Eu tinha casado há já alguns anos. Mas, trabalhar, estudar e ser dona de casa tornava impossível o que eu também pretendia: - tentar ser uma boa mãe. Assim, havia que – pelo menos – acabar a faculdade para depois pensar na família.
A verdade é que o curso acabou e as tentativas de engravidar eram todas infrutíferas.
“Meu Deus, será que eu não vou conseguir ser mãe? Porque será que as outras podem e eu não?”
Foi então que alguém me falou num grande médico especialista. Assim, apesar do preço de cada consulta ser uma enormidade, eu e o meu marido (o Zé) lá nos sujeitámos a tudo e a mais alguma coisa.
A certa altura, eu já andava completamente descontrolada. Quando via uma mulher grávida, só me apetecia apertar-lhe o pescoço…
Até que um dia... aconteceu. Finalmente engravidei. O sonho da minha vida já vinha a caminho…
Mas, o danadinho estava com pressa. E, ao fim de um mês, obrigou-me a ficar de cama.
Nessa altura, eu vivia em casa da minha irmã Graça.
Estava proibida de me levantar da cama. Só podia ir à casa de banho mais próxima do meu quarto. Mas, a vontade de me levantar era tão grande que, às escondidas, eu ia à casa de banho mais afastada só para poder estar mais um pouquinho de pé.
Não havia maneira de o tempo passar. Eu já tinha saudades do vento e da chuva (de que normalmente não gosto). Pedia para me abrirem a janela do quarto, a fim de ouvir melhor a chuva e sentir o vento no meu rosto.
Com muitos medicamentos e muito repouso, o meu presentinho lá se manteve sossegado. Mas, não foi por muito tempo.
Ao sexto mês de vida, ele decidiu que já estava na hora de sair cá para fora. E eu dei entrada na maternidade em trabalho de parto.
Foi uma confusão tremenda. A minha médica (especialista em gravidez de alto risco) não queria fazer o parto. Os outros médicos entendiam que o parto era viável e que o bebé podia aguentar-se na incubadora.
- Não permito – gritava ela no corredor. - Fica medicada até o bebé decidir acalmar.
E assim se fez. O filhote lá acalmou e decidiu, ao fim de uma semana, não nascer por enquanto.
Eu voltei para a minha cama e continuei a aguardar pelo tempo que ainda restava.
Uma certa noite, senti-me toda molhada e não sabia o que se passava.
O Zé disse-me então:
- Deve ter rebentado o “saco das águas”.
Eu estava muito envergonhada por ter de ir para a maternidade naquele estado. Não tendo pensos higiénicos em casa, pedi ao Zé que os fosse comprar àquela hora a uma farmácia de serviço. O que eu fui fazer!... O que a farmacêutica lhe disse quando foi acordada para vender pensos higiénicos deve ter sido de tal ordem que ainda hoje ele sente um trauma ao recordar essa situação…
Mas, a verdade é que eu estava agora fresca que nem uma alface.
O filhote, que me tinha pregado uns valentes sustos durante 9 meses, sentia-se agora muito bem instalado e não queria nascer por nada deste mundo.
Já na maternidade, fartei-me de conversar toda a noite com a vizinha da cama ao lado e não havia maneira de me chegarem as dores.
Quando raiou o dia, os médicos disseram-me:
- Nós já vamos resolver isso.
E assim foi. Desde a 8 horas da manhã até às 8 da noite eu estive com soro.
Mas, não havia maneira. Nem o danadinho queria nascer nem o médico responsável queria fazer a cesariana.
A certa altura, deixaram de ouvir o coração do miúdo… Aí, sim. Foi um corre-corre para a sala de operações. Em menos de 5 minutos deixei de saber onde estava e só acordei “toda partida” a meio da noite, no meu quarto e ainda sem o meu filhote.
Só de manhã cedo é que me apresentaram finalmente o meu presentinho.
Ele era comprido mas muito magrinho, e cheio de rugas.
Ali estava a minha “vida”, o meu amor verdadeiro, o ser mais desejado do mundo, o mais sofrido, o mais sonhado, o mais tudo!...
Estava eu nesta contemplação embevecida daquele ser quando a vizinha da cama ao lado me perguntou se era um menino ou uma menina. Eu respondi-lhe que era um menino. Então, ela disse-me que o guardasse bem porque uma mulher cigana tinha acabado de dar à luz uma menina e o marido dela não a aceitava por só querer um rapaz…
Olhem só o que ela me foi dizer!!!...
A partir desse momento, nunca mais consegui dormir em paz. Entrei em grande «stress» e depressão. Passava os dias a chorar. E foi com um enorme alívio que tive alta hospitalar e que, finalmente, consegui trazer o meu tesouro para minha casa.
Pois é esse tesouro que hoje faz 18 anos e que se chama José Afonso.
Amorzinho:
A tua mãe deseja que o dia de hoje se repita por muitos e muitos anos, sempre com saúde, com amor e com alegria.
E, já agora, que te corra bem o exame de Física que vais fazer amanhã.
Um abração e um beijão da mamãzeca que te adora.
terça-feira, julho 05, 2005
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1 comentário:
Meu caro Zé:
Parabéns pelos teus 18 anos.Que sejam muitos,bons e cheios de saúde.
Atingiste a idade que pretendias para poderes começar a realizar alguns dos teus sonhos.Podes contar comigo no que for preciso para poderes iniciar essa realização.Entretanto,boa sorte nos teus exames.
Um grande beijo é o que te manda o
Jorge
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