Vim só dizer que estou presente. Não tenho contribuído muito para a cavaqueira, ou bate-papo, para usar um termo brasileiro, já que boa parte dos participantes neste blog usam o bem condimentado, balançado e ritmado português da América do Sul.
Na verdade eu e a Cristina vimos frequentemente fazer aqui uma visita, porém não temos deixado comentários apenas porque os últimos posts eram da esfera familiar, em que apesar de tudo nos sentimos à vontade.
Agora o tema abordado há já algum tempo, do pudor em veicular os nossos sentimentos publicamente, convida-me a dizer que o problema é outro, é simplesmente a incapacidade de estabelecer laços com o seu semelhante. Será que quem tem esse pudor consegue transmitir sentimentos a alguém? Se consegue, a partir de que grau de intimidade é que isso lhes parece impudico?
Ainda tendo em conta que uma parte da família é brasileira, talvez caiba dizer que segundo nós, os portugueses, os brasileiros são muito mais comunicativos, calorosos e extrovertidos ao ponto de ter ouvido a alguém dizer que os brasileiros são portugueses com açúcar. De nós, dizemos apenas que somos de brandos costumes, mas o que acaba por ser a assunção da falta de calor nas nossas relações.
Não consigo conceber uma portuguesa de meia-idade a atender-me atrás de um balcão e a tratar-me por "meu quirido", a mim, que pelo menos estatisticamente, já passei também a meia-idade, e confesso que tive que me sintonizar para entender que se tratava de um tratamento social, embora pleno de simpatia e afecto.
Até podemos ser afectuosos e gostamos de dizer isso de nós, enquanto povo, mas temos vergonha disso individualmente. Pegue-se num português afectuoso e simpático e coloque-se-o atrás de um volante de automóvel ou atrás de um balcão de uma repartição pública, de preferência de uma repartição de finanças, e o mais certo é ficarmos em presença de uma besta-quadrada. A última pessoa em Portugal a que um leigo em fiscalidade deve dirigir-se para pedir uma informação, é justamente a um funcionário de uma repartição de finanças se ele estiver a exercer a sua actividade, porque se for à mesa do café ele dar-nos-á uma seca (virará um pucha-saco) com tanta solicitude.
Talvez seja fácil concluir que o pudor em mostrar os nossos sentimentos e afectos seja apenas uma fraqueza de quem confunde firmeza de carácter com desumanidade e simpatia com subserviência.
Mas nós não. Já não basta pensar, é preciso comunicar: Eu blogo, logo existo.
Um abraço meus "quiridos".
P.S.:
Apeteceu-me oferecer-vos esta música muito singela mas de que gosto muito:
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Bastos. Mostrar todas as mensagens
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terça-feira, agosto 07, 2007
Eu blogo, logo existo
quarta-feira, abril 11, 2007
A minha maneira de rezar
O que de melhor tem a beleza é não ter dono.

Paro para olhar um espelho de água à beira da estrada,
para sentir o beijo rubro de uma papoila.

Alguém quis acrescentar algo de seu à beleza natural
e colocou um pato de plástico no lago, como fazem os
poetas ou os pintores, porque o logro da arte é a única
mentira benigna.

Paro para fazer meus, os braços de uma árvore,
erguidos em direcção à luz,

Paro para partilhar da vaidade do céu, reflectida no
espelho de água, enquanto os narcisos não florescem
para oferecerem a si a própria beleza, impúdica e
duplicada pelas águas.

Parar o carro à beira da estrada e comungar da natureza
é a minha maneira de rezar.
Tirar fotos tentando fazer meu o que é de todos, é um dos
meus pecados.

Venho agora trazê-las a vós como quem devolve um furto;
que seja esta a minha redenção.
Paro para olhar um espelho de água à beira da estrada,
para sentir o beijo rubro de uma papoila.
Alguém quis acrescentar algo de seu à beleza natural
e colocou um pato de plástico no lago, como fazem os
poetas ou os pintores, porque o logro da arte é a única
mentira benigna.

Paro para fazer meus, os braços de uma árvore,
erguidos em direcção à luz,
Paro para partilhar da vaidade do céu, reflectida no
espelho de água, enquanto os narcisos não florescem
para oferecerem a si a própria beleza, impúdica e
duplicada pelas águas.
Parar o carro à beira da estrada e comungar da natureza
é a minha maneira de rezar.
Tirar fotos tentando fazer meu o que é de todos, é um dos
meus pecados.

