Desde pequenina eu ouvia as pessoas a dizerem entre si, a meia voz, e referindo-se a mim: - “Esta menina não dura muito”; ou então: - “esta menina não tem saúde para durar muito”; ou ainda: - “esta menina vai morrer cedo”.
Ouvi estas frases de pessoas tão diferentes quanto a criada da minha avó Maria da Luz (a Dorinda, que me dava banho numa selha com a ajuda da Ti Moça), a minha tia Laurinda (que me adorava e, ao ver-me tão magrinha, ás vezes me abraçava contra o peito e repetia: “ó filha, não duras muito”), e o meu pai (especialmente quando, muito aflito, me transportava para Coimbra na sua bicicleta, em alturas em que eu rebentava de febre).
Lembro-me de estar muitas vezes doente quando era pequena; e de isso ser uma preocupação muito grande, dado que nessa altura morriam crianças com muita frequência.
De todos os filhos dos meus pais, eu era sem dúvida a mais débil (excluindo o caso especial do meu irmão António, que teve uma gravíssima doença do sangue chamada «Calazar» e que foi o primeiro caso de sucesso em Coimbra no que respeita a essa doença).
Mas, nesta altura, eu ainda não tinha nascido.
A frequência da ida ao médico já não era para mim uma surpresa, especialmente quando a ida era ao consultório do Sr. Dr. Manuel, de S. João do Campo. A única diferença era quem me levava ao colo: - ou a minha mãe, ou o meu pai, ou a nossa empregada Ana (abro aqui este parêntesis para referir com gosto que esta senhora Ana ainda hoje trabalha um dia por semana em casa da minha mãe).
Quando eu ia ao médico no colo da Ana, agarrava-me com toda a força que me restava ao pescoço dela. É que, sendo ela muito alta, eu tinha muito medo de cair de lá de cima.
O resultado da minha ida ao médico era sempre o mesmo: - eu tinha de levar injecções de penicilina que eram dadas pelo meu pai (que era o enfermeiro de serviço naquela terra).
Mas, houve algumas vezes que o meu pai teve de me trazer doente para a cidade de Coimbra. Nesses momentos, a angústia do meu pai era por demais evidente.
Recordo uma dessas vezes, em particular.
A febre que eu tinha era tanta e tão persistente que o médico da terra se declarou incapaz de a resolver.
A minha mãe embrulhou-me num cobertor pequeno e sentou-me no suporte da bicicleta, atrás do selim. Depois, recomendou-me para eu me agarrar bem à cintura do meu pai. Eu agarrei-me o melhor que podia. E o meu pai começou a caminhada até ao consultório do Dr. Eduardo dos Santos, na Rua Alexandre Herculano, junto aos Arcos do Jardim.
Ainda não tínhamos chegado ao lugar da Geria, o meu pai viu que eu estava a perder a força e que não conseguia agarrar-me a ele.
Então, gritou-me:
- Filha, agarra-te bem.
Mas, ele via bem que eu não tinha força e que não adiantava insistir mais.
Então, o meu pai tentou guiar só com uma das mãos, enquanto me segurava com a outra.
Porém, a ventania era tanta que o meu pai se viu obrigado a parar a bicicleta e a amarrar-me a ele com uns elásticos próprios para segurarem as mercadorias.
E, neste preparo, lá seguimos o nosso caminho.
Quando chegámos ao médico, o meu pai estava lavado em suor.
Logo que me pegou ao colo e entrou no consultório, o meu pai dirigiu-se de imediato ao médico e suplicou a este:
- Sr. Doutor, salve a minha menina.
E não me recordo de mais nada a não ser que entrei numa escuridão completa e não sei o que se passou a seguir (incluindo o regresso a casa e o tratamento que então me fizeram).
Este pequeno episódio mostra bem que o meu pai sofreu muito para criar os seus filhos. E que nunca é demais o afecto que nós lhe dedicamos, nesta altura em que a sua doença já não lhe permite tomar consciência disso. [17]
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