A Morte de D. Quixote
Roto o escudo, sem lança, a cota escalavrada,
Sozinho, abandonado, e à toa como um cego,
Do crepúsculo à luz dolente e imaculada
Entra na sua aldeia o altivo herói Manchego.
O ténue fumo sai do colmo das herdades,
Riem ao pé da fonte as frescas raparigas,
E à clara vibração sonora das trindades
Juntam-se brandamente as vozes e as cantigas.
E o audaz Campeador, o Justiceiro, o Forte,
Que andara pelo mundo a combater os maus,
Defendendo a Mulher, desafiando a Morte,
Do paterno casal sentou-se nos degraus.
Nos joelhos fincando o cotovelo agudo
E no punho cerrado a fonte reclinando,
Quedou-se largo espaço, ilacrimável, mudo,
Para o inútil passado os olhos alongando...
E, ali, na doce paz da sua alegre aldeia,
Sentiu que o avassalava uma tristeza infinda,
Quando esta voz se ouviu: «morreu-te a Dulcineia,
«Missionário do Bem, tua missão é finda!»
E ele a ouvir e a cismar! A trêfega sobrinha
Beija-o, fala-lhe, ri, abraça-o, mas o herói
D'est'arte lhe volveu: «A morte se avizinha,
«Levai-me para o leito!» E ouvi-lo pena e dói.
Do leito à cabeceira o Bacharel e o Cura
Tentam ressuscitar-lhe os sonhos e as quimeras;
Pintam-lhe o negro Mal triunfante, oh! amargura!
O fraco aos pés do forte, o bom lançado às feras...
Contam-lhe o frio horror dos cárceres sem luz,
Que nas torres feudais pompeava o velho Crime,
Que os crescentes do islão tinham vencido a cruz,
Que a injustiça era a Lei... Então, feroz, sublime,
Inquieto, semi-nu, sinistro, o cavaleiro
Bradou como um trovão: «Enverguem-me a loriga!
«Selem-me o Rocinante, ó Sancho, ó escudeiro,
«Traze-me a lança, presto! e a minha espada amiga!»
Tinha em brasas o olhar, e truculento o aspeito,
E vibrava em redor a imaginária lança...
Logo depois caíu do respaldar do leito,
Morto: tendo no lábio um riso de criança!
Gonçalves Crespo, Nocturnos
P. S. - Em homenagem à nossa amiga São (Conceição) que me emprestou este livro tão maravilhoso! Muito obrigado!