Acordei feliz por ser o dia dos meus anos.
Até a escola me parecia ser um lugar mais agradável naquele dia.
Passei pelo quarto dos meus pais. A minha mãe dormia ainda, mas o meu pai já tinha saído para a serra em serviço de fiscalização.
Ia passando pelos meus irmãos e a todos anunciava:
- Hoje faço anos!
Alguns davam-me os parabéns. Outros apressavam-se a comer o pão para irem apanhar o comboio que os levava para o Liceu em Coimbra.
Aquele dia parecia ser igual ao anterior. E, como acontece em todos os dias de anos, é só no nosso espírito (na nossa esperança) que eles são diferentes.
A noite chegou e o meu pai tardava em regressar.
Estávamos a jantar quando sentimos bater a porta da varanda que dava acesso ao lanço (escritório do meu pai).
- O vosso pai chegou – disse a minha mãe.
Eu fiquei toda contente, à espera de um presente de anos.
Quando entrou, o meu pai dirigiu-se imediatamente a mim e, ao mesmo tempo que despia a gabardina, disse-me:
- Levanta a aba do teu vestido.
Depois, começou a tirar castanhas de todos os bolsos e a pôr-mas no regaço.
E acrescentou:
- Estas castanhas foram todas apanhadas por mim nos ouriços que encontrei no caminho. O meu guarda-rios, ao ver-me fazer isto, e porque já estava a fazer-se tarde, ainda me disse: - “Ó meu chefe, quando chegarmos a minha casa, eu dou-lhe um saco delas. Não precisa de estar a perder tempo a apanhá-las. É coisa que de que não tenho falta”. Mas, eu disse-lhe apenas que tinha de encher os bolsos com castanhas que fossem apanhadas por mim.
Depois, o meu pai prosseguiu:
- E assim apanhei mais algumas castanhas. É que eu não tinha outro presente para te dar pelos teus anos. Por isso, resolvi dar-te algo que obtivesse pelo meu esforço, pelo meu trabalho, enquanto pensava em ti.
Por fim, dirigiu-se à minha mãe e acrescentou:
- Tens um grande saco de castanhas no lanço. Podes ir lá buscá-lo.
Então, eu senti que as castanhas que o meu pai me deu eram muito especiais e que tinham muito valor. Elas mostravam bem que ele não se tinha esquecido de mim (que me teve presente no seu coração) e que queria dar-me alguma coisa que fosse mesmo dele.
Afinal, aquele dia de anos foi bem diferente!...
E eu aprendi que, mesmo os que são pobres, podem com pequenos gestos mostrar aos seus filhos o amor que têm por eles. [5]
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1 comentário:
São as recordações destes acontecimentos tão vivos que formaram a minha personalidade e que ainda hoje orientam as atitudes e os comportamentos que tenho.
Por isso, quando dou um presente a alguém, é acima de tudo um modo de eu lhe manifestar a sua presença em mim.
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