Mesmo antes de nascerem, os nossos filhos são o tema de todas as conversas, o centro das nossas preocupações e dos nossos afectos. Eles enchem o nosso pensamento e a nossa vida.
Não sei se há alegria maior que aquela que enche a nossa alma quando sabemos que dentro de nós começam a formar-se uns «pezinhos novos». A primeira sensação é de indiscutível felicidade. O coração está cheio de um sentimento que só conhece quem vive esta experiência, muito embora não a saiba comunicar. É de tal modo uma experiência plena que obscurece todas outras capacidades, tais como a razão, o entendimento, a consciência, a serenidade. Para esta experiência não se encontram causas ou razões. Apenas vivências.
Quando tudo acalma e começamos a pôr as ideias no seu lugar, somos invadidas por uma contínua preocupação: - «que seja um bebé perfeito e saudável». Esta preocupação só termina quando já tivermos o bebé nos braços e o nosso olhar lhe percorrer cada recanto do seu corpinho.
Mas, até lá, vamos tendo sensações maravilhosas, mesmo que acordemos e corramos logo para a casa de banho com os enjoos matinais. Tudo se torna suportável e encantador, pois «aqueles pezinhos novos e mãos macias» vão-nos acariciando por dentro, fazendo aumentar - a cada dia que passa - a alegria, a esperança e a vida que nos invade. A dor, por maior que seja, relativiza-se. E, por vezes, confunde-se com a própria felicidade. Tudo isto porque somos «outro», pois dentro de nós desenvolve-se «um beijo de carne» que nos pesa e tarda em mostrar-se aos nossos olhos.
Pode haver filhos tão bons como os meus; mas, haverá poucos melhores. Eles são a minha vida, a minha razão de ser, muito embora por eles já tenha chorado algumas vezes.
Quando o Miguel nasceu, o Quim disse-me: - “As nossas preocupações só acabarão quando morrermos”. Concordei plenamente com ele, pois compreendi que amar é sofrer, é cuidar para sempre.
Neste momento da minha vida, tendo a Joana 21 anos e o Miguel 25, sinto cada vez mais que os «meus filhos» são cada vez mais filhos, mas cada vez menos meus. Tomar consciência disto é o egoísmo que causa o meu sofrimento actual.
Regina e Rosângela:
Aproveitem cada minuto da alegria que é sentir um filho dentro de nós.
Aproveitem a felicidade de cada sorriso daqueles que são apenas nossos.
Aproveitem a alegria daquele olhar e daqueles braços estendidos que nos pedem colo.
Vivam o encanto daquelas lágrimas que só nos querem a nós.
Gravem no vosso coração tudo quanto puderem daquilo que seja dado pelos vossos filhos, pois o tempo não tardará em vos «retirar», ou melhor, em repartir isso com outros. E um dia nada será nosso, por muito que por aqui se diga: «uma mãe nunca perde um filho».
Não há nada melhor do que ter um filho. Esta é uma verdade. Mas não deixa de ser igualmente verdade que não há filho algum que – a certa altura da sua vida – não ache os seus pais aborrecidos e não se canse deles.
Desejo-vos, antes de mais, saúde para vós e para os vossos futuros bebés. E desejo-vos também muita sorte, com boas noites de descanso, já que esses «despertadores biológicos» vão testar a vossa capacidade de resistência ao cansaço.
Assina alguém que, nesta altura, sente uma enorme saudade do que viveu e uma inveja carinhosa do que vocês vão viver.
Graça
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