terça-feira, março 21, 2006

Dia Mundial da Poesia 1

A Laís


À ciprina Laís, de quem sou tributário,
A Laís, que possui compridas tranças pretas,
P’lo meu escravo mandei, no seu aniversário,
Um cacho moscatel num cabaz de violetas.

Os amantes, que dão às suas namoradas
Fulgurantes anéis de riqueza estupenda,
Luminosos rocais e redes consteladas,
Hão-de sorrir, bem sei, da minha humilde of’renda.

Pensei em dar-lhe, é certo, um precioso colar
E um anel com mais luz do que o incêndio de Tróia,
Mas reconsiderei de pronto, ao atentar
Que ainda ninguém viu dar jóias a uma jóia…


Eugénio de Castro

1 comentário:

Geraldina disse...

Apreciei particularmente este poema que partilhou connosco.
Ao lê-lo invoquei um pequeno texto do Diário do ùltimo ano de Florbela Espanca que versa assim:

13 de Março (1930) - O Luis tem no íntimo, embora o não confesse, um grande orgulho por não ser capaz de amar doidamente uma mulher. Como é que, sendo ele tão inteligente, não compreende esta verdade tão simples: que aquele que não tem nada para dar é que é pobre? Assim, nas suas aventuras sentimentais, dá, em troca de pedras preciosas, dinheiro falso e... como cada um dá o que tem, elas dão sempre pedras preciosas e ele continua a dar dinheiro falso. E, quando chegar a morte, terá ignorado dois dos maiores prazers da vida: o prazer de possuir pedras preciosas e o prazer de as dar.

Um beijinho precioso