar de esperança e de infinita alegria que não nascem apenas da realização de mais um aniversário, mas sobretudo do prazer de o ter junto de mim e dos meus filhos, de poder conversar com ele, de poder ouvi-lo e de sentir a sua presença. Estas são realmente as razões que tornam o meu marido um presente, uma dádiva em todos os dias da minha vida.
Bem hajas, Quim, por tudo o que me deste... E que só nós sabemos.
Sê feliz, mesmo que a idade vá aumentando e as pernas de vez em quando fiquem cansadas. Com 54 anos, tu és para mim ainda um menino que eu gosto de acarinhar e de fazer feliz (embora nem sempre o consiga).
Aqui te deixo a alegria de mais uma primavera e tantos beijos quantos os que te dei com o passar da meia-noite.
Vive com saúde, amor e paz.
É isto que te deseja a tua companheira,

Graça Lapa.

terça-feira, maio 09, 2006

Queima das Fitas 2006 (1)

Está a decorrer a festa da Queima das Fitas na Universidade de Coimbra.
Hoje é o dia do grande cortejo de carros alegóricos que percorre toda a cidade.
É da tradição que os familiares e amigos dos estudantes escrevam pequenos textos de felicitações nas fitas que eles transportam na sua pasta universitária.
Aqui fica o texto que eu escrevi para a minha filha:

"Quando te observo, ouço a tua voz, sinto no silêncio a tua presença, ou penso em ti na tua ausência, o amor toma forma e peso.
A matéria de que ele se constitui é contrastiva. E eu experiencio a alegria indescritível de seres minha filha e de fruir da tua companhia, mas simultaneamente o medo de te perder.
Meu amor verdadeiro, quero deixar gravado nesta fita (algo que eu nunca tive) aquilo que os que te conhecem sentem mas não sabem:
- És uma amiga única. Dás-te plenamente aos teus amigos, mas nem sempre eles reconhecem isso.
- És uma pessoa única porque pões os outros sempre em primeiro lugar.
- És um ser humano único porque tens pleno sentido do dever e da responsabilidade.
- És uma companhia única porque constróis o espaço com o som da tua alegria.
- És uma filha inigualável porque educas a tua mãe com palavras doces, ternas e carinhosas.
- És uma mulher exemplar no teu comportamento pela elevação e dignidade moral das tuas acções.
- És uma mulher lutadora pela força de vontade, pelo empenhamento e pelo carácter que tens demonstrado em todas as tuas atitudes.
- Não te vergas ao interesse pessoal. Constróis a tua personalidade com a força do sofrimento e do trabalho contínuo. Tens um enorme sentido de justiça.
- És a melhor narradora que eu já ouvi. Ao contares uma experiência, tu transportas-nos para dentro do palco da vida.
- És uma mulher de pleno direito porque fizeste da tua vida um caminho de auto-formação para o Ser e não para o Ter.
Minha filha, não mudes nunca. Toda a luz tem um lado sombrio. Mas tu, por onde passas, deixas apenas luz e iluminas a vida de quem te rodeia.
Beijos da tua mãe,

Graça Lapa"

quinta-feira, abril 20, 2006

Outro aniversário

Olá, meu irmão Jorge:
O dia 20 de Abril de todos os anos é também para ti um dia especial.
Recordar-te faz parte do meu quotidiano. Mas, hoje, é necessário que eu faça algo mais.
Provavelmente, este dia vai ser igual a todos os outros, frio e cheio de trabalho (aliás como o nosso). Mas, é minha vontade quebrar-lhe a monotonia. Em primeiro lugar, desejando-te felicidades, saúde e paz. Depois, desejando que tenhas muitos contactos e fales com todos os que amas e que te amam a ti. E ainda que a tua saúde esteja em alta e permita que te esqueças dela.
Nós estamos sempre contigo no pensamento. Apesar de há muito nada dizeres neste blog... Espero que isso seja um bom sinal, apenas porque tudo te corre muito bem…
Meu irmão, fazes hoje 59 anos? Já lhes perdi a conta… Como é bom chegarmos à nossa idade e termos ainda os nossos pais connosco… Eles protegem-nos, mesmo na sua debilidade actual…
Daqui te mando um abraço bem apertado e muitas saudades.

