Quando vemos no cinema o soldado americano passando incólume por uma chuva de balas e finalmente sob a mira de não sei quantas armas letais, algumas delas ainda não inventadas, temos um momento de dúvida: será que se safa desta? Mas logo nos sentimos aliviados, claro que se safa, quanto mais não seja, diz-nos a estatística que ele se safa sempre.
O mais interessante é que na vida real, pelo menos até determinada idade, isso também é assim. A estatística mostra claramente que são sempre os outros a morrer, e principalmente os que já são velhos.
Aos vinte e poucos anos uma pessoa não está preparada para encarar a vida como uma coisa descartável nem para encarar a morte como um acto tão gratuito como avançar a pedra das damas, para obrigar o adversário a comê-la, e assim ganharmos o jogo.
Nunca ninguém chorou uma pedra das damas que de repente o adversário levou e é assim também na guerra, espera-se que não choremos o camarada do lado que de repente deixou de existir. Estava a falar connosco, ou simplesmente a iniciar um sorriso, e de repente, como que por um erro do guião, a sua história acabou ali. A primeira sensação é realmente parecida com a do espectador do filme americano, no meio da plateia, a quem tivessem parado a projecção do filme porque o herói morreu. Ele olhando incrédulo para todos os lados à espera de uma explicação e nada: o herói morreu e pronto.
Mas a verdade é que nós aprendemos tudo. É essa a nossa bem-aventurança e a nossa maldição. Acabamos, com o tempo, a conviver pacificamente com as piores coisas, porque as aprendemos. Com a habituação, com a banalização, até acabamos por conviver pacificamente com a matança, com o crime, a que na guerra se dá o eufemístico nome de "baixa".
Mas este é o meu único orgulho que de lá trouxe: não aprendi nunca. Morri um pouco, com cada um dos soldados que o adversário retirou do tabuleiro de damas daquela guerra, tanto das brancas como das pretas: também não aprendi a diferença. Lembro-me de dizer entre dentes: Não vou aprender isto, não vou aprender isto!
O soldado Lourenço foi o primeiro morto com quem morri um pouco, depois seguiram-se outros, mas nunca me habituei, nunca aprendi, para mim foram sempre o primeiro morto.
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domingo, julho 24, 2005
A apologia da ignorância
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