Senhor Pai Natal,
O senhor deve estranhar que lhe esteja a escrever agora, quando toda a gente escreve sempre antes do Natal para lhe pedirem os presentes, mas eu vinha agradecer-lhe os que recebi.
Na verdade, eu não acredito que o senhor venha a ler esta carta;
Primeiro, porque não vai escrita em lapónio e se calhar o senhor não sabe português - mas isso não é de admirar porque aqui há muita gente que também não sabe e até estão a pensar em arranjar um presidente que ás vezes parece falar lapónio;
Segundo, não estou convencido que o senhor exista, o Menino Jesus, eu sei que existia porque a minha mãe dizia que sim, e a minha mãe nunca me mentiu;
Terceiro, não acredito que o senhor ainda esteja ao serviço, depois de tantos anos, dado que as medidas para aumentarem a idade da reforma ainda não foram postas em prática pelo governo.
Mas mesmo assim venho aqui agradecer-lhe.
Agradeço o presente que eu próprio comprei e escolhi, porque não havia meio de as pessoas descobrirem que era aquilo que eu queria.
Agradeço os presentes das minhas filhas, porque dá-me sempre a impressão que o presente é que as oferece a elas, para mim.
Agradeço o presente da minha mulher, porque é um presente cúmplice: só nós sabemos que os trocamos um com o outro.
Agradeço os presentes dos meus amigos porque não preciso de os abrir para saber o que lá está dentro: calor e afecto.
De facto, Pai Natal, este ano estou satisfeito com os presentes que recebi, porque já me habituei a lidar com a sovinice do senhor e se não fosse alguma habilidade minha e as pessoas que me querem bem, não tinha recebido nada de jeito.
Já agora aproveito esta carta para lhe pedir um presente antecipado, desculpe o oportunismo: dê-me um país novo, ou se não puder ser, dê-me ao menos um presidente que saiba falar bem português.
Sem outro assunto de momento.
Atenciosamente,
Manuel
domingo, dezembro 25, 2005
Carta ao Pai Natal de um puto de 55 anos
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