Então, aqui vai o primeiro registo.
Trata-se de um facto que o Sr. Lapa contava muitas vezes à sua filha Graça, especialmente quando queria expressar o grande afecto que tinha por ela.
Numa altura em que a família vivia na Conchada (ainda hoje uma zona pobre da cidade de Coimbra) e o Sr. Lapa trabalhava numa loja de bicicletas situada na Baixa da mesma cidade, aquele auferia o ordenado mensal de 300$00 e pagava de renda 200$00 por mês.
O agregado familiar era constituído pelo casal e por três filhos, o mais novo dos quais tinha uma doença muitíssimo grave que exigia um tratamento diário no hospital da Universidade.
A D. Lurdes encontrava-se na altura grávida da Graça.
Então, pretendendo aumentar um pouco os seus modestos rendimentos, o Sr. Lapa dirigiu-se ao seu patrão, explicou-lhe a situação aflitiva em que se encontrava e pediu-lhe um aumento do ordenado.
O patrão respondeu-lhe que compreendia bem a situação dele, que o Sr. Lapa era um empregado exemplar e indispensável para o seu negócio, mas que não podia aumentar-lhe o ordenado. No entanto, disse-lhe que o ia ajudar.
Ao dizer isto, o patrão abriu a gaveta da sua secretária, tirou uma nota de 1.000$00 e disse-lhe:
- Toma lá este dinheiro e, com ele, diz à tua mulher que vá fazer um “desmancho” (aborto).
O Sr. Lapa respondeu:
- Muito obrigado, mas uma ajuda dessas eu não a quero - e regressou ao seu trabalho de balcão.
Ao chegar a casa, o Sr. Lapa contou o sucedido à sua esposa, tendo da conversa entre ambos resultado a decisão comum de ele se despedir imediatamente daquele emprego, o que veio a suceder no dia seguinte.
E o quarto filho veio ao mundo e foi uma grande alegria para o casal, já que era a primeira menina.
Daí em diante, sempre que a Graça realizava algo de importante na sua vida ou que alguém fazia algum elogio àquela, o Sr. Lapa voltava a contar o episódio à filha e terminava sempre o mesmo com estas palavras:
- Não te esqueças que tu és minha filha duas vezes. [1]
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