Venho agora trazê-las a vós como quem devolve um furto;
que seja esta a minha redenção.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
A Reforma do Pai Natal
Este ano, ao contrário de muitos outros, não escrevi ao Pai Natal; não porque tenha perdido de todo a esperança, mas porque duvido do fim que ele dá às cartas que recebe, dado que ouvi dizer que havia uma grande falta de papel na Lapónia e nesta época de doces e muita comida o próprio Pai Natal, devido à idade avançada, anda com problemas de intolerância intestinal.
Também, da última vez que lhe escrevi, com todo o respeito, ele não só não me deu resposta, como trocou tudo o que lhe pedi.
Pedi-lhe um presidente que falasse um português que eu entendesse e ele deu-me um presidente que fala uma língua com um sotaque estranho e como se não bastasse, pôs o próprio governo a falar para inglês ver. E quanto ao país que lhe pedi, nem é bom falar; basta ver quantos portugueses preferiam ser espanhóis, coisa a que, pelo que também se tem visto, nem os próprios espanhóis dão lá muito apreço.
Eu, continuei a oferecer a mim mesmo as prendas de Natal e a receber as pessoas como os verdadeiros presentes, independentemente do que me deram.
Eu próprio me dei a mim em cada presente, este ano, não porque eu seja uma boa prenda, mas porque acredito que a amizade é proporcional ao quanto nos damos, sempre que damos alguma coisa.
E propus-me a acreditar em alguma coisa, fosse lá no que fosse, assim como quem vai às compras à procura da coisa certa para a pessoa certa. Honestamente, esta alma, ou o que quer que esteja cá dentro que nos distinga das pedras, já que de alguns animais a diferença é pouca, decidiu procurar uma coisa que substituísse definitivamente o Pai Natal, para esta época festiva, porque definitivamente, o Pai Natal está senil e já não dá conta do recado.
Pensei no Menino Jesus que avalizava as prendas de Natal da minha mãe, na Befana italiana, na Babushka russa, no Jultomten escandinavo, mas todos me pareceram intermediários a procurarem a gratidão por dádivas alheias e mais uma vez este meu espírito onde dificilmente germina o transcendente, acabou por fazer o que faz a água, uma das coisas mais simples da Natureza, que nunca complica as coisas e vai procurando o caminho mais óbvio por entre as pedras até chegar ao regato, até chegar ao rio, até chegar ao mar.
E afinal não descobri nada de novo para acreditar, que substituísse o Pai Natal; simplesmente porque esse lugar já estava ocupado. Afinal a solução é o que sempre tenho feito.
Quando rasgo o papel de fantasia e desembrulho a oferta que recebo, não preciso de avalistas nem de intermediários: o que encontro lá dentro é a própria pessoa que mo deu. Inteira. A sorrir para mim.
Este ano recebi várias pessoas de presente de Natal, espero que vocês tenham recebido muitas também.
Também, da última vez que lhe escrevi, com todo o respeito, ele não só não me deu resposta, como trocou tudo o que lhe pedi.
Pedi-lhe um presidente que falasse um português que eu entendesse e ele deu-me um presidente que fala uma língua com um sotaque estranho e como se não bastasse, pôs o próprio governo a falar para inglês ver. E quanto ao país que lhe pedi, nem é bom falar; basta ver quantos portugueses preferiam ser espanhóis, coisa a que, pelo que também se tem visto, nem os próprios espanhóis dão lá muito apreço.
Eu, continuei a oferecer a mim mesmo as prendas de Natal e a receber as pessoas como os verdadeiros presentes, independentemente do que me deram.
Eu próprio me dei a mim em cada presente, este ano, não porque eu seja uma boa prenda, mas porque acredito que a amizade é proporcional ao quanto nos damos, sempre que damos alguma coisa.
E propus-me a acreditar em alguma coisa, fosse lá no que fosse, assim como quem vai às compras à procura da coisa certa para a pessoa certa. Honestamente, esta alma, ou o que quer que esteja cá dentro que nos distinga das pedras, já que de alguns animais a diferença é pouca, decidiu procurar uma coisa que substituísse definitivamente o Pai Natal, para esta época festiva, porque definitivamente, o Pai Natal está senil e já não dá conta do recado.
Pensei no Menino Jesus que avalizava as prendas de Natal da minha mãe, na Befana italiana, na Babushka russa, no Jultomten escandinavo, mas todos me pareceram intermediários a procurarem a gratidão por dádivas alheias e mais uma vez este meu espírito onde dificilmente germina o transcendente, acabou por fazer o que faz a água, uma das coisas mais simples da Natureza, que nunca complica as coisas e vai procurando o caminho mais óbvio por entre as pedras até chegar ao regato, até chegar ao rio, até chegar ao mar.
E afinal não descobri nada de novo para acreditar, que substituísse o Pai Natal; simplesmente porque esse lugar já estava ocupado. Afinal a solução é o que sempre tenho feito.
Quando rasgo o papel de fantasia e desembrulho a oferta que recebo, não preciso de avalistas nem de intermediários: o que encontro lá dentro é a própria pessoa que mo deu. Inteira. A sorrir para mim.
Este ano recebi várias pessoas de presente de Natal, espero que vocês tenham recebido muitas também.
quarta-feira, outubro 25, 2006
Leitura recomendada - comentário
O post é muito informativo do que se passava antes do eclodir da revolta armada da Frelimo. Porém, apesar da "acção psicológica" desenvolvida pelos portugueses durante a guerra colonial ainda contactei com muitos actos que podem ser considerados de puro esclavagismo.
Refiro-me não só a criação de dependência fraudulenta do empregador, que como o post bem explica, consistia em criar uma dívida crescente ao trabalhador que nunca era saldada, ou por meio de deslocação para longe do seu local de origem de modo a que o trabalhador ficasse isolado e desprotegido, ou ainda, por meio de dependência do álcool; refiro-me mesmo a trabalho sob coação física, debaixo do chicote.
Para não falar na quase totalmente livre acção predatória exercida sobre as mulheres indígenas na maior parte dos casos quando ainda adolescentes ou crianças.
Na verdade a Guerra Colonial proporcionou um fenómeno social interessante: os soldados recém chegados da "Metrópole" que foram para lá para os combater, revelaram uma forma diferente de relacionamento com as populações africanas, sem os vícios acumulados de séculos de domínio e de racismo, um novo relacionamento que se traduzia muitas vezes no respeito e confraternização.
É importante, no entanto, não esquecer que apesar de tudo o povo português foi provavelmente o que menos preconceitos racistas desenvolveu, basta ver o número imenso de uniões e casamentos inter-raciais. Basta olhar para o Brasil, onde mais de metade da população tem sangue negro nas veias resultado dessas uniões na maioria dos casos entre os descendentes dos escravos negros e os portugueses.Bem, isto é um tema inesgotável e é sempre gratificante ler um texto assim tratando as coisas sem tibiezas.
Refiro-me não só a criação de dependência fraudulenta do empregador, que como o post bem explica, consistia em criar uma dívida crescente ao trabalhador que nunca era saldada, ou por meio de deslocação para longe do seu local de origem de modo a que o trabalhador ficasse isolado e desprotegido, ou ainda, por meio de dependência do álcool; refiro-me mesmo a trabalho sob coação física, debaixo do chicote.
Para não falar na quase totalmente livre acção predatória exercida sobre as mulheres indígenas na maior parte dos casos quando ainda adolescentes ou crianças.
Na verdade a Guerra Colonial proporcionou um fenómeno social interessante: os soldados recém chegados da "Metrópole" que foram para lá para os combater, revelaram uma forma diferente de relacionamento com as populações africanas, sem os vícios acumulados de séculos de domínio e de racismo, um novo relacionamento que se traduzia muitas vezes no respeito e confraternização.
É importante, no entanto, não esquecer que apesar de tudo o povo português foi provavelmente o que menos preconceitos racistas desenvolveu, basta ver o número imenso de uniões e casamentos inter-raciais. Basta olhar para o Brasil, onde mais de metade da população tem sangue negro nas veias resultado dessas uniões na maioria dos casos entre os descendentes dos escravos negros e os portugueses.Bem, isto é um tema inesgotável e é sempre gratificante ler um texto assim tratando as coisas sem tibiezas.
quarta-feira, junho 28, 2006
A Ameaça da Primavera

Onde os homens sujaram de cinza, as plantas devolveram a cor. Não desiste a Natureza de mostrar como somos exíguos e perecíveis e nós, o último estádio da evolução, logo, logo abaixo de Deus, estamos já à espera que a Natureza se distraia para transformar o Verão em Inferno e tudo ficar cinza de novo.

Talvez seja um cardo, ou a memória do fogo, ou a raiva dos prados, ou a ameaça de que a perfídia dos homens não há-de prevalecer porque as plantas já cá estavam há muito e cá hão-de ficar depois do último de nós.

