sábado, fevereiro 26, 2005

A prova de honestidade

O tesoureiro da Hidráulica do Mondego, que era vulgarmente chamado de pagador, a braços com o excesso de trabalho na tesouraria, dirigiu-se um dia ao gabinete do Sr. Director, dizendo-lhe que tinha necessidade urgente de um auxiliar de confiança.
E rematou a sua pretensão da seguinte forma:
- Mas tem de ser uma pessoa de absoluta confiança, porque neste serviço manuseiam-se milhares e milhares de contos e eu tenho tido muitos problemas com o pessoal que me mandam para lá.
Quando se dirigia já para a porta, o Director perguntou-lhe de uma forma simples e directa:
- Tem preferência por algum dos contínuos? É que eu só posso dispensar funcionários dessa categoria.
O pagador parou, deu um passo em direcção ao Director, e indicou-lhe então o nome de um dos contínuos.
O Director respondeu-lhe que estava de acordo com a escolha. Mas, advertiu o pagador que este teria de assumir pessoalmente toda a responsabilidade por eventuais desencontros de contas (ou seja, desvios de dinheiro), como os que vinham acontecendo habitualmente.
Ao ouvir isto, o pagador retorquiu:
- Não, senhor Director. Isso nunca! Está fora de questão. Eu não me responsabilizo por nenhum homem que vá para lá. Estou farto de me enviarem para a tesouraria ajudantes desonestos que só me criam problemas.
Perante uma tal resposta, o Director olhou calmamente o pagador e observou-lhe:
- Então, vou propor que o seu ajudante seja o Lapa.
Com um ar admirado, o pagador perguntou:
- Porquê esse homem, se ele não tem experiência nenhuma de contabilidade?
O Director respondeu:
- Porque eu só confio no Lapa. E, por ele, sou eu próprio que me responsabilizo.
- Então, está decidido. Vai o Lapa para junto de mim
– disse o pagador.
Deve dizer-se, em abono da verdade, que o pagador não tinha deste homem (o Manuel Lapa) a mesma impressão que o Director. Para além de ele ser muito pobre, tinha ainda uma ranchada de filhos…
O tempo foi decorrendo e chegou o momento das férias do pagador.
Este deixou no cofre o dinheiro dos salários de todos os trabalhadores. Mas, para além do que era devido, deixou ali um excedente bastante grande.
Ao despedir-se do seu ajudante, o pagador disse a este:
- Ó Lapa, o dinheiro do cofre está certo. Não quero que haja quaisquer falhas na minha ausência.
Quando regressou das férias, o pagador encontrou o seu ajudante a trabalhar tranquilamente.
- Então, novidades? Correu tudo bem na minha ausência? – perguntou. As contas bateram todas certas?
Ao ouvir esta última pergunta, algo inquietou o espírito do pobre ajudante, que lhe respondeu de imediato:
- Não, senhor pagador. As contas não bateram certas. Eu acho que não me enganei no pagamento dos salários aos trabalhadores porque todos vieram aqui buscar os seus envelopes, confirmaram as quantias, e nenhum deles se queixou. O certo é que ainda sobrou muito dinheiro, o qual está ali guardado no cofre. O senhor pagador saberá que rumo lhe há-de dar.
O pagador dirigiu-se ao cofre, contou o dinheiro, e disse ao Lapa:
- O teu Director confiava plenamente em ti. Agora, também eu confio.
Naquele momento, o meu pai compreendeu que tinha sido posta à prova a sua honestidade. E contava muitas vezes este episódio aos seus filhos.
A este propósito, e a título pessoal, devo acrescentar que foi este senhor pagador que me deu a mais bonita boneca que eu alguma vez tive, com a qual os meus filhos também brincaram, e que ainda hoje guardo com gosto.
A essa boneca eu dei o nome de Leonilde, por assim se chamar a minha professora da terceira classe, que eu adorei e de quem tenho uma grata recordação.
Mas, nunca poderei esquecer também a profunda tristeza que a minha irmã Rosa sentiu naquela altura por não ter sido contemplada com um presente igual. Esse sentimento impediu que a minha alegria tivesse sido total, já que eu fiquei dividida entre o amor que nutria pela minha irmã e a paixão que tinha pela boneca. [7]

1 comentário:

Anónimo disse...

Olá, Graça!
Estas estórias dão-nos vida e ajudam-nos a manter a saúde.
Beijos do
Jorge