Graça

20 de Abril de 2006

O que pode uma mãe dizer à sua filha no dia em que esta faz 22 anos de idade? Com que palavras posso transmitir-lhe a alegria que senti quando a vi pela primeira vez?
Que era uma menina, isso já eu pressentia – embora não o soubesse de facto – e, portanto, não foi uma novidade absoluta quando o Quim me disse, ao acordar da cesariana, “temos ali uma menina”.
Quisera eu saber escrever bem para transpor para o papel o turbilhão de felicidade que então me invadiu e que não durou apenas aquele momento, mas que perdura até hoje.
Minha querida filha:
Só quando tu tiveres um filho poderás saber o que significa «ter um filho» (ou uma filha). Nesse dia tudo mudará para ti. O sol brilha mesmo que esteja a chover ou seja de noite. A alegria aquece-nos mesmo que caia neve. A paz invade-nos sempre que o nosso filho dorme, mesmo que o ventre da terra expluda num vulcão. A preocupação ensombra toda a felicidade mesmo que os anjos desçam à terra. Acho mesmo que faz parte da nossa felicidade essa responsável preocupação que começa quando um filho nasce. Tenho mesmo poucas dúvidas de que ser mãe ou pai é amar e dar, num eterno cuidar de que faz parte o esquecimento da sua pessoa, centrando-se no seu filho ou filha. Amar é descentrar-se, é ir ao encontro do outro, é dar-se plenamente, é sofrer pelo (e com) o seu filho, mesmo quando escondemos as lágrimas ao vê-lo sofrer.
Minha filha, tu és «a menina dos meus olhos». E sabes que o Miguel é «o menino dos meus olhos». Sem vocês eu nada sou… Sem ti, Joaninha, a minha vida não vale a pena…Tu és a luz que ilumina e dá sentido ao meu caminho na noite invernosa e fria.
Não chores, meu amor… Ninguém merece as tuas lágrimas, nem mesmo eu. Sê como és. Não mudes os teus valores, os teus princípios, e sê feliz. Faz da tua vida um tempo único e inesquecível. Não faças nada de que possas um dia arrepender-te. Não deixes que os teus amigos ou amigas te magoem. Eles e elas não te merecem. Só eu sei o que tu és, como és bonita «por dentro», como o teu coração é bom. Tu és trabalhadora, responsável e humana.
Bem hajas, Graça Joana, por teres nascido e seres minha filha.

terça-feira, março 21, 2006

Dia Mundial da Poesia 2

JURAMENTO


Lembras-te, Amor! No alvor do casamento
Baixou sobre nós dois a luz dos céus.
Nossos olhos beijaram-se um momento;
-Só um do outro e os dois de Deus!

Lutei para cumprir o prometido.
Meu corpo e a minha alma são só teus.
Quando a voz das paixões me traz vencido,
A voz do amor segreda-me ao ouvido:
-Só um do outro e os dois de Deus!

À minha volta soa, noite e dia,
A risada escarninha dos ateus...
Cravam-se os estiletes da ironia:
Eu calo e rezo a minha litania:
-Só um do outro e os dois de Deus!

Cerca-me a tentação, velha serpente!
Escondem-me o horizonte negros véus.
Que importa, meu amor? Teimosamente,
Hei-de gritar à Vida, frente a frente:
-Só um do outro e os dois de Deus!

E amanhã, quando a Morte, de mansinho,
Vier pedir ao Mundo o nosso adeus,
Hão-de os anjos cantar, devagarinho:
-Terão na eternidade um só caminho,
Pois são só um do outro e os dois de Deus!