Mas sempre que a Primavera me tenta ensinar a esperança eu tento aprender. Sempre, todos os anos, como se nunca tivesse duvidado e agora venho aqui partilha-la convosco em jeito de prenda de anos atrasada para o Quim e outros consumidores de primaveras e de votos de sucesso para a Joaninha, com este primaveril diminutivo, apesar da sua merecida e douta condição.
Com esperança
Manuel
segunda-feira, abril 24, 2006
24 de Abril de 1974
Faz hoje 32 anos que me encontrava no Hospital Militar de Lisboa. Lembro-me perfeitamente de estar preocupado com o que poderia vir a acontecer-me. O cigarro que ainda considerava um amigo especial para estas ocasiões era o único confidente dos meus pensamentos. Andei todo o dia apreensivo, porque havia duas semanas, mais ou menos, que nada acontecia e eu esperava a qualquer momento que viesse a acontecer. Era quarta-feira, a semana estava quase a meio e não nos diziam nada. Só podia ser mau sinal.
A nossa situação como militares feridos em campanha era pouco mais que humilhante em relação à legislação então em vigor. Lembro-me que se citava como exemplo o único benefício que os cegos tinham em matéria de fiscalidade: não pagariam licença para o cão-guia.
Porque as instalações hospitalares, os anexos das mesmas, construídas com pré-fabricados e o tenebroso Depósito de Indisponíveis já estavam super lotados, a medida dos nossos governantes da altura não foi a de arranjar mais espaços à pressa, não senhor, como fora feito com as cavalariças da Rua Artilharia Um onde foram alojados os soldados feridos, a solução foi bem mais simples e eficaz: passar todos à disponibilidade e que cada um resolvesse o seu problema.
Foi precisa alguma coragem, tendo em conta o regime ditatorial em vigor, admito, mas nós sentíamos que não tínhamos muito a perder e fizemos uma manifestação. Como não se chegou a consenso quanto ao que deveríamos escrever no único cartaz que exibiríamos, decidimos que iria em branco, porque assim quem quer que nos visse fardados, de cadeira de rodas, de muletas, cegos, manetas e pernetas pela Avenida da Liberdade abaixo, quem quer que nos visse assim, imaginaria com facilidade uma frase a condizer e além do mais simbolizaria como de nenhuma outra forma, a lei da rolha, como o povo chamava à censura e à ditadura em geral.
Daí que no dia 24 de Abril de 1974 eu estivesse preocupado. O que nos iria acontecer depois daquela manifestação? O que aconteceu depois eu conto-o numa historinha o mais infantil que me foi possível escrever para uma turma do 6º ano de uma escola particular de Penafiel e que pode ser lido AQUI ou então no meu BLOG, se quiserem ver o diaporama que organizei para a ilustrar.
Aproveito para enviar os meus parabéns aos últimos aniversariantes: a Joaninha e o Sr Jorge.
A nossa situação como militares feridos em campanha era pouco mais que humilhante em relação à legislação então em vigor. Lembro-me que se citava como exemplo o único benefício que os cegos tinham em matéria de fiscalidade: não pagariam licença para o cão-guia.
Porque as instalações hospitalares, os anexos das mesmas, construídas com pré-fabricados e o tenebroso Depósito de Indisponíveis já estavam super lotados, a medida dos nossos governantes da altura não foi a de arranjar mais espaços à pressa, não senhor, como fora feito com as cavalariças da Rua Artilharia Um onde foram alojados os soldados feridos, a solução foi bem mais simples e eficaz: passar todos à disponibilidade e que cada um resolvesse o seu problema.
Foi precisa alguma coragem, tendo em conta o regime ditatorial em vigor, admito, mas nós sentíamos que não tínhamos muito a perder e fizemos uma manifestação. Como não se chegou a consenso quanto ao que deveríamos escrever no único cartaz que exibiríamos, decidimos que iria em branco, porque assim quem quer que nos visse fardados, de cadeira de rodas, de muletas, cegos, manetas e pernetas pela Avenida da Liberdade abaixo, quem quer que nos visse assim, imaginaria com facilidade uma frase a condizer e além do mais simbolizaria como de nenhuma outra forma, a lei da rolha, como o povo chamava à censura e à ditadura em geral.
Daí que no dia 24 de Abril de 1974 eu estivesse preocupado. O que nos iria acontecer depois daquela manifestação? O que aconteceu depois eu conto-o numa historinha o mais infantil que me foi possível escrever para uma turma do 6º ano de uma escola particular de Penafiel e que pode ser lido AQUI ou então no meu BLOG, se quiserem ver o diaporama que organizei para a ilustrar.
Aproveito para enviar os meus parabéns aos últimos aniversariantes: a Joaninha e o Sr Jorge.
sábado, fevereiro 18, 2006
A Linha de Produção
Antes de mais nada quero agradecer as palavras simpáticas pelo meu aniversário que preferi fazer assim do que por meio de um comentário.
Depois quero dizer que tenho "investigado" que programa pode fazer a tarefa de legendar as fotos num diaporama em formato compatível com os leitores de DVD doméstico. Bem, até agora todos o fazem, mas nenhum tem as características ideais que são oferecidas pelo Powerpoin, resta-me confirmar se há uma forma fácil de converter uma apresentação em formato de DVD, mas penso que sim. Quando obtiver um resultado satisfatório darei notícias.
Agora como é meu costume aqui, apresento um dos meus textos sobre a guerra colonial que poderá ser lido no meu blog.
Quando se recorda uma guerra tendemos a falar dos momentos de violência e de terror e quase nunca dos momentos em que não acontece nada, a não ser a incapacidade de dominar o pensamento, porque é nesses momentos que interiorizamos o medo.
Antes de por o pé em Moçambique, da amurada do navio, um entre milhares de soldados, dei por mim a interrogar-me sobre o que seria que um barco de tropas traria de volta para a Metrópole, como nós dizíamos quando nos referíamos a Portugal. Um guindaste içava para o convés um enorme volume coberto por um oleado, depois outro. Ninguém parecia intrigado com aqueles volumes que iriam fazer a viagem ao contrário da que acabávamos de ter feito. Mas eu não resisti à tentação de ir levantar um dos oleados para ver o que era…
Depois, alguns meses depois, a imagem dos volumes a subirem para o convés, enquanto os soldados desciam para o porto de Lourenço Marques, regressou, como um mau presságio, na madrugada do meu último dia na guerra.
Link para o texto completo
Link para o blog
Depois quero dizer que tenho "investigado" que programa pode fazer a tarefa de legendar as fotos num diaporama em formato compatível com os leitores de DVD doméstico. Bem, até agora todos o fazem, mas nenhum tem as características ideais que são oferecidas pelo Powerpoin, resta-me confirmar se há uma forma fácil de converter uma apresentação em formato de DVD, mas penso que sim. Quando obtiver um resultado satisfatório darei notícias.
Agora como é meu costume aqui, apresento um dos meus textos sobre a guerra colonial que poderá ser lido no meu blog.
Quando se recorda uma guerra tendemos a falar dos momentos de violência e de terror e quase nunca dos momentos em que não acontece nada, a não ser a incapacidade de dominar o pensamento, porque é nesses momentos que interiorizamos o medo.
Antes de por o pé em Moçambique, da amurada do navio, um entre milhares de soldados, dei por mim a interrogar-me sobre o que seria que um barco de tropas traria de volta para a Metrópole, como nós dizíamos quando nos referíamos a Portugal. Um guindaste içava para o convés um enorme volume coberto por um oleado, depois outro. Ninguém parecia intrigado com aqueles volumes que iriam fazer a viagem ao contrário da que acabávamos de ter feito. Mas eu não resisti à tentação de ir levantar um dos oleados para ver o que era…
Depois, alguns meses depois, a imagem dos volumes a subirem para o convés, enquanto os soldados desciam para o porto de Lourenço Marques, regressou, como um mau presságio, na madrugada do meu último dia na guerra.
Link para o texto completo
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domingo, dezembro 25, 2005
Carta ao Pai Natal de um puto de 55 anos
Senhor Pai Natal,
O senhor deve estranhar que lhe esteja a escrever agora, quando toda a gente escreve sempre antes do Natal para lhe pedirem os presentes, mas eu vinha agradecer-lhe os que recebi.
Na verdade, eu não acredito que o senhor venha a ler esta carta;
Primeiro, porque não vai escrita em lapónio e se calhar o senhor não sabe português - mas isso não é de admirar porque aqui há muita gente que também não sabe e até estão a pensar em arranjar um presidente que ás vezes parece falar lapónio;
Segundo, não estou convencido que o senhor exista, o Menino Jesus, eu sei que existia porque a minha mãe dizia que sim, e a minha mãe nunca me mentiu;
Terceiro, não acredito que o senhor ainda esteja ao serviço, depois de tantos anos, dado que as medidas para aumentarem a idade da reforma ainda não foram postas em prática pelo governo.
Mas mesmo assim venho aqui agradecer-lhe.
Agradeço o presente que eu próprio comprei e escolhi, porque não havia meio de as pessoas descobrirem que era aquilo que eu queria.
Agradeço os presentes das minhas filhas, porque dá-me sempre a impressão que o presente é que as oferece a elas, para mim.
Agradeço o presente da minha mulher, porque é um presente cúmplice: só nós sabemos que os trocamos um com o outro.
Agradeço os presentes dos meus amigos porque não preciso de os abrir para saber o que lá está dentro: calor e afecto.
De facto, Pai Natal, este ano estou satisfeito com os presentes que recebi, porque já me habituei a lidar com a sovinice do senhor e se não fosse alguma habilidade minha e as pessoas que me querem bem, não tinha recebido nada de jeito.
Já agora aproveito esta carta para lhe pedir um presente antecipado, desculpe o oportunismo: dê-me um país novo, ou se não puder ser, dê-me ao menos um presidente que saiba falar bem português.
Sem outro assunto de momento.
Atenciosamente,
Manuel
O senhor deve estranhar que lhe esteja a escrever agora, quando toda a gente escreve sempre antes do Natal para lhe pedirem os presentes, mas eu vinha agradecer-lhe os que recebi.
Na verdade, eu não acredito que o senhor venha a ler esta carta;
Primeiro, porque não vai escrita em lapónio e se calhar o senhor não sabe português - mas isso não é de admirar porque aqui há muita gente que também não sabe e até estão a pensar em arranjar um presidente que ás vezes parece falar lapónio;
Segundo, não estou convencido que o senhor exista, o Menino Jesus, eu sei que existia porque a minha mãe dizia que sim, e a minha mãe nunca me mentiu;
Terceiro, não acredito que o senhor ainda esteja ao serviço, depois de tantos anos, dado que as medidas para aumentarem a idade da reforma ainda não foram postas em prática pelo governo.
Mas mesmo assim venho aqui agradecer-lhe.
Agradeço o presente que eu próprio comprei e escolhi, porque não havia meio de as pessoas descobrirem que era aquilo que eu queria.
Agradeço os presentes das minhas filhas, porque dá-me sempre a impressão que o presente é que as oferece a elas, para mim.
Agradeço o presente da minha mulher, porque é um presente cúmplice: só nós sabemos que os trocamos um com o outro.
Agradeço os presentes dos meus amigos porque não preciso de os abrir para saber o que lá está dentro: calor e afecto.
De facto, Pai Natal, este ano estou satisfeito com os presentes que recebi, porque já me habituei a lidar com a sovinice do senhor e se não fosse alguma habilidade minha e as pessoas que me querem bem, não tinha recebido nada de jeito.
Já agora aproveito esta carta para lhe pedir um presente antecipado, desculpe o oportunismo: dê-me um país novo, ou se não puder ser, dê-me ao menos um presidente que saiba falar bem português.
Sem outro assunto de momento.
Atenciosamente,
Manuel
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Manuel Bastos,
Natal
segunda-feira, dezembro 19, 2005
Uma modesta prenda de Natal
Aprendi a gostar do Natal pela razão mais materialista possível: os presentes.
Com o tempo ganhei o espírito da confraternização com a família e penso que o transmiti razoavelmente às minhas filhas, mas no fundo de mim mesmo, ainda sobrevive aquela ansiedade gulosa que antecede o rasgar do papel em busca da coisa nova.
O Menino Jesus nunca foi pródigo em grandes surpresas. Mais tarde a sociedade de consumo trouxe o Pai Natal e ele lá abriu mais os cordões à bolsa, mas não se pode dizer que tenha perdido o juízo alguma vez, com as prendas que me deu.
Habituei-me à frase feita de que o que conta é a intenção, o espírito da quadra e tal… e lá tenho gerido este deve-haver natalício, mas não me sai da cabeça aquela promessa que fiz a mim mesmo quando era criança…
Os meus pais diziam-me que o Menino Jesus não dava prendas muito caras e que portanto eu não poderia receber o triciclo que tanto queria e eu pensava que um dia iria arranjar dinheiro para comprar um, demorasse o tempo que demorasse. Apesar de uma leve dúvida quanto à viabilidade desse prazer serôdio, dizia a mim mesmo que haveria de ter um.
Bem… nunca andei de triciclo na minha vida, nunca recebi muitas outras coisas que desejei pelos natais da minha existência, mas houve uma prenda que desejei ardentemente receber num certo Natal, afinal não custava nada ao Pai Natal dar-ma, era uma prenda bem modesta essa, a mais modesta que alguma vez desejei…
Claro, é mais uma história da guerra colonial, meia ficção, meia realidade; um pequeno conto de Natal que recebeu um prémio do Diário de Coimbra. Para lê-lo clique aqui.
Com o tempo ganhei o espírito da confraternização com a família e penso que o transmiti razoavelmente às minhas filhas, mas no fundo de mim mesmo, ainda sobrevive aquela ansiedade gulosa que antecede o rasgar do papel em busca da coisa nova.
O Menino Jesus nunca foi pródigo em grandes surpresas. Mais tarde a sociedade de consumo trouxe o Pai Natal e ele lá abriu mais os cordões à bolsa, mas não se pode dizer que tenha perdido o juízo alguma vez, com as prendas que me deu.
Habituei-me à frase feita de que o que conta é a intenção, o espírito da quadra e tal… e lá tenho gerido este deve-haver natalício, mas não me sai da cabeça aquela promessa que fiz a mim mesmo quando era criança…
Os meus pais diziam-me que o Menino Jesus não dava prendas muito caras e que portanto eu não poderia receber o triciclo que tanto queria e eu pensava que um dia iria arranjar dinheiro para comprar um, demorasse o tempo que demorasse. Apesar de uma leve dúvida quanto à viabilidade desse prazer serôdio, dizia a mim mesmo que haveria de ter um.
Bem… nunca andei de triciclo na minha vida, nunca recebi muitas outras coisas que desejei pelos natais da minha existência, mas houve uma prenda que desejei ardentemente receber num certo Natal, afinal não custava nada ao Pai Natal dar-ma, era uma prenda bem modesta essa, a mais modesta que alguma vez desejei…
Claro, é mais uma história da guerra colonial, meia ficção, meia realidade; um pequeno conto de Natal que recebeu um prémio do Diário de Coimbra. Para lê-lo clique aqui.
quinta-feira, novembro 24, 2005
Felicidades Graça
Quando eu tinha 14 anos e era eterno, achava que uma vizinha minha com 30 anos era velha. Agora que tenho dificuldade em reconhecer o tipo que faz a barba todos os dias dentro do espelho da casa de banho, a olhar para mim, sinto que muita coisa se passou de certeza absoluta, mas lembro-me de poucas verdadeiramente dignas de recordar e de ainda menos pessoas.
O verdadeiro amigo, permito-me a arrogância de o dizer, não é aquele que nos dá imensas coisas, mas sim aquele que se dá a si, que está presente, quando precisamos de olhar para o lado e ver um rosto humano.
Neste dia em que se celebra o dia em que nasceu, Graça, venho aqui, por assim dizer, oficialmente, desejar que todos os seus familiares e amigos, aos quais eu sinto a honra de pertencer, recebam por muitos anos o presente da sua presença, do seu rosto humano; quando olharem para o lado à procura do conforto que só o afecto e a amizade podem dar. Cada vez que fizer anos seremos nós a receber a maior prenda.
A Inês, a Cristina e o Manuel desejam-lhe muitas, muitas, felicidades.
O verdadeiro amigo, permito-me a arrogância de o dizer, não é aquele que nos dá imensas coisas, mas sim aquele que se dá a si, que está presente, quando precisamos de olhar para o lado e ver um rosto humano.
Neste dia em que se celebra o dia em que nasceu, Graça, venho aqui, por assim dizer, oficialmente, desejar que todos os seus familiares e amigos, aos quais eu sinto a honra de pertencer, recebam por muitos anos o presente da sua presença, do seu rosto humano; quando olharem para o lado à procura do conforto que só o afecto e a amizade podem dar. Cada vez que fizer anos seremos nós a receber a maior prenda.
A Inês, a Cristina e o Manuel desejam-lhe muitas, muitas, felicidades.
domingo, outubro 16, 2005
Uma história de um regresso esperado e outra de uma partida inadiável
Amigo Quim,
Todos aqui em casa aguardámos que este blog acendesse as luzes, como as casas abandonadas à chegada dos seus donos. Sabíamos que era apenas um intervalo e ficámos em suspenso; tivéssemos o dom de acreditar que um pedido sincero obteria resposta e tê-lo-íamos formulado, assim restou-nos partilhar um pouco da dor da espera e aguardar a alegria da chegada, que a amizade é só isto: partilhar esta vertigem que é viver a vida sem mais nada a que nos segurarmos do que uns aos outros.
Com votos de restabelecimento seguro venho contribuir com mais um texto meu, para que o bulício dentro da casa, que é este blog, faça saber que os seus donos voltaram e que os seus amigos estão felizes.
O Tocador de Canhembe
Às vezes, como com os amantes enganados, temos que ver com os nossos próprios olhos. Já sabemos como as coisas se passaram, mas temos uma curiosidade mórbida por saber as coisas relatadas pelos próprios ou por quem as testemunhou. Foi o que aconteceu comigo quando o mainato (o empregado que nos lavava as roupas) me disse que conhecia um maconde velho que podia responder às minhas perguntas.
Consegui convencê-lo a combinar um encontro com o velho. Este foi o acontecimento mais surrealista da minha vida. Um velho maconde que tocava um estranho instrumento de uma corda só, esticada sobre um pequeno tambor e que era friccionada com um pequeno arco; que tinha um camaleão numa gaiola e que me recebeu na sua mísera palhota como um rei recebe um general inimigo: com suprema dignidade e superior delicadeza. Mas não usou de diplomacia, que é o cinismo dos políticos, sofreu com cada palavra de genuíno ódio e quando eu saí, o som daquele instrumento estranho e o eco das suas palavras gritaram-me a evidência: eu tinha que desertar.
Outro conflito inusitado nasceu naquele momento. Ao saber que partiria dali para nunca mais voltar, senti uma saudade antecipada do local onde vivi mais intensamente; onde tudo era estranho, mas embriagadoramente belo e exótico – até o pôr-do-sol parecia ocorrer do lado contrário. (Devido à localização geográfica de Moçambique o Sol nasce no mar e põe-se na floresta.)
Texto original publicado no Jornal Elo – clicar aqui
Todos aqui em casa aguardámos que este blog acendesse as luzes, como as casas abandonadas à chegada dos seus donos. Sabíamos que era apenas um intervalo e ficámos em suspenso; tivéssemos o dom de acreditar que um pedido sincero obteria resposta e tê-lo-íamos formulado, assim restou-nos partilhar um pouco da dor da espera e aguardar a alegria da chegada, que a amizade é só isto: partilhar esta vertigem que é viver a vida sem mais nada a que nos segurarmos do que uns aos outros.
Com votos de restabelecimento seguro venho contribuir com mais um texto meu, para que o bulício dentro da casa, que é este blog, faça saber que os seus donos voltaram e que os seus amigos estão felizes.
O Tocador de Canhembe
Às vezes, como com os amantes enganados, temos que ver com os nossos próprios olhos. Já sabemos como as coisas se passaram, mas temos uma curiosidade mórbida por saber as coisas relatadas pelos próprios ou por quem as testemunhou. Foi o que aconteceu comigo quando o mainato (o empregado que nos lavava as roupas) me disse que conhecia um maconde velho que podia responder às minhas perguntas.
Consegui convencê-lo a combinar um encontro com o velho. Este foi o acontecimento mais surrealista da minha vida. Um velho maconde que tocava um estranho instrumento de uma corda só, esticada sobre um pequeno tambor e que era friccionada com um pequeno arco; que tinha um camaleão numa gaiola e que me recebeu na sua mísera palhota como um rei recebe um general inimigo: com suprema dignidade e superior delicadeza. Mas não usou de diplomacia, que é o cinismo dos políticos, sofreu com cada palavra de genuíno ódio e quando eu saí, o som daquele instrumento estranho e o eco das suas palavras gritaram-me a evidência: eu tinha que desertar.
Outro conflito inusitado nasceu naquele momento. Ao saber que partiria dali para nunca mais voltar, senti uma saudade antecipada do local onde vivi mais intensamente; onde tudo era estranho, mas embriagadoramente belo e exótico – até o pôr-do-sol parecia ocorrer do lado contrário. (Devido à localização geográfica de Moçambique o Sol nasce no mar e põe-se na floresta.)
Texto original publicado no Jornal Elo – clicar aqui
domingo, agosto 28, 2005
A pergunta
Sempre tive dificuldade com as perguntas simples. Quando julgo saber razoavelmente de alguma coisa gosto de perguntas que me permitam ganhar tempo até chegar ao essencial, mas quando me fazem uma pergunta simples eu tenho que partir logo do essencial. Costuma acontecer assim com as perguntas das crianças.
A maior parte das vezes demoro tanto tempo a seleccionar o essencial que o meu interlocutor responde por mim, como foi este o caso.
Raras vezes ouvi conversas sobre a validade ou a simples justificação da guerra colonial entre os soldados com quem convivi. Nos meus textos do blog refiro as únicas frases de que me lembro. E são tudo perguntas simples que requerem respostas sobre o essencial.
Neste caso, numa das primeiras operações no mato, um cabo do meu grupo-de-combate, que eu tinha como alguém que não se perguntava sobre coisa nenhuma, fez-me a pergunta – a pergunta na negativa, como se soubesse qual era a minha opinião. Mas levei uma eternidade a responder, pela minha cabeça foram-se desfolhando argumentos contraditórios como era cada vez mais contraditória a minha situação naquela guerra.
Pensando bem, não era sequer uma pergunta, era uma constatação e eu não me lembro de lhe ter respondido, senão com um silêncio cúmplice, só me lembro bem da constelação do Cruzeiro do Sul a mostrar-me que eu estava no hemisfério errado.
Ver texto original aqui.
A maior parte das vezes demoro tanto tempo a seleccionar o essencial que o meu interlocutor responde por mim, como foi este o caso.
Raras vezes ouvi conversas sobre a validade ou a simples justificação da guerra colonial entre os soldados com quem convivi. Nos meus textos do blog refiro as únicas frases de que me lembro. E são tudo perguntas simples que requerem respostas sobre o essencial.
Neste caso, numa das primeiras operações no mato, um cabo do meu grupo-de-combate, que eu tinha como alguém que não se perguntava sobre coisa nenhuma, fez-me a pergunta – a pergunta na negativa, como se soubesse qual era a minha opinião. Mas levei uma eternidade a responder, pela minha cabeça foram-se desfolhando argumentos contraditórios como era cada vez mais contraditória a minha situação naquela guerra.
Pensando bem, não era sequer uma pergunta, era uma constatação e eu não me lembro de lhe ter respondido, senão com um silêncio cúmplice, só me lembro bem da constelação do Cruzeiro do Sul a mostrar-me que eu estava no hemisfério errado.
Ver texto original aqui.
quarta-feira, agosto 24, 2005
Requiem pelo Vale de Canas
Fui feliz no Vale de Canas. Fiz lá uma promessa de amor. Anos depois da promessa cumprida fui lá mostrar o resultado.
Fui lá algumas vezes só para ouvir as árvores e ver a ternura do musgo sobre as pedras. Por vezes pareceu-me que uma voz me sussurrou qualquer coisa e dei por mim a juntar palavras como quem faz um poema.
Lembro-me de ter ensinado os perfumes do canteiro de ervas aromáticas á minha promessa de amor que me acompanhava de braço no ar para chegar aos meus dedos. O cheiro metálico, assim como um dia de chuva, mas mais alegre é o limonete; o cheiro fumado a lembrar as tardes de Outono, mas mais doce, é o alecrim; o cheiro floral mas muito suave, como o sol da manhã, é a lavanda… e ela a rir-se como fazem todas as promessas de amor quando ouvem os pais dizerem disparates!
Por isso é que estou de luto.
Imagino as árvores caladas como cadáveres calcinados, os dedos descarnados ainda erguidos como fazem todas as vítimas inocentes.
Não consigo sentir raiva nem ódio, sinto apenas uma imensa vergonha por pertencer a uma geração que recebeu dos pais um bosque ideal para fazer promessas de amor que se pretendem cumprir, que nos momentos de desalento ensinava poesia, onde o musgo acariciava as pedras e as plantas compunham sinfonias de perfume para os pais que não sabem música – e depois… o entregam transformado num monte de gravetos calcinados aos filhos.
Tenho vergonha de pertencer a um povo que aceita a incúria e o crime como uma inevitabilidade e assista a este espectáculo apocalíptico e degradante com a mente torpe de um consumidor de filmes pornográficos.

