Descobri que me haviam mentido e o desencanto fez com que a arma que trazia nas mãos começasse a aumentar de peso e a escaldar-me como um ferro em brasa. Ao mesmo tempo que encetava um processo de desaprendizagem de todos os valores que já faziam parte de mim, acho que ia ocupando esse espaço com a aprendizagem de um valor que é hoje cada vez mais raro: a solidariedade.
Quando pensamos em solidariedade, muitos de nós pensam nos donativos que se entregam para organizações de caridade com o intuito de ficar de bem com a consciência e de abater no IRS, ou que Deus esteja olhando para nós e no Deve-Haver dos pecados nos aumente os nossos créditos. Mas do que eu me lembro quando falo de solidariedade é de um princípio que no meu grupo-de-combate estabelecemos entre nós: "O último cigarro é para dividir por todos".
É claro que isto era uma frase-feita: não se limitava aos cigarros, a divisão equitativa dos últimos recursos. Na guerra éramos frequentemente confrontados com o último de todos recursos, a vida, e não deixámos nenhum ferido para trás para pouparmos o nosso último recurso. Nem em nome da primária lei da sobrevivência nem em nome de algum obscuro desígnio patriótico. Quantas vezes somos aconselhados a abandonar os outros, ao desemprego, á fome e à exclusão social, quando os recursos são poucos, para cumprirmos objectivos patrióticos. Gostaria de pedir a alguém que tivesse acesso ao presidente Sampaio, quando ele apela ao nosso patriotismo para trabalharmos mais e por mais tempo, tirando necessariamente trabalho a outros, só para lhe dizer que o último cigarro é para dividir por todos. Não sei porquê, mas acho que ele entenderia.


Este grupo de crianças jogava à bola. Nada tinham, e aqui "nada" significa que não tinham as primeiras cem coisas que acharmos essenciais, por ordem de importância até chegarmos à bola para o jogo, que não era de trapos, porque os trapos eram para vestirem: era um novelo de folhas de bananeira.
Estas crianças jogavam como se não houvesse guerra, como se a modesta igrejinha que mal se vê lá ao fundo, os protegesse dos morteiros e rockets, e eu vinha sentar-me a vê-los jogar, como se eles me protegessem de mim próprio, com as minhas dúvidas existenciais e os meus complexos de culpa, e me restituíssem a inocência perdida e saía dali com uma nova acepção para o conceito de solidariedade: mesmo quem nada tem, tem sempre algo para dar aos outros, nem que seja a inocência. Sinceramente, isto, não acredito que um político possa entender.
Desculpem o abuso, mas eu precisava de dizer isto a alguém.
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