Fui lá algumas vezes só para ouvir as árvores e ver a ternura do musgo sobre as pedras. Por vezes pareceu-me que uma voz me sussurrou qualquer coisa e dei por mim a juntar palavras como quem faz um poema.
Lembro-me de ter ensinado os perfumes do canteiro de ervas aromáticas á minha promessa de amor que me acompanhava de braço no ar para chegar aos meus dedos. O cheiro metálico, assim como um dia de chuva, mas mais alegre é o limonete; o cheiro fumado a lembrar as tardes de Outono, mas mais doce, é o alecrim; o cheiro floral mas muito suave, como o sol da manhã, é a lavanda… e ela a rir-se como fazem todas as promessas de amor quando ouvem os pais dizerem disparates!
Por isso é que estou de luto.
Imagino as árvores caladas como cadáveres calcinados, os dedos descarnados ainda erguidos como fazem todas as vítimas inocentes.
Não consigo sentir raiva nem ódio, sinto apenas uma imensa vergonha por pertencer a uma geração que recebeu dos pais um bosque ideal para fazer promessas de amor que se pretendem cumprir, que nos momentos de desalento ensinava poesia, onde o musgo acariciava as pedras e as plantas compunham sinfonias de perfume para os pais que não sabem música – e depois… o entregam transformado num monte de gravetos calcinados aos filhos.
Tenho vergonha de pertencer a um povo que aceita a incúria e o crime como uma inevitabilidade e assista a este espectáculo apocalíptico e degradante com a mente torpe de um consumidor de filmes pornográficos.

Fogo de há dez anos.De dez em dez anos... É so o tempo dos eucalíptos crescerem!





















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