Para começar, tenho que agradecer os comentários simpáticos, especialmente ao Sr. Jorge que logo no início me recebeu calorosamente. Esperei que o "diálogo" mais cedo o proporcionasse, mas não posso esperar mais: Obrigado!
Na tropa conhecem-se todo o género de pessoas, mas há pessoas que nunca se conhecem; convivemos com elas todos os dias, partilhamos a comida, a água e o medo, por esta ordem de importância, mas um dia surpreendem-nos com uma atitude que não encaixa na construção que ao longo do tempo fomos fazendo dentro de nós, usando as palavras, os risos, os gestos, as atitudes que eles nos forneceram.
O soldado, que crismei com o nome de Rodrigues, pouco me forneceu para construir uma imagem sobre si, mas fez-me sentir um imbecil por achar estranho que chorasse quando lhe transmiti uma ordem que recebera: destruir a plantação dos turras.
Milho, mandioca, já não me lembro. Em vez de cumprir a ordem como os outros, ficou a olhar para mim como se eu lhe tivesse pedido para matar alguém.
E quem disser que a poesia não tem utilidade, senão como um luxo intelectual para entreter os momentos de ócio depois de ter a barriga cheia, talvez aprenda alguma coisa lendo o Poema de Sophia que transcrevo abaixo e que o alferes do meu pelotão achou adequado para decorar o seu quarto, bem no meio daquela guerra, no mínimo dos mínimos prosaica, e que o colocou a ele um passo à frente para entender aquele soldado.
Pranto pelo dia de hoje
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto, 1962
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quarta-feira, junho 29, 2005
A poesia não é um luxo supérfluo
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