Fogo de há dez anos.
De dez em dez anos... É so o tempo dos eucalíptos crescerem!
Fui lá algumas vezes só para ouvir as árvores e ver a ternura do musgo sobre as pedras. Por vezes pareceu-me que uma voz me sussurrou qualquer coisa e dei por mim a juntar palavras como quem faz um poema.
Lembro-me de ter ensinado os perfumes do canteiro de ervas aromáticas á minha promessa de amor que me acompanhava de braço no ar para chegar aos meus dedos. O cheiro metálico, assim como um dia de chuva, mas mais alegre é o limonete; o cheiro fumado a lembrar as tardes de Outono, mas mais doce, é o alecrim; o cheiro floral mas muito suave, como o sol da manhã, é a lavanda… e ela a rir-se como fazem todas as promessas de amor quando ouvem os pais dizerem disparates!
Por isso é que estou de luto.
Imagino as árvores caladas como cadáveres calcinados, os dedos descarnados ainda erguidos como fazem todas as vítimas inocentes.
Não consigo sentir raiva nem ódio, sinto apenas uma imensa vergonha por pertencer a uma geração que recebeu dos pais um bosque ideal para fazer promessas de amor que se pretendem cumprir, que nos momentos de desalento ensinava poesia, onde o musgo acariciava as pedras e as plantas compunham sinfonias de perfume para os pais que não sabem música – e depois… o entregam transformado num monte de gravetos calcinados aos filhos.
Tenho vergonha de pertencer a um povo que aceita a incúria e o crime como uma inevitabilidade e assista a este espectáculo apocalíptico e degradante com a mente torpe de um consumidor de filmes pornográficos.