MIGUEL TRIGUEIROS

domingo, março 19, 2006

Para o Pai dos meus filhos

Defino o pai dos meus filhos numa frase tão simples quanto verdadeira: - ele é o melhor pai do mundo.
Gostaria que todas as crianças tivessem um pai como os meus filhos têm.
Será difícil para mim dizer tudo o que vejo e sinto ele ser para com eles. Resumo isso numa palavra da Joana: – «Papy». Mas não sou capaz de aqui colocar o amor, o carinho e a ternura do modo como ela o chama.
O Miguel é mais parco em palavras. Mas o olhar dele, ao ver o pai, diz tudo. E, quando fala com alguém, é o pai que escolhe como interlocutor...
Como sou feliz ao ouvi-los falar um com o outro!...
Queria ter o dom de espalhar esta harmonia, esta paz, esta relação entre pai e filhos a todos os homens do mundo, para que todas as mulheres sentissem o mesmo que eu sinto.
Bem hajas, pai dos meus filhos, por seres assim.
Foi um belo presente que tive por ter-te na minha vida.

Para o meu pai no dia de todos os pais

Embora o meu pai já não saiba que eu ainda vivo, eu sei que ele existe, que vive, onde está, e onde posso procurá-lo sempre que me sinto triste e quando a vida me custa mais que o normal.
Ele e eu tornávamos a vida um pouco mais leve um ao outro...
Agora, quando lhe pergunto ao ouvido alguma coisa, sei que jamais me responderá. Agora, quando lhe peço algum conselho ao ouvido, sei que não mo dará. Mesmo assim, não me importo. Ele, lá no fundo, há-de saber que sou eu que lhe falo. Afinal, ele é o meu pai. Aquele que sempre me ouviu e protegeu. Que sempre esteve presente para me levar ao médico quando eu estava doente. E que eu vi muitas vezes a chorar... Era ele que se alegrava particularmente quando eu tirava uma boa nota nos estudos. Mas também era a ele que o meu coração mais gostava de dar a boa nova.
Era aborrecido muitas vezes, mais vezes que as necessárias. Mas foi ele que me deu um corpo, o meu companheiro de todos os dias, nos bons e maus momentos que têm sido a minha vida. Por isso lho agradeço.
O meu pai corrigiu-me e repreendeu-me ao longo do tempo. Foi o modo que ele encontrou para me formar como pessoa, para me educar e me dar as condições para eu ser o que sou hoje, como força intelectual, profissional e moral. De tal modo me imprimiu os valores humanos que eram seus que com eles me rejo hoje e sempre. E são esses mesmos valores que eu transmiti e que transmito àqueles que mais amo: - os meus filhos. É deste modo que prolongo o meu pai, não deixando que ele morra nunca.
Muitas vezes ele me visitou na minha casa para receber de mim algumas palavras e ideias com que orientava as suas acções e comportamentos nos seus últimos anos de consciência e de plenitude intelectual.
Dizia-me nessas alturas:
-
Filha, agora que te ouvi, já posso ir-me embora. Sinto-me reconfortado e com força para mais alguns dias. Quando me sentir perdido, bato-te à porta outra vez.
Por me ter ouvido, obrigada, meu pai. Por me ter feito sentir útil, bem-haja. Obrigada também por me ter feito sentir que eu valia a pena como ser humano. Mas, como posso agradecer-lhe o brilho dos seus olhos quando eles olhavam os meus filhos? Como pode uma mãe agradecer tais coisas? Será possível manifestar por palavras a minha gratidão?
Não posso deixar de o amar por tudo, apesar de nem sempre ter estado de acordo com as suas atitudes para com os meus irmãos que eu amava igualmente e que não conseguia ver sofrer... Mesmo assim, não posso deixar de o amar.
Bem-haja, meu pai, pelo exemplo que foi toda a sua vida e por tudo o que me ensinou e deu.
Agora, da sua cama, ele olha-me com olhos vazios. Mas, quando eu lhe falo, parece-me que sorri. Ou serão os meus olhos?...
Estou certa que, lá no fundo da sua inteligência, o meu pai sabe ainda que sou eu. Que eu sou, como ele dizia, “a menina dos seus olhos”. Será que é por eu não o ter comigo que o seu olhar se tornou baço e indefinido?... No meu coração eu sei que ele me conhece, que ele me sente e ouve. Por isso eu lhe digo baixinho, ao ouvido, para que ele não duvide:
- Papá, sou eu que estou aqui. Sou eu… Eu… A sua filha Graça.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Aniversário

Amigo Manuel Bastos:

Eu e o meu marido fomos a sua casa dar-lhe pessoalmente os parabéns pelo seu aniversário e levar-lhe uma modesta prenda.
Mas, não queremos deixar de assinalar no nosso blog este feliz acontecimento.
Assim, o que já lhe dissemos de viva voz é repetido aqui com todo o gosto: - fazemos votos de que este dia de aniversário se repita por muitos anos, sempre com saúde, com alegria, e na companhia de todos os seus entes queridos.
Muitos parabéns!
Muitas felicidades para si e para toda a sua família.

