"Hoje o avô Lapa completaria 88 anos de vida.
A vida dele foi repleta de experiências que lhe deram um saber que nós jamais alcançaremos. A sua infância – cheia de irmãos –, a sua precária e inconstante aprendizagem escolar nunca lhe tiraram a vontade de aprender e de ser alguém na vida. Na adolescência, como trabalhador agrícola, já sabia o que os “velhos” admiravam: – onde ir buscar a enorme capacidade de aguentar o trabalho do campo com menos esforço e mais produtividade. Dizia-me tantas vezes: “Eu era um garoto ao lado deles, mas sabia que tinha que trabalhar sempre de modo a que o sol nunca me batesse no rosto”. Senão, o esforço físico era muito maior para fazer o mesmo trabalho.
Como Pai, foi por vezes muito duro, quase desumano. Mas soube sempre compensar-nos com uma enorme ternura e muitos momentos de brincadeira. Nessas alturas nunca percebi quem do “monte” de pernas e braços era mais criança. Mas sabia quem ria mais, quase até ficar sem fôlego.
Não tenho qualquer dúvida que ele amou os seus filhos – nem sempre da maneira mais pedagógica… Fez-nos sofrer… Mas a vida dele, à excepção dos filhos, era um rio de sofrimento, de dificuldades, onde faltava quase tudo, onde uma fatia de broa realizava o seu pleno sentido e matava a fome.
Foi este Pai a única pessoa que estava ao meu lado quando senti que ia ter um filho. Do meu quarto chamei: Papá, Papá… E ele já estava ao pé de mim quando eu o chamei pela segunda vez. Foi ele que me disse tudo o que me iria acontecer. Foi ele que me acalmou. Desde as 6 e meia da manhã do dia 31 de Agosto nunca saíu do meu quarto. Não me lembro do que falámos. Mas sei que me deve ter dito o melhor que sabia.
Sozinhos conversámos imenso. Nunca senti a falta da minha mãe. Já a manhã ia alta, era perto do meio-dia, e ele disse-me: “Filha, chegou a hora, pelas tuas dores, de um pai dar lugar a uma mulher. Por isso, vou chamar a mulher do Vítor que virá para junto de ti… Assim aconteceu…
Daí em diante, ele remeteu-se ao seu canto com o terço na mão.
Foi ele e a Sãozita que assistiram ao meu “sofrimento”; e não poucas vezes chorávamos os três. De todos, a São era a mais corajosa. O pai do menino chegou tarde. Vinha de Mogadouro, de terminar o seu turno de férias como Delegado do Procurador da República. A minha mãe, não sei quando regressou de férias.
Na tarde de 31 de Agosto, pelas 8 horas, fomos até à clínica da Sofia. Ao despedir-se de mim, o meu pai disse-me: “Vai e não tenhas receio porque eu fico a rezar por ti.”
Miguel, tu sabes quanto és um ser querido e amado por todos, meu filho. Mas talvez tenhas tido um lugar especial no coração do teu avô Lapa.
Às vezes, penso que se deve a isto o facto de ele - com a sua doença - se ter esquecido do nome de todas as pessoas excepto o do Francisco e o teu.
Já não sabia bem quem eu era, mas quando me via perguntava logo: “O meu Migalhinhas? Preciso de falar com o meu Miguel.” Nunca disse apenas Miguel; era sempre “o meu Miguel”. Até a Joaninha me disse várias vezes que o avô gostava mais do Miguel do que dela. É claro que eu tentava contrariar a evidência.
Sempre que o visitava, ele perguntava: “O meu Miguel como vai? Onde está?” Repetia, repetia… “Diz-lhe que preciso urgentemente de falar com ele…” E eu não ligava. Mas tu ias vê-lo e só tu podes recordar o seu olhar quando levantava os braços ao alto com o terço na mão, sempre que te via. Lembras-te daquele rir meio misturado com lágrimas? Eu nunca me esqueço. “Ai o meu menino, o meu Migalhinhas!” Deves recordar muitas brincadeiras com ele que eu não me lembro. Mas eu não me esqueço daquela alegria que ainda se vê no olhar dele fixado pelas fotos.
Estou convencida que, ao querer falar contigo, ao querer que tu lá fosses, ao insistir na tua presença, era uma maneira, se calhar das poucas maneiras de se sentir seguro, não abandonado. O mesmo acontece comigo hoje. Sempre que tu chegas, acho que nada de mal me pode acontecer. Os sentimentos do meu pai e os meus são os mesmos: de tranquilidade, de protecção, de amparo, de cuidado e de alegria.
Hoje compreendo melhor o meu pai. Hoje amo-o mais. Tal como ele, também tu me fazes muita falta, meu filho.
Hoje, dia 12 de Outubro, o avô Manuel Vicente Lapa completaria 88 anos.
Diz-lhe – no Blog, se quiseres – que não te esqueces dele. Diz-lhe que, tal como ele amava a música, também tu a amas; e, tal como ele admirava e enaltecia a Justiça, também tu não te esquecerás de lhe seguir os passos.
Não tenho dúvida que, para além da família e de Deus, só duas coisas ele venerava: – A Música e o Direito.
Meu Miguel, o avô não está connosco, mas ensina-nos a ser um dia avós, companheiros inesquecíveis dos nossos netos."Todos nós, cada um à sua maneira, recordamos com saudade o meu avô.
Mesmo quem nunca o conheceu pode aceder à sua personalidade através dos seus escritos, das suas histórias, e daquilo que dizem dele os que o coheciam.
Ele era de facto um grande homem; e constitui, ainda hoje, um exemplo a seguir.
Este blog foi criado também em sua homenagem, e espero que sirva para o imortalizar.
Enquanto nos lembrarmos dele, a sua presença permanecerá.