Fogo de há dez anos.De dez em dez anos... É so o tempo dos eucalíptos crescerem!
quarta-feira, agosto 10, 2005
O Paludismo
Quando pensamos em África e nos animais que lá vivem, normalmente vêm-nos à mente os grandes mamíferos, os predadores mais ferozes, e à ideia de beleza associa-se um certo temor que eles nos inspiram. Mas o mais perigoso animal de África é uma coisinha aparentemente insignificante, que mata mais pessoas que todos os outros animais selvagens juntos.
É um insecto, é o mosquito portador da malária ou paludismo, doença que se tivesse merecido a atenção da comunidade internacional que é dispensada hoje à SIDA, já teria sido de certo erradicada daquele continente. Como é uma doença característica daquela latitude onde os países pobres são os mais atingidos, ela tem vindo a matar milhões de pessoas quase livremente.
Para nós, os antigos soldados portugueses naquelas paragens, o paludismo era um dos perigos associados à guerra, mas ser mordido por um mosquito era largamente mais provável que pisar uma mina.
Se a lotaria da guerra fosse regida por critérios de alguma equidade o facto de ter contraído o paludismo já deveria ter sido bastante, mas estavam-me destinadas as duas experiências. O que olhado pelo lado optimista é bastante animador, uma vez que sobrevivi a ambas, o que faz de mim, não verdadeiramente uma baixa, mas um sobrevivente.
No meu blog "Cacimbo" postei um texto publicado anteriormente no jornal da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, como todos os outros aliás, descrevendo de uma forma semi-ficcionada, essa experiência.
Pode ser visitado na forma reduzida, aqui, ou lido o texto completo, aqui.
É um insecto, é o mosquito portador da malária ou paludismo, doença que se tivesse merecido a atenção da comunidade internacional que é dispensada hoje à SIDA, já teria sido de certo erradicada daquele continente. Como é uma doença característica daquela latitude onde os países pobres são os mais atingidos, ela tem vindo a matar milhões de pessoas quase livremente.
Para nós, os antigos soldados portugueses naquelas paragens, o paludismo era um dos perigos associados à guerra, mas ser mordido por um mosquito era largamente mais provável que pisar uma mina.
Se a lotaria da guerra fosse regida por critérios de alguma equidade o facto de ter contraído o paludismo já deveria ter sido bastante, mas estavam-me destinadas as duas experiências. O que olhado pelo lado optimista é bastante animador, uma vez que sobrevivi a ambas, o que faz de mim, não verdadeiramente uma baixa, mas um sobrevivente.
No meu blog "Cacimbo" postei um texto publicado anteriormente no jornal da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, como todos os outros aliás, descrevendo de uma forma semi-ficcionada, essa experiência.
Pode ser visitado na forma reduzida, aqui, ou lido o texto completo, aqui.
domingo, julho 24, 2005
A apologia da ignorância
Quando vemos no cinema o soldado americano passando incólume por uma chuva de balas e finalmente sob a mira de não sei quantas armas letais, algumas delas ainda não inventadas, temos um momento de dúvida: será que se safa desta? Mas logo nos sentimos aliviados, claro que se safa, quanto mais não seja, diz-nos a estatística que ele se safa sempre.
O mais interessante é que na vida real, pelo menos até determinada idade, isso também é assim. A estatística mostra claramente que são sempre os outros a morrer, e principalmente os que já são velhos.
Aos vinte e poucos anos uma pessoa não está preparada para encarar a vida como uma coisa descartável nem para encarar a morte como um acto tão gratuito como avançar a pedra das damas, para obrigar o adversário a comê-la, e assim ganharmos o jogo.
Nunca ninguém chorou uma pedra das damas que de repente o adversário levou e é assim também na guerra, espera-se que não choremos o camarada do lado que de repente deixou de existir. Estava a falar connosco, ou simplesmente a iniciar um sorriso, e de repente, como que por um erro do guião, a sua história acabou ali. A primeira sensação é realmente parecida com a do espectador do filme americano, no meio da plateia, a quem tivessem parado a projecção do filme porque o herói morreu. Ele olhando incrédulo para todos os lados à espera de uma explicação e nada: o herói morreu e pronto.
Mas a verdade é que nós aprendemos tudo. É essa a nossa bem-aventurança e a nossa maldição. Acabamos, com o tempo, a conviver pacificamente com as piores coisas, porque as aprendemos. Com a habituação, com a banalização, até acabamos por conviver pacificamente com a matança, com o crime, a que na guerra se dá o eufemístico nome de "baixa".
Mas este é o meu único orgulho que de lá trouxe: não aprendi nunca. Morri um pouco, com cada um dos soldados que o adversário retirou do tabuleiro de damas daquela guerra, tanto das brancas como das pretas: também não aprendi a diferença. Lembro-me de dizer entre dentes: Não vou aprender isto, não vou aprender isto!
O soldado Lourenço foi o primeiro morto com quem morri um pouco, depois seguiram-se outros, mas nunca me habituei, nunca aprendi, para mim foram sempre o primeiro morto.
Para ver o texto original completo clicar aqui.
O mais interessante é que na vida real, pelo menos até determinada idade, isso também é assim. A estatística mostra claramente que são sempre os outros a morrer, e principalmente os que já são velhos.
Aos vinte e poucos anos uma pessoa não está preparada para encarar a vida como uma coisa descartável nem para encarar a morte como um acto tão gratuito como avançar a pedra das damas, para obrigar o adversário a comê-la, e assim ganharmos o jogo.
Nunca ninguém chorou uma pedra das damas que de repente o adversário levou e é assim também na guerra, espera-se que não choremos o camarada do lado que de repente deixou de existir. Estava a falar connosco, ou simplesmente a iniciar um sorriso, e de repente, como que por um erro do guião, a sua história acabou ali. A primeira sensação é realmente parecida com a do espectador do filme americano, no meio da plateia, a quem tivessem parado a projecção do filme porque o herói morreu. Ele olhando incrédulo para todos os lados à espera de uma explicação e nada: o herói morreu e pronto.
Mas a verdade é que nós aprendemos tudo. É essa a nossa bem-aventurança e a nossa maldição. Acabamos, com o tempo, a conviver pacificamente com as piores coisas, porque as aprendemos. Com a habituação, com a banalização, até acabamos por conviver pacificamente com a matança, com o crime, a que na guerra se dá o eufemístico nome de "baixa".
Mas este é o meu único orgulho que de lá trouxe: não aprendi nunca. Morri um pouco, com cada um dos soldados que o adversário retirou do tabuleiro de damas daquela guerra, tanto das brancas como das pretas: também não aprendi a diferença. Lembro-me de dizer entre dentes: Não vou aprender isto, não vou aprender isto!
O soldado Lourenço foi o primeiro morto com quem morri um pouco, depois seguiram-se outros, mas nunca me habituei, nunca aprendi, para mim foram sempre o primeiro morto.
Para ver o texto original completo clicar aqui.
domingo, junho 26, 2005
Duas palavras apenas
Em todas as linhas que escrevo para o jornal Elo está sempre a mesma coisa, que poderia ser dito com duas palavras, se não me tivesse guiado a presunçosa intenção do exercício literário: desencanto e solidariedade. Podiam ter sido escritas repetidamente até ocuparem o espaço que lá me é destinado. Mais do que isto não consigo dizer, quando falo da guerra colonial.
Descobri que me haviam mentido e o desencanto fez com que a arma que trazia nas mãos começasse a aumentar de peso e a escaldar-me como um ferro em brasa. Ao mesmo tempo que encetava um processo de desaprendizagem de todos os valores que já faziam parte de mim, acho que ia ocupando esse espaço com a aprendizagem de um valor que é hoje cada vez mais raro: a solidariedade.
Quando pensamos em solidariedade, muitos de nós pensam nos donativos que se entregam para organizações de caridade com o intuito de ficar de bem com a consciência e de abater no IRS, ou que Deus esteja olhando para nós e no Deve-Haver dos pecados nos aumente os nossos créditos. Mas do que eu me lembro quando falo de solidariedade é de um princípio que no meu grupo-de-combate estabelecemos entre nós: "O último cigarro é para dividir por todos".
É claro que isto era uma frase-feita: não se limitava aos cigarros, a divisão equitativa dos últimos recursos. Na guerra éramos frequentemente confrontados com o último de todos recursos, a vida, e não deixámos nenhum ferido para trás para pouparmos o nosso último recurso. Nem em nome da primária lei da sobrevivência nem em nome de algum obscuro desígnio patriótico. Quantas vezes somos aconselhados a abandonar os outros, ao desemprego, á fome e à exclusão social, quando os recursos são poucos, para cumprirmos objectivos patrióticos. Gostaria de pedir a alguém que tivesse acesso ao presidente Sampaio, quando ele apela ao nosso patriotismo para trabalharmos mais e por mais tempo, tirando necessariamente trabalho a outros, só para lhe dizer que o último cigarro é para dividir por todos. Não sei porquê, mas acho que ele entenderia.