Graça Lapa

domingo, dezembro 25, 2005

Ser Poeta é Ser Mais Alto

Sempre li e ouvi este verso e o soneto que ele inicia julgando compreender a sua bela mensagem.
Primeiro, porque tenho alguma capacidade de interpretação que é guiada pela minha sensibilidade.
Segundo, porque a poetisa Florbela Espanca explica a sua tese no próprio soneto.
Mas, confesso que hoje – ao ler esta carta do Manuel – me apercebi de que ainda estava longe de perceber o que é ser Poeta; e que terei conseguido aproximar-me um pouco mais dessa compreensão.
Ser Poeta é ser realmente “Mais Alto”.
Não importa como se escreve, o estilo que se usa, que seja prosa ou poesia.
Ser Poeta é escrever o que se sente, o que nos vai na alma, e dizê-lo com ironia ou cheio de sinceridade.
Mas, é muito mais, muito mais ainda…
Ser POETA é escrever aquilo que se é. É uma pessoa escrever-se, dizer-se, manifestar-se…
Como seria bom o Mundo e o nosso País se todos – e eu em especial – tivéssemos “a tua Altura”, Manuel.

Bem hajas e que o Menino Jesus te ouça.

(embora eu creia que Ele sabe melhor o que nos há-de dar do que nós o que havemos de pedir-lhe)

Graça Lapa

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Aniversário

Querida Inês:

Tu fazes hoje 11 anos. Não é verdade?
Mesmo que fosse só por ter nascido a linda menina que tu és, já era para mim a razão para que este fosse um lindo dia.
Normalmente, as pessoas não gostam que chova no seu dia de anos. Porém, eu sinto a chuva lá fora e fico encantada porque a considero um dos bens da natureza mais preciosos que temos. Ela é mais valiosa que o próprio ouro. A água que nos chega pela chuva é a condição necessária para a existência da vida na Terra. Por isso, eu estou feliz porque a chuva está a abençoar mais um aniversário que tu fazes.
Mas, eu tenho mais razões para que este não seja apenas um dia lindo, mas um dia que me recorda um ano encantador: - o ano de 1994.
Essas razões são as que agora te vou dizer:
Foi no ano em que tu nasceste que eu conheci a tua mãe e nasceu esta amizade de "irmãs" que nos une. Foi nesse ano lectivo que eu comecei a dar aulas na escola José Falcão, onde sempre sonhei entrar como professora. Foi nesse ano que eu acabei o meu mestrado. Foi nesse ano que fui a primeira vez ao Algarve. Seria impossível descrever-te tudo o que me aconteceu nesse ano que nunca mais esquecerei.
Hoje, o meu filho Miguel telefonou-me de uma cidade longínqua: - Talin, a capital da Estónia, para onde foi ontem passar 8 dias com a sua namorada, em casa de um amigo comum que ali reside.
Mas, para mim, o dia um de Dezembro é e será sempre o dia de aniversário da Inês.
Aqui te dexo os meus parabéns (gostava de ser mais original, mas é difícil), e o desejo sincero de que tu sejas muito feliz todo o ano e que realizes todos os teus desejos (tens apenas de saber uma coisita: - é que, muitas vezes, nós desejamos o impossível).
Minha querida, procura fazer o teu papá e a tua mamã muito felizes porque são eles os que mais te amam neste mundo.

Recebe um beijo e um grande abraço desta amiguita que não te esquece nunca.

