domingo, outubro 16, 2005

Uma história de um regresso esperado e outra de uma partida inadiável

Amigo Quim,
Todos aqui em casa aguardámos que este blog acendesse as luzes, como as casas abandonadas à chegada dos seus donos. Sabíamos que era apenas um intervalo e ficámos em suspenso; tivéssemos o dom de acreditar que um pedido sincero obteria resposta e tê-lo-íamos formulado, assim restou-nos partilhar um pouco da dor da espera e aguardar a alegria da chegada, que a amizade é só isto: partilhar esta vertigem que é viver a vida sem mais nada a que nos segurarmos do que uns aos outros.
Com votos de restabelecimento seguro venho contribuir com mais um texto meu, para que o bulício dentro da casa, que é este blog, faça saber que os seus donos voltaram e que os seus amigos estão felizes.

O Tocador de Canhembe

Às vezes, como com os amantes enganados, temos que ver com os nossos próprios olhos. Já sabemos como as coisas se passaram, mas temos uma curiosidade mórbida por saber as coisas relatadas pelos próprios ou por quem as testemunhou. Foi o que aconteceu comigo quando o mainato (o empregado que nos lavava as roupas) me disse que conhecia um maconde velho que podia responder às minhas perguntas.
Consegui convencê-lo a combinar um encontro com o velho. Este foi o acontecimento mais surrealista da minha vida. Um velho maconde que tocava um estranho instrumento de uma corda só, esticada sobre um pequeno tambor e que era friccionada com um pequeno arco; que tinha um camaleão numa gaiola e que me recebeu na sua mísera palhota como um rei recebe um general inimigo: com suprema dignidade e superior delicadeza. Mas não usou de diplomacia, que é o cinismo dos políticos, sofreu com cada palavra de genuíno ódio e quando eu saí, o som daquele instrumento estranho e o eco das suas palavras gritaram-me a evidência: eu tinha que desertar.
Outro conflito inusitado nasceu naquele momento. Ao saber que partiria dali para nunca mais voltar, senti uma saudade antecipada do local onde vivi mais intensamente; onde tudo era estranho, mas embriagadoramente belo e exótico – até o pôr-do-sol parecia ocorrer do lado contrário. (Devido à localização geográfica de Moçambique o Sol nasce no mar e põe-se na floresta.)

Texto original publicado no Jornal Elo – clicar aqui

1 comentário:

Joaquim Gomes disse...

Amigo Manuel:

Muito obrigado pelas suas palavras que são tão amáveis.
Em poucas palavras você conseguiu dizer tanta coisa!...
A imagem por si utilizada é de uma beleza admirável.
O seu texto é muito poético, apesar de a forma utilizada ser a da prosa.
Estamos também perante um belíssimo hino à amizade e ao lugar essencial que ela ocupa na vida das pessoas.
Muito obrigado pelos seus votos sobre o meu restabelecimento.
A amizade por si demonstrada (e pela sua família) é o melhor remédio para um doente obter o desejado restabelecimento.
Espero ser merecedor dessa amizade e retribuir sempre com o mesmo sentimento em relação a si e à sua família.
Mais uma vez, muito obrigado.

P.S. Quanto ao texto d' «O tocador de canhembe», já o tinha lido antes no seu blog «Cacimbo» e gostei muito dele. Mas, acho muito interessante que ele fique disponível para todos os Lapas e seus amigos através deste blog «Lapa-Mundi».
Bem haja por mais esta sua interessante contribuição para este blog (esta casa buliçosa onde os amigos se encontram).