Este grupo de crianças jogava à bola. Nada tinham, e aqui "nada" significa que não tinham as primeiras cem coisas que acharmos essenciais, por ordem de importância até chegarmos à bola para o jogo, que não era de trapos, porque os trapos eram para vestirem: era um novelo de folhas de bananeira.
Estas crianças jogavam como se não houvesse guerra, como se a modesta igrejinha que mal se vê lá ao fundo, os protegesse dos morteiros e rockets, e eu vinha sentar-me a vê-los jogar, como se eles me protegessem de mim próprio, com as minhas dúvidas existenciais e os meus complexos de culpa, e me restituíssem a inocência perdida e saía dali com uma nova acepção para o conceito de solidariedade: mesmo quem nada tem, tem sempre algo para dar aos outros, nem que seja a inocência. Sinceramente, isto, não acredito que um político possa entender.
Desculpem o abuso, mas eu precisava de dizer isto a alguém.
Descobri que me haviam mentido e o desencanto fez com que a arma que trazia nas mãos começasse a aumentar de peso e a escaldar-me como um ferro em brasa. Ao mesmo tempo que encetava um processo de desaprendizagem de todos os valores que já faziam parte de mim, acho que ia ocupando esse espaço com a aprendizagem de um valor que é hoje cada vez mais raro: a solidariedade.
Quando pensamos em solidariedade, muitos de nós pensam nos donativos que se entregam para organizações de caridade com o intuito de ficar de bem com a consciência e de abater no IRS, ou que Deus esteja olhando para nós e no Deve-Haver dos pecados nos aumente os nossos créditos. Mas do que eu me lembro quando falo de solidariedade é de um princípio que no meu grupo-de-combate estabelecemos entre nós: "O último cigarro é para dividir por todos".
É claro que isto era uma frase-feita: não se limitava aos cigarros, a divisão equitativa dos últimos recursos. Na guerra éramos frequentemente confrontados com o último de todos recursos, a vida, e não deixámos nenhum ferido para trás para pouparmos o nosso último recurso. Nem em nome da primária lei da sobrevivência nem em nome de algum obscuro desígnio patriótico. Quantas vezes somos aconselhados a abandonar os outros, ao desemprego, á fome e à exclusão social, quando os recursos são poucos, para cumprirmos objectivos patrióticos. Gostaria de pedir a alguém que tivesse acesso ao presidente Sampaio, quando ele apela ao nosso patriotismo para trabalharmos mais e por mais tempo, tirando necessariamente trabalho a outros, só para lhe dizer que o último cigarro é para dividir por todos. Não sei porquê, mas acho que ele entenderia.


