Este ano, ao contrário de muitos outros, não escrevi ao Pai Natal; não porque tenha perdido de todo a esperança, mas porque duvido do fim que ele dá às cartas que recebe, dado que ouvi dizer que havia uma grande falta de papel na Lapónia e nesta época de doces e muita comida o próprio Pai Natal, devido à idade avançada, anda com problemas de intolerância intestinal.
Também, da última vez que lhe escrevi, com todo o respeito, ele não só não me deu resposta, como trocou tudo o que lhe pedi.
Pedi-lhe um presidente que falasse um português que eu entendesse e ele deu-me um presidente que fala uma língua com um sotaque estranho e como se não bastasse, pôs o próprio governo a falar para inglês ver. E quanto ao país que lhe pedi, nem é bom falar; basta ver quantos portugueses preferiam ser espanhóis, coisa a que, pelo que também se tem visto, nem os próprios espanhóis dão lá muito apreço.
Eu, continuei a oferecer a mim mesmo as prendas de Natal e a receber as pessoas como os verdadeiros presentes, independentemente do que me deram.
Eu próprio me dei a mim em cada presente, este ano, não porque eu seja uma boa prenda, mas porque acredito que a amizade é proporcional ao quanto nos damos, sempre que damos alguma coisa.
E propus-me a acreditar em alguma coisa, fosse lá no que fosse, assim como quem vai às compras à procura da coisa certa para a pessoa certa. Honestamente, esta alma, ou o que quer que esteja cá dentro que nos distinga das pedras, já que de alguns animais a diferença é pouca, decidiu procurar uma coisa que substituísse definitivamente o Pai Natal, para esta época festiva, porque definitivamente, o Pai Natal está senil e já não dá conta do recado.
Pensei no Menino Jesus que avalizava as prendas de Natal da minha mãe, na Befana italiana, na Babushka russa, no Jultomten escandinavo, mas todos me pareceram intermediários a procurarem a gratidão por dádivas alheias e mais uma vez este meu espírito onde dificilmente germina o transcendente, acabou por fazer o que faz a água, uma das coisas mais simples da Natureza, que nunca complica as coisas e vai procurando o caminho mais óbvio por entre as pedras até chegar ao regato, até chegar ao rio, até chegar ao mar.
E afinal não descobri nada de novo para acreditar, que substituísse o Pai Natal; simplesmente porque esse lugar já estava ocupado. Afinal a solução é o que sempre tenho feito.
Quando rasgo o papel de fantasia e desembrulho a oferta que recebo, não preciso de avalistas nem de intermediários: o que encontro lá dentro é a própria pessoa que mo deu. Inteira. A sorrir para mim.
Este ano recebi várias pessoas de presente de Natal, espero que vocês tenham recebido muitas também.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
A Reforma do Pai Natal
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1 comentário:
Amigo Manuel:
Só hoje vimos o belo texto que você escreveu aqui no dia 28/12/06.
Tal como o seu texto do ano passado, também este é muito interessante.
Eu acho que os que não o conhecem pessoalmente devem ficar - ao lerem o que você escreve - com um grande desejo de o conhecer...
Mas, eu e a minha família já temos o prazer de o conhecer e de contá-lo entre os nossos amigos.
Amanhã estaremos juntos, se tudo correr bem.
Nessa altura, teremos ocasião de o felicitar pessoalmente por mais este belo texto que partilhou connosco.
Um grande abraço para si e para os seus de
Quim e família
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