terça-feira, novembro 15, 2005

Aniversário

Querido tio Polívio:

O tempo passou tão depressa!...
Ainda "há pouco tempo" eu ia até ao largo da Igreja de Vilamar, de braço dado com o meu tio Polívio, então um jovem de 34 anos e eu uma mulher de 14 anos, para vermos o arraial da festa e dançar ao som da música que tocava num palco improvisado, mas cheio de enfeites, balões, fitas coloridas, bandeiras de papel multicor, que atravessavam as ruas de um lado até ao outro.
Afinal, o tempo é breve!... Demasiado breve e fugaz...
Hoje faz 74 anos o meu tio mais querido (titio, como ele gostava de dizer).
Foi num desses fins de tarde que um rapazito (o Rosário), filho do João Manquinho, alfaiate da terra, se aproximou e, dirigindo-se a nós, disse:
- Ó senhor Polívio, deixe-me dançar com a sua filha!
O meu tio - perdido de riso - respondeu-lhe:
- Pergunte se ela quer ou não. Eu não sou pai dela...
A risada foi geral, tanto mais que connosco estava o meu tio Pereira.
- Que situação gozada... - diziam um para o outro.
Assim nos divertíamos.
E o meu estatuto de "namorada" passou ao de "filha" num piscar de olhos, para decepção dos dois.
Lembro-me ainda do carocha verde, de matrícula IA-48-72, onde muitas vezes você me levava a passear.
Lembro-me do aborrecimento da minha tia Laurinda por ser preterida quando o irmão preferia as camisas brancas que eram passadas a ferro por mim. Mas a "miúda" nunca queimou nenhuma camisa nem lhe deixou um único vinco, muito embora o ferro fosse cheio com brasas da lareira.
Já lá vão 40 anos!...
A saudade ficou e vive comigo, tal como a tristeza de ter sabido que, posteriormente, você veio a Portugal e não nos visitou. Não esqueço as lágrimas da minha mãe nem a tristeza espelhada no rosto do meu pai quando eles souberam que já tinha partido.
Peço-lhe agora que não nos esqueça, tal como eu nunca o esqueci. Só eu sei quanto afecto lhe tenho. Só eu sei o quanto gostava de mim e o quanto me respeitava, pois sabia que a minha mãe exigia que eu trabalhasse e a ajudasse como se fosse uma empregada dela. Só o meu tio Polívio sabia dar valor ao meu trabalho. E eu ficava feliz quando a minha mãe me ralhava por não ter feito isto ou aquilo e ele se virava contra ela, irritado, e lhe dizia com um modo estranho na fala:
-Você quer que ela trabalhe ainda mais? Você não vê que ela é ainda uma menininha? Não pode! Você não a deixa ser criança. É muita responsabilidade...
Sem o meu tio, eu fiquei "sozinha". Nunca mais tive ninguém que me protegesse, que suavizasse o peso da minha vida, que tivesse a coragem de me defender em qualquer circunstância, que estivesse do meu lado sempre e incondicionalmente.
Era isto que eu gostava de lhe dizer hoje, como agradecimento e votos de um feliz aniversário.

Receba um beijo e um abraço de quem nunca o esqueceu.

A sua sobrinha,

Graça Maria

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