Este grupo de crianças jogava à bola. Nada tinham, e aqui "nada" significa que não tinham as primeiras cem coisas que acharmos essenciais, por ordem de importância até chegarmos à bola para o jogo, que não era de trapos, porque os trapos eram para vestirem: era um novelo de folhas de bananeira.
Estas crianças jogavam como se não houvesse guerra, como se a modesta igrejinha que mal se vê lá ao fundo, os protegesse dos morteiros e rockets, e eu vinha sentar-me a vê-los jogar, como se eles me protegessem de mim próprio, com as minhas dúvidas existenciais e os meus complexos de culpa, e me restituíssem a inocência perdida e saía dali com uma nova acepção para o conceito de solidariedade: mesmo quem nada tem, tem sempre algo para dar aos outros, nem que seja a inocência. Sinceramente, isto, não acredito que um político possa entender.
Desculpem o abuso, mas eu precisava de dizer isto a alguém.
quinta-feira, junho 23, 2005
Parabéns, poesia e "seca"
Cá vai mais uma "seca" sobre a guerra colonial.
Aproveito para endereçar os meus parabéns à Ana, e claro os da Inês, pelo belo lançamento do belo livro da ternurenta Geraldina, se a Ana não tiver a pachorra de vir ler isto, o que abona a seu favor, nós dar-lhos-emos pessoalmente numa próxima oportunidade.
Parabéns também para o Luís. – Olha que o Ricardo Reis era um "homem" avisado.
Miguel Torga também…Já agora, esta é a minha prenda:
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
Agora a "seca"
Eu costumava dizer que usava uma 7,35 às costas (referindo-me ao calibre da G3) e uma 35mm nas mãos (referindo-me à película usada pela minha máquina). Era uma piada que resultava naquele ambiente militar em que a potência das armas se reconhece pela medida do cano e em que uma foto da guerra podia ter a força de uma arma.

Os meus camaradas habituaram-se a ver-me de câmara na mão e de arma às costas e ainda hoje, parece, é assim que me recordam. E o que é mais lisonjeiro, é que recordam isso – a julgar pela forma como, alguns pelo menos, o referem – não como uma excentricidade irresponsável, mas como uma atitude corajosa.
Confesso que às vezes, vezes demais, tive que trocar a posição desses dois objectos e confesso que o fiz quando essa coragem, se coragem era, dava lugar ao primário instinto de sobrevivência. Mas a guerra é o último lugar onde se deve procurar um herói.
É esse conflito, presumo, que está na origem do distúrbio psiquiátrico, conhecido como PTSD, ou stress de guerra, como se tornou comum dizer em Portugal e, mais comummente ainda, "apanhados do clima" ou "cacimbados".
As fotos foram tiradas durante um golpe-de-mão (assalto) a uma "suposta" base da FRELIMO. Na de cima, o soldado à minha frente avança disparando de modo a fazer uma barreira de fogo ao seu avanço. Na de baixo um "suposto" guerrilheiro sai ferido de uma palhota. Vê-se mal, ou o rolo teria sido apreendido pelo controlo do correio de Mueda como outros que nunca me chegaram às mãos. (Eu mandava-os para Hamburgo para revelar.)
PTSD, stress de guerra, cacimbo, ou seja lá o que for, só em determinado grau de gravidade é que se considera uma doença, mas a fronteira nem os técnicos sabem ao certo onde se encontra. É uma doença da memória, que nos meus fracos dotes poéticos tive a ousadia de evocar neste post, felizmente, apenas como exercício literário.
As restantes fotos que o ilustram foram igualmente tiradas no referido ataque à referida base da FRELIMO no meio da mata virgem da África profunda. Olho para elas e, sinceramente, não acredito que estive lá.