Graça Lapa


P A R A B É N S ! ! !

terça-feira, maio 31, 2005

Meu Marido

Parabéns, Kim, pelos 53 anos de idade que completas hoje.
Encontrámo-nos aos 18 anos e nunca mais nos separámos.
Em breve faremos 27 anos de casados.
Refiro aqui estas datas não só porque sei que esqueces estes pormenores com muita facilidade, mas também porque – para mim – não são pormenores mas “pormaiores”, ou seja, são os marcos onde assenta a nossa vida.
Agradeço-te do coração por me teres escolhido para mãe dos teus filhos e, assim, me teres dado a oportunidade de viver, de conhecer e amar o melhor pai do mundo, o pai que todos gostariam de ter tido.
Não sei se a vida é algo que, em si mesma, valha a pena viver. Mas, aprendi contigo que nada há nela que seja completamente bom ou completamente mau. Sei também que, ao teu lado, os momentos difíceis se tornam mais suaves. Espero, por isso, viver a minha vida até ao fim sempre ao teu lado.
É com toda a ternura e toda a esperança que possa caber num coração que ama de verdade que hoje te desejo muitos anos de vida, com saúde, pois quero que estejas junto de mim para tornar mais leve o momento da minha partida.
De facto, como tantas vezes juntos concordámos, a vida não é senão um “entretanto” entre o nada que já fomos e o nada que uma dia seremos.

Beijos da tua mulher

Graça

quarta-feira, abril 20, 2005

À minha Lua

«Mamy! Ter um filho custa muito?» Pergunta-me com frequência a minha filha Joana.
É fácil perceber porquê: é mulher, e não há nenhuma que resista a um «beijo de carne» quer ele vá ao colo da sua mãe, ou escondidinho num carrinho. O olhar de uma mulher procura sempre uns olhinhos - que não sei definir - que lhe façam recordar os que um dia beijou 1000 vezes e eram apenas «seus». Mas, a este ímpeto está ligado indissoluvelmente o receio, o medo da dor.
Eu respondo, como quem não dá muita importância à pergunta...«Claro que não custa muito ter um filho.» E desenvolvo um arrazoado de ideias e argumentos para descrever a beleza e o amor que se sente e vive depois desse momento e experiência inesquecíveis. Mas, neste caso às 5 horas da tarde do dia 20 de Abril, quando nasceu a Joana, a resposta é plenamente verdadeira. A Joana não custou nada a nascer. O Doutor Mário Mendes cumpriu o que me prometera... Não sofrer. E eu não sofri. A Joana nasceu através de uma cesariana, pois o cordão umbilical estava todo enrolado à sua volta, prendendo-a ao calor do ventre materno, como que advertindo-a ou a demorá-la em sinal divinatório de como a vida é difícil e cheia de sofrimento.
Ela hoje, mulher que é, sabe isso. E embora me tenha dito aos 10 anos: «Mãe, não quero crescer!», julgo que ama a vida e é feliz por ter nascido. A sua vida nunca perdeu sentido até hoje, e isso é a essência do existir. Não tenho dúvida de que terá a força, o saber, e a vontade de não desistir de construir em cada dia a sua felicidade, a sua «Eudaimonia».
Ela saberá sempre conciliar a virtude da prudência com a do conhecimento; os valores que a família lhe transmitiu com a humanidade, e a ternura que a constituem como pessoa.
Ela foi e é a minha força, a minha «caixinha dos segredos». Quando me fala é sempre para me dizer algo profundo, algo que me ensina a viver melhor.
No dia 20 de Abril nasceu o segundo filho da minha mãe, o meu irmão Jorge a quem abraço e desejo uma vida feliz e cheia de saúde. Nesse mesmo dia (uns anos depois) nasceu o meu segundo filho - a Graça Joana.
Minha filha, o teu nome é da inteira responsabilidade do pai que te adora, e muito embora naquela altura me tenha provocado um sentimento de estranheza (continha o meu nome), hoje é o nome mais doce que posso pronunciar ou ouvir. E a tua voz, quando entra em casa e chama «Mamy», enche de luz a minha alma como a lua ilumina uma noite fria.

Amo-te muito minha querida.

A tua mãe,

Graça