(...) Quando cheguei junto dele, dirigi-me ao meu querido sogro com todo o
respeito como fiz sempre e como acho que ainda devo fazer mais agora, tendo em
conta a actual condição dele.
- Olá, Sr. Lapa, como tem passado estes últimos seis anos?
- Olá, meu querido amigo e senhor Joaquim. Não tenho passado lá muito
bem… Sabe como é estar para aqui seis anos deitado sempre na mesma posição? É
uma grande maçada. O que me vale é que vou dizendo umas “larachas” aqui com os
meus colegas mais próximos…
- Olhe, Sr. Lapa, por isso mesmo é que eu resolvi vir até aqui e
convidá-lo a dar um passeio de carro comigo. O carro é o meu “velhinho” Opel
Corsa que vai completar 19 anos já no mês que vem. Mas, ele é muito
confortável, como você sabe muito bem. Sabe até onde vamos?
- Não faço ideia.
- Pois olhe. Eu achei interessante que fôssemos até à zona de Alcouce
(freguesia de Vila Seca, concelho de Condeixa-a-Nova) que é a terra da sua
naturalidade (claro), e vermos umas coisas bonitas que por lá há agora… Que me
diz a esta proposta?
- Eu acho bem. Para mim, tudo o que seja sair desta rotina já é muito
bom.
- Então vamos lá, Sr. Lapa. O carro está ali fora, mesmo junto ao
portão de entrada deste recinto.
Uma vez acomodados no velho Corsa, dirigimo-nos sem quaisquer pressas
para a zona da Quinta da Portela. As vias circulares da cidade de Coimbra são
agora largas e estão ainda em bom estado de conservação. Por isso, chegámos lá
rapidamente.
Uma vez atravessado o grande rio Mondego, passámos pela localidade de
Ceira, virámos à direita e atravessámos desta vez o belo rio Ceira, chegando ao
sítio da Conraria.
Começando a subir a serra, chegámos perto do Hospital de Sobral Cid.
Ao encontrarmos um entroncamento, eu virei logo à nossa esquerda mas depressa
me apercebi que me tinha enganado no caminho.
Mas, o Sr. Lapa fez uso do seu profundo conhecimento de todas aquelas
paragens (que foram percorridas a pé - de dia e de noite -quando ele era mais
novo e vinha todos os dias trabalhar para a cidade de Coimbra). E logo me
tranquilizou, dizendo:
- Não se preocupe, Sr. Joaquim. O meu amigo pode continuar por esta
estrada secundária porque ela dá a volta e vai encontrar de novo a estrada
principal lá mais em cima, junto à Central Elétrica.
E assim aconteceu, “como de facto” (como diria na sua linguagem
gongórica o seu ilustre irmão Padre Lapa).
Retomada a estrada principal, lá continuámos a subir lentamente a
serra até à zona mais alta do concelho de Coimbra e à fronteira com o concelho
de Condeixa-a-Nova.
E estamos quase a chegar à zona das novidades.
O meu amigo Sr. Lapa estava visivelmente satisfeito com o passeio e
muito desejoso de voltar a ver as terras onde viveu em solteiro e as estradas e
caminhos que conhecia como a palma das suas mãos (ou melhor, as plantas dos
seus pés).
Mas, nesta altura, o Sr. Lapa começa a estranhar por já não estar a
conhecer bem a paisagem que se estendia diante dos seus olhos inteligentes e
experimentados.
- Mas… eu já não estou a conhecer bem isto!... O que se passa, Sr.
Joaquim?
- Calma, Sr. Lapa. Vamos por partes – respondi eu.
Então, comecei a explicar sem pressas ao meu amigo Sr. Lapa que –
apesar da grande crise económica que o país atravessa neste momento (e que
tanto desemprego e tantos sacrifícios está a causar aos portugueses) – alguém
decidiu construir com recurso às famosas PPP (parcerias público-privadas) a
autoestrada A13 entre a cidade de Tomar e a vila de Condeixa-a-Nova, com
ligação aqui à autoestrada A1.
Quando chegámos ao Nó de Almalaguês (ainda com algumas pequenas obras
a decorrer), os olhos do nosso amigo arregalavam-se, cheios de satisfação.
- Mas... Eu estou a ver ali ao fundo a povoação de Almalaguês. Disso
não tenho dúvidas, embora note que há bastante progresso a registar ali… Mas…
Todo este Nó tão grande, com um viaduto e o arranjo de todas as vias principais
e secundárias!… E a autoestrada que passa em frente de Almalaguês e, vinda de
Condeixa-a-Nova, faz uma grande curva para a direita dirigindo-se à Vila de
Penela…
Depois de se admirar com tudo isto o tempo que lhe apeteceu, o Sr.