Aproveito para endereçar os meus parabéns à Ana, e claro os da Inês, pelo belo lançamento do belo livro da ternurenta Geraldina, se a Ana não tiver a pachorra de vir ler isto, o que abona a seu favor, nós dar-lhos-emos pessoalmente numa próxima oportunidade.
Parabéns também para o Luís. – Olha que o Ricardo Reis era um "homem" avisado.
Miguel Torga também…Já agora, esta é a minha prenda:
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
Agora a "seca"
Eu costumava dizer que usava uma 7,35 às costas (referindo-me ao calibre da G3) e uma 35mm nas mãos (referindo-me à película usada pela minha máquina). Era uma piada que resultava naquele ambiente militar em que a potência das armas se reconhece pela medida do cano e em que uma foto da guerra podia ter a força de uma arma.

Os meus camaradas habituaram-se a ver-me de câmara na mão e de arma às costas e ainda hoje, parece, é assim que me recordam. E o que é mais lisonjeiro, é que recordam isso – a julgar pela forma como, alguns pelo menos, o referem – não como uma excentricidade irresponsável, mas como uma atitude corajosa.
Confesso que às vezes, vezes demais, tive que trocar a posição desses dois objectos e confesso que o fiz quando essa coragem, se coragem era, dava lugar ao primário instinto de sobrevivência. Mas a guerra é o último lugar onde se deve procurar um herói.
É esse conflito, presumo, que está na origem do distúrbio psiquiátrico, conhecido como PTSD, ou stress de guerra, como se tornou comum dizer em Portugal e, mais comummente ainda, "apanhados do clima" ou "cacimbados".
As fotos foram tiradas durante um golpe-de-mão (assalto) a uma "suposta" base da FRELIMO. Na de cima, o soldado à minha frente avança disparando de modo a fazer uma barreira de fogo ao seu avanço. Na de baixo um "suposto" guerrilheiro sai ferido de uma palhota. Vê-se mal, ou o rolo teria sido apreendido pelo controlo do correio de Mueda como outros que nunca me chegaram às mãos. (Eu mandava-os para Hamburgo para revelar.)
PTSD, stress de guerra, cacimbo, ou seja lá o que for, só em determinado grau de gravidade é que se considera uma doença, mas a fronteira nem os técnicos sabem ao certo onde se encontra. É uma doença da memória, que nos meus fracos dotes poéticos tive a ousadia de evocar neste post, felizmente, apenas como exercício literário.
As restantes fotos que o ilustram foram igualmente tiradas no referido ataque à referida base da FRELIMO no meio da mata virgem da África profunda. Olho para elas e, sinceramente, não acredito que estive lá.

terça-feira, junho 14, 2005
O Sortilégio da Borboleta
O convite para incluir alguns dos meus textos e fotos da guerra colonial neste blog é, por assim dizer, a segunda condecoração que recebo aqui.
A foto que encima estas palavras e que ilustra um dos textos do blog "Cacimbo" tem uma história por si só. Ela representa o conflito que lentamente tomou forma dentro de mim durante os dias da guerra.
Poucas imagens na minha vida me fizeram sonhar, como esta. A borboleta a pousar sobre a minha mão sem medo e eu a tirar lentamente a minha Alina de 35 mm do bolso do dólmen para a fotografar.
Quando eu achava que iria ser um pintor, fiz um quadro inspirado nesta foto a que dei o nome de "Borboletas da paz". Depois do 25 de Abril mudei-lhe o nome para "Prenúncio de Abril". Mas dê-lhe eu o título que der, o que tem de bela esta imagem é que ela passou a simbolizar os sentimentos antagónicos que justamente naquele dia eu tinha decidido resolver. Num acto simbólico tinha acabado de virar o carregador da G3 ao contrário onde colara um símbolo da paz, aquele que era usado contra a guerra do Vietname.
A foto que encima estas palavras e que ilustra um dos textos do blog "Cacimbo" tem uma história por si só. Ela representa o conflito que lentamente tomou forma dentro de mim durante os dias da guerra.
Poucas imagens na minha vida me fizeram sonhar, como esta. A borboleta a pousar sobre a minha mão sem medo e eu a tirar lentamente a minha Alina de 35 mm do bolso do dólmen para a fotografar.
Quando eu achava que iria ser um pintor, fiz um quadro inspirado nesta foto a que dei o nome de "Borboletas da paz". Depois do 25 de Abril mudei-lhe o nome para "Prenúncio de Abril". Mas dê-lhe eu o título que der, o que tem de bela esta imagem é que ela passou a simbolizar os sentimentos antagónicos que justamente naquele dia eu tinha decidido resolver. Num acto simbólico tinha acabado de virar o carregador da G3 ao contrário onde colara um símbolo da paz, aquele que era usado contra a guerra do Vietname.
Quando um dia perguntaram a um certo alemão se ele tinha sido nazi quando jovem, ele respondeu: "Então, não éramos todos?"
Não seremos todos nós, aquilo que nos ensinaram? Eu aprendi que Portugal começava no Minho e acabava na Índia e quando me disseram para ir defendê-lo a Moçambique fiquei feliz por mo pedirem. Mas o que descobri em Moçambique foi racismo, escravatura e sofrimento inútil e justamente no dia em que decidira que haveria de desertar, este contraste entre a forma bruta e obscena de uma G3 e a silhueta delicada e pura de uma borboleta foi como que uma revelação.
Nós somos também aquilo que pomos nas coisas que vemos, é a nossa obrigação de seres pensantes. Seremos completamente dispensáveis se não acrescentarmos algo aos ensinamentos que recebemos.
Não cheguei a desertar porque fui ferido em combate pouco tempo depois; não cheguei a ser pintor porque foi preciso ganhar a vida atrás do balcão de um banco, mas no que depender de mim, nem que seja apenas com palavras simples como estas, não haverá falta de informação para quando convocarem o genuíno heroísmo dos vinte e poucos anos de um jovem, para combater por aquilo em que ele não acredita.
O texto original e as respectivas fotos podem ser vistos clicando aqui.

quinta-feira, junho 02, 2005
Lapa honoris causa
Sinto-me como se tivesse recebido um título honoris causa, ou simplesmente, como um dia em África quando um macua me convidou a sentar junto ao fogo à frente da palhota, indicando-me o tijolo vazio a seu lado.
Fazer parte de uma família, partilhando o seu espaço íntimo só extensível aos verdadeiros amigos é a maior honra que há.
Seja no espaço cibernáutico; seja na adega da casa, onde na minha terra talvez por pudicícia se disfarça a verdadeira amizade com o álibi da bebida; seja ao redor do fogo; o convite tem o mesmo valor e espero que o merecimento do convidado lhe esteja à altura.
Por mim, para já, puxo o tijolo, ergo o copo ou penduro ao pescoço a condecoração de membro honoris causa desta tertúlia e comprometo-me a partilhar do calor que as palavras trazem consigo quando são francas, como sei que são, não por ter, mais que uma vez, espreitado o blog, a apetecer-me meter conversa, mas porque já conheço o calor que elas dão.
Quando as palavras são o único consolo e alguém no-las diz, está autenticado o mais imponderável contrato de todos: a amizade, mas também o mais duradouro, porque é o único que por vezes antecede e sobrevive ao amor.
O contrato fica firmado: esta é a minha assinatura.
Fazer parte de uma família, partilhando o seu espaço íntimo só extensível aos verdadeiros amigos é a maior honra que há.
Seja no espaço cibernáutico; seja na adega da casa, onde na minha terra talvez por pudicícia se disfarça a verdadeira amizade com o álibi da bebida; seja ao redor do fogo; o convite tem o mesmo valor e espero que o merecimento do convidado lhe esteja à altura.
Por mim, para já, puxo o tijolo, ergo o copo ou penduro ao pescoço a condecoração de membro honoris causa desta tertúlia e comprometo-me a partilhar do calor que as palavras trazem consigo quando são francas, como sei que são, não por ter, mais que uma vez, espreitado o blog, a apetecer-me meter conversa, mas porque já conheço o calor que elas dão.
Quando as palavras são o único consolo e alguém no-las diz, está autenticado o mais imponderável contrato de todos: a amizade, mas também o mais duradouro, porque é o único que por vezes antecede e sobrevive ao amor.
O contrato fica firmado: esta é a minha assinatura.
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