segunda-feira, abril 24, 2006

24 de Abril de 1974

Faz hoje 32 anos que me encontrava no Hospital Militar de Lisboa. Lembro-me perfeitamente de estar preocupado com o que poderia vir a acontecer-me. O cigarro que ainda considerava um amigo especial para estas ocasiões era o único confidente dos meus pensamentos. Andei todo o dia apreensivo, porque havia duas semanas, mais ou menos, que nada acontecia e eu esperava a qualquer momento que viesse a acontecer. Era quarta-feira, a semana estava quase a meio e não nos diziam nada. Só podia ser mau sinal.
A nossa situação como militares feridos em campanha era pouco mais que humilhante em relação à legislação então em vigor. Lembro-me que se citava como exemplo o único benefício que os cegos tinham em matéria de fiscalidade: não pagariam licença para o cão-guia.
Porque as instalações hospitalares, os anexos das mesmas, construídas com pré-fabricados e o tenebroso Depósito de Indisponíveis já estavam super lotados, a medida dos nossos governantes da altura não foi a de arranjar mais espaços à pressa, não senhor, como fora feito com as cavalariças da Rua Artilharia Um onde foram alojados os soldados feridos, a solução foi bem mais simples e eficaz: passar todos à disponibilidade e que cada um resolvesse o seu problema.
Foi precisa alguma coragem, tendo em conta o regime ditatorial em vigor, admito, mas nós sentíamos que não tínhamos muito a perder e fizemos uma manifestação. Como não se chegou a consenso quanto ao que deveríamos escrever no único cartaz que exibiríamos, decidimos que iria em branco, porque assim quem quer que nos visse fardados, de cadeira de rodas, de muletas, cegos, manetas e pernetas pela Avenida da Liberdade abaixo, quem quer que nos visse assim, imaginaria com facilidade uma frase a condizer e além do mais simbolizaria como de nenhuma outra forma, a lei da rolha, como o povo chamava à censura e à ditadura em geral.
Daí que no dia 24 de Abril de 1974 eu estivesse preocupado. O que nos iria acontecer depois daquela manifestação? O que aconteceu depois eu conto-o numa historinha o mais infantil que me foi possível escrever para uma turma do 6º ano de uma escola particular de Penafiel e que pode ser lido AQUI ou então no meu BLOG, se quiserem ver o diaporama que organizei para a ilustrar.

Aproveito para enviar os meus parabéns aos últimos aniversariantes: a Joaninha e o Sr Jorge.

2 comentários:

Joaquim Gomes disse...

Amigo Manuel:

Obrigado por mais este «post» tão interessante.
Eu fui ver os links que você indica.
Parece-me que a Escola a que se refere não é de Penafiel (a minha terra) mas sim de Viana do Castelo.
Ainda não consegui ver o diaporama nem os vídeos.
O seu blog (com as várias extensões) está cada vez mais bonito e interessante.
Em nome dos aniversariantes, agradeço também os parabéns que teve a amabilidade de enviar.
Um abraço para si e para a sua família.

mcbastos disse...

Sim, de facto é Viana e não Penafiel. O lapso advém de eu estar ligado a essas duas terras por motivos idênticos. "Vivi" nelas durante alguns meses quando estive na tropa e fiz lá muito bons amigos para além de ter ficado verdadeiramente apaixonado pela beleza de ambas, tanto no aspecto urbano como, e especialmente, no paisagístico.