O Ano Novo é marcado pelas tradições milenares dos Reis e das Janeiras, responsáveis pelo clima de festa e alegria com que todos os povos ocidentais se despedem de um ano que parte e saúdam um ano que chega, enquanto cumulativamente celebram o nascimento de Jesus Cristo e o renascimento solar. É hora de actores, músicos e cantores saírem para as ruas e caminhos de cidades, vilas e povoados e contagiarem os vizinhos com a magia da música e o calor das palavras plenas de júbilo e esperança.
Tais tradições são festividades cíclicas associadas ao ciclo do Natal, cujas origens remontam às antigas celebrações universais do solstício de Inverno. No princípio, a astrologia dominou a mitologia de quase todos os povos, tanto mais que o sol, enquanto elemento central de todas as cosmogonias antigas, foi objecto de cerimónias, ritos e cultos. Em algumas civilizações, como se sabe, o sol foi até divinizado. Foi esta cultura e este espírito solar que a Igreja Católica aproveitou para, no séc. IV, colocar o nascimento do Salvador no momento em que os pagãos celebravam a festa do nascimento do sol invencível.
Daí a razão porque o Natal é uma festa que junta ingredientes religiosos e profanos. A adoração do Menino Jesus, com missas e presépios é acompanhada de lautas consoadas, trocas de prendas, bailes e fogueiras. O epílogo deste ciclo festivo acontece com a festa dos Reis que, segundo a tradição seriam Gaspar, Baltasar e Belchior, e que vieram adorar o Deus menino com prendas de ouro, incenso e mirra. A origem, número e condição destas figuras é nebulosa, como nebulosa é a descrição nos textos bíblicos da estrela de Belém. A astronomia não sabe ainda hoje explicar a natureza da estrela que guiou os reis magos até à gruta de Belém.
Fosse o que fosse, aparição de cometa, conjugação planetária, resulta hoje que a estrela de Belém é símbolo do nascimento de Jesus Cristo, luz que irrompeu das trevas para salvação da humanidade. A cristandade glosou esta simbologia histórica (o encontro de um rei espiritual com reis temporais) através de múltiplas representações, como é o caso das contradanças, dos Bailes dos Reis, das Reisadas e dos Encontros de Reis.
Do mesmo modo as Janeiras são cantigas de boas-festas e loas ao Menino Jesus e também saudações ao Ano Novo, com vigência entre o Natal e os Reis. Não é fácil determinar a origem deste costume que faz com que grupos de músicos e cantores percorram os lugares com luzernas para assinalarem a sua presença e a sua intenção pacífica. Ainda não há muitos anos os patrões convidavam a tocata para um repasto à base de frutos secos (nozes, pinhões e figos) e vinho, frequentemente de grande teor alcoólico (vinho branco, vinho fino ou jeropiga), para acudir aos rigores do frio. Infelizmente este costume está a ser descaracterizado, uma vez que os cantadores de “janeiras” estão a trocar a ceia das Janeiras por um contributo pecuniário, desaparecendo da tradição a sua imensa carga simbólica, isto é, o significado da comida natalícia, o canto do renascimento espiritual e temporal e a razão cosmogónica da festa solsticial.
Câmara Municipal de Braga/Cultura (internet).
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