Minha querida prima Regina
Vivo dizendo que nunca tenho tempo. A verdade é que ocupo todo o tempo que tenho em mil pormenores importantes, limpar, cozinhar, engomar, lavar etc. (mas ao menos se as coisas ficassem limpas por algum tempo, mas esse não é o meu privilégio). Nesta altura, a todas estas tarefas se junta a preparação de um novo ano escolar e tudo se torna mais complicado ainda. Hoje é uma excepção. Vim dizer-lhe olá e desta vez vou escrever alguma coisa, não fazendo como costumo, ou seja, adiar para amanhã à espera de um momento livre que, afinal, nunca chega...
Lembro-me, como se fosse hoje, do momento em que, já noite, o Quim me deu a triste notícia sobre a tia Nete. Fiquei paralisada, não estava minimamente preparada para tal notícia. As lágrimas aliviaram-me a alma e só o longo silêncio foi eloquente para dizer tudo o que gostava de lhe falar nessa hora.
Hoje estou mais animada pois sei que voltou a escrever no blogue. Deste modo sentimo-nos mais próximos uns dos outros e ajudamo-nos a fazer o luto das nossas mães. As mães morrem sempre demasiado cedo para os seus filhos mesmo que sejam velhinhas.
A minha mãe entrou no hospital no dia em que o Simão nasceu e deixou-nos sem o ter conhecido. Esta é uma das grandes tristezas que carrego comigo. Ás vezes dou por mim a pensar que morrerei sem conhecer o filho do meu primeiro neto e só eu sei o quanto o amo, tal como a minha mãe amou o meu filho que foi o seu primeiro neto. Hoje sei avaliar esse infinito amor e ternura que ela lhe tinha e julgo até que todos os pais deveriam ser avós para os seus filhos (os pais não têm tempo para saborear, ver e sentir os seus filhos como os avós). Se assim fosse os filhos amariam ainda mais os seus pais.
As minhas palavras não são animadoras porque o meu coração não está alegre. O Quim está de novo a fazer tratamentos e nem ele nem nós (eu e os nossos filhos) temos capacidade para sentirmos alegria. Vai-nos valendo a presença, o palrar e o sorrir do Simão que é o Sol dos nossos dias. Hoje, não tenho dúvida em afirmar que o melhor lugar para a minha mãe e para a tia Nete era junto dos seus netos. Esse é um lugar único e celestial. Um dia compreenderão porquê.
Daqui vos envio a todos mil beijos revestidos do mais saudável e doce chocolate.
A prima sempre amiga
Graça Lapa