Lapa quis ir ver o terreno que calhou em partilhas à sua filha Graça.
Este é um terreno que o Sr. Lapa conhece muitíssimo bem porque fez
dele inúmeros esboços destinados a tratar da sua inscrição na matriz predial
onde o mesmo na altura se achava ainda omisso.
A este propósito, basta referir que – graças aos esforços e ao
interesse do Sr. Lapa e à minha modesta ajuda – o terreno em questão está hoje
devidamente inscrito na matriz predial da freguesia de Almalaguês, na 1ª
repartição de finanças de Coimbra.
Assim, lá entrámos de novo para o velho Corsa e subimos o resto da
serra até ao limite do concelho de Coimbra (de notar que uma das confrontações
do terreno acima indicado é precisamente o limite da freguesia de Almalaguês e
do concelho de Coimbra).
O Sr. Lapa observou com vagar o terreno da filha e o do vizinho, e
aproveitou-se aquela ocasião para tirar algumas fotografias do dito terreno e de
toda a paisagem circundante.
Depois de uma breve visita à povoação de Alcouce para “matar”
saudades, voltámos a subir até à estrada principal.
Neste ponto mais alto da serra, reparámos demoradamente nas obras que lá
ao longe continuam a decorrer a bom ritmo e que em breve farão uma pequena extensão
da A13 que será uma ligação direta entre Almalaguês e Ceira (Coimbra).
A este propósito, o Sr. Lapa manifestou a sua enorme admiração e
orgulho pelo facto de – embora esta extensão da autoestrada seja pequena em
número de quilómetros – a mesma tem viadutos cuja altura dos pilares nos deixa
boquiabertos e absolutamente espantados com estas proezas da engenharia
portuguesa!…
Aqui chegados, descemos de novo até ao Nó de Almalaguês da autoestrada
A13.
E estava na altura de sermos nós a “inaugurarmos” esta nova
autoestrada.
E lá entrámos em direção a Condeixa-a-Nova e à autoestrada A1.
Foi deste modo que aprendemos que há muitas maneiras de pagarmos as
portagens das novas autoestradas. Mas, que há maneiras que dão muito mais
trabalho e que ficam mais caras do que outras…
E pronto. Chegámos a Coimbra num instantinho.
Lá fui levar o Sr. Lapa ao seu lugar de repouso.
Antes de entrarmos no recinto mais densamente povoado de Coimbra, o
meu amigo Sr. Lapa ainda teve a conversa que já trazia na garganta há muito:
- Meu amigo senhor Joaquim, como está o nosso “migalhinhas” (Miguel) e
a nossa querida Joaninha?
Eu apressei-me a satisfazer-lhe a curiosidade ansiosa:
- Sr. Lapa, o Miguel casou há cerca de 5 anos com uma mulher muito linda e
muito meiguinha. E neste momento eles já têm um menino lindíssimo que se chama
Simão e que tem quase 3 anos e meio...
- Qual é o nome todo do menino? – perguntou ele.
- Simão de Albuquerque Gomes – respondi eu.
Pareceu-me ver um bocadinho de tristeza nos olhos do velhinho. Mas, se
calhar, foi impressão minha…
- E a Joaninha? – continuou o amigo Sr. Lapa.
- Ó Sr. Lapa, disse eu, a sua querida netinha apanhou em cheio com a
crise da economia… Tirou o curso de Português-Inglês e está a ver que nunca vai
conseguir dar aulas em qualquer escola do Estado Português. E o namorado dela,
apesar de ter muitas habilitações académicas (mestrados, doutoramentos,
trabalhos publicados, etc.) parece ir pelo mesmo caminho…
- Ao que isto chegou!... –
exclamou ele. Na minha juventude nós vivíamos bastante mal; mas parece que a
juventude de hoje nem tem presente nem tem futuro… Lamento muito, muito o que está
a passar-se com todos vocês.
- Muito obrigado, amigo Sr. Lapa.
Enquanto caminhávamos vagarosa e silenciosamente pelo recinto, notei
que o Sr. Lapa tinha os seus olhos rasos de lágrimas… E disse-me baixinho o
seguinte:
- Eu vou rezar muito por eles.
E pronto.
Por breves instantes, eu distraí-me a ver um passarinho pousado em
cima de uma campa…
E, quando me voltei, já não vi de novo o meu amigo Sr. Lapa…
Então, dirigi-me à campa da minha mãe (situada a poucos metros da do
Sr. Lapa), beijei-a repetida e sentidamente… e saí apressadamente do recinto.
Joaquim Moreira Gomes (1952-
)
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