O meu tio André e a minha madrinha Natália nunca tiveram filhos porque não podiam tê-los, se tivermos em conta as inúmeras tentativas que eles fizeram (e que se prolongaram durante muito tempo) de me perfilharem.
O casal visitava com muita frequência os meus pais, que tinham já uns 5 ou 6 filhos.
Destas visitas resultavam sempre duas coisas. A primeira era a vinda de um brinquedo para mim, o que era coisa rara em minha casa devido à escassez de dinheiro com que se debatiam os meus pais. Porém, aqueles não tinham quaisquer dificuldades económicas. A segunda coisa era que – com o brinquedo – aqueles convenciam-me a ir com eles para a sua casa.
Num destes momentos, eles conseguiram levar-me para Leiria, onde o meu tio dava aulas no Liceu.
Por essa altura eu tinha cerca de 4 anos.
Não me recordo da chegada. Mas, ainda me recordo da minha estadia naquela casa e dos degredos que ali passei.
O primeiro degredo a que eu era sujeita era o de ter que comer exageradamente. O segundo era o de que a comida era sempre acompanhada pela ladainha de: - “tens que comer muito para engordar esses ossos e para que os teus pais saibam que nós te tratamos bem”. O terceiro era o de que em todos os dias ao lanche eu devia comer uma gema de ovo misturada com açúcar. O quarto degredo era não poder fechar os olhos (ou sequer pender a cabeça) enquanto se rezava o terço a altas horas da noite, sendo certo que o horário das crianças não se compadece com o horário dos adultos. E o quinto era o de ir para um quarto dormir sozinha (em minha casa eu dormia com a minha irmã). Quando eles me fechavam a porta do quarto, o medo apoderava-se de mim, o sono fugia, e eu chorava até conseguir adormecer, com muitas saudades dos meus pais e dos meus irmãos.
Eu vivia num dilema e num desequilíbrio emocional que era intraduzível. De facto, sempre que a minha tia me encontrava a chorar e eu dizia que queria ir para minha casa, ela respondia-me sempre da mesma maneira:
- Não foste obrigada a vir. Ninguém te trouxe à força. Afinal, não mereces o bem que nós estamos a fazer por ti.
Ainda hoje pergunto a mim mesma que bem era esse. Nunca consegui compreendê-lo…
O silêncio regressava à minha alma, sem palavras para responder. Mas, as lágrimas não obedeciam a qualquer lógica. E a minha tia continuava a ter que me procurar e correr todos os cantos da casa a chamar por mim. Um dia, ela teve de chamar o meu tio que estava no Liceu porque não conseguia encontrar-me em lado nenhum. De facto, ao subir as escadas do prédio (que eram estreitas e escuras como breu), o meu tio tropeçou em mim porque era ali que eu me tinha escondido a chorar.
Quando isto aconteceu, os meus tios convenceram-se finalmente que o melhor era mandarem-me de volta para casa dos meus pais.
E, como aqueles não tinham carro, ainda hoje me recordo do que eles disseram ao condutor da camioneta na qual me ajudaram a subir e a sentar:
- Então, fica esta menina entregue aos seus cuidados. E, em Coimbra, não se esqueça de a mudar para o transbordo que vai para S. João do Campo, onde os pais a vão esperar.
Era noite. Lembro-me que acordei quando o senhor me pegou ao colo e me foi sentar no banco de outra camioneta, dizendo-me:
- Não tenhas receio. É um outro senhor que vai a conduzir esta camioneta. Agora, já falta pouco para chegares a casa.
A camioneta parou mesmo em frente da porta da minha casa. O meu pai foi buscar-me dentro do veículo. Cá fora, estavam todos os meus irmãos à minha espera.
A alegria da chegada traduzia-se num sentimento de paz, de tranquilidade e de equilíbrio, ao qual eu associei sempre o conceito de família, de lar. Agora eu já não tinha medo de correr dentro de casa, de pular para cima da cama, de arrastar uma cadeira, de comer sem lavar as mãos, de pegar em qualquer fruta sem pedir licença para tal, e sem ter de comer gemadas e sopa de feijão verde… Eu já podia brincar com alguém e agarrar-me ao pescoço do meu pai…
Ainda não há muitos anos que o meu pai – a propósito destes episódios que eu recordava com ele – me confessou:
- Mesmo que tu te tivesses afeiçoado aos teus tios, eu nunca teria deixado que eles te perfilhassem.
Resta apenas dizer que os meus tios fizeram muitas outras tentativas semelhantes a esta. Mas, nunca conseguiram cativar-me. Pelo contrário, essas tentativas eram cada vez mais traumatizantes para mim.
Eles não sabiam lidar com crianças e, por isso, não mereciam tê-las
Eu só me sentia bem dentro da minha casa e com a minha família. Entre nós todos havia um sentimento de cumplicidade e de interajuda total.
Ainda hoje, é este o entendimento que eu tenho do que é uma família, sejam quais forem as vicissitudes que a vida traga a cada um dos seus membros. [16]
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário