terça-feira, junho 14, 2005

O Sortilégio da Borboleta

O convite para incluir alguns dos meus textos e fotos da guerra colonial neste blog é, por assim dizer, a segunda condecoração que recebo aqui.
A foto que encima estas palavras e que ilustra um dos textos do blog "Cacimbo" tem uma história por si só. Ela representa o conflito que lentamente tomou forma dentro de mim durante os dias da guerra.
Poucas imagens na minha vida me fizeram sonhar, como esta. A borboleta a pousar sobre a minha mão sem medo e eu a tirar lentamente a minha Alina de 35 mm do bolso do dólmen para a fotografar.
Quando eu achava que iria ser um pintor, fiz um quadro inspirado nesta foto a que dei o nome de "Borboletas da paz". Depois do 25 de Abril mudei-lhe o nome para "Prenúncio de Abril". Mas dê-lhe eu o título que der, o que tem de bela esta imagem é que ela passou a simbolizar os sentimentos antagónicos que justamente naquele dia eu tinha decidido resolver. Num acto simbólico tinha acabado de virar o carregador da G3 ao contrário onde colara um símbolo da paz, aquele que era usado contra a guerra do Vietname.

Quando um dia perguntaram a um certo alemão se ele tinha sido nazi quando jovem, ele respondeu: "Então, não éramos todos?"
Não seremos todos nós, aquilo que nos ensinaram? Eu aprendi que Portugal começava no Minho e acabava na Índia e quando me disseram para ir defendê-lo a Moçambique fiquei feliz por mo pedirem. Mas o que descobri em Moçambique foi racismo, escravatura e sofrimento inútil e justamente no dia em que decidira que haveria de desertar, este contraste entre a forma bruta e obscena de uma G3 e a silhueta delicada e pura de uma borboleta foi como que uma revelação.
Nós somos também aquilo que pomos nas coisas que vemos, é a nossa obrigação de seres pensantes. Seremos completamente dispensáveis se não acrescentarmos algo aos ensinamentos que recebemos.
Não cheguei a desertar porque fui ferido em combate pouco tempo depois; não cheguei a ser pintor porque foi preciso ganhar a vida atrás do balcão de um banco, mas no que depender de mim, nem que seja apenas com palavras simples como estas, não haverá falta de informação para quando convocarem o genuíno heroísmo dos vinte e poucos anos de um jovem, para combater por aquilo em que ele não acredita.

O texto original e as respectivas fotos podem ser vistos clicando aqui.

Posted by Hello

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