Regina e Jorge:
Aqui vai mais uma tentativa para vos ajudar a escreverem no blog.
Vocês já estão inscritos nele. Isso era o mais difícil.
Para escrever é muito mais fácil e rápido.
Eu explico melhor as instruções que dei aqui no blog em 29/12/2004:
....................................................
1 – Abrir o site (sítio da net) «www ponto blogger ponto com»;
(ver a nota ao fundo)
2 – Escrever o username (nome de utilizador) e a password (palavra-passe);
3 – Clicar em «Sign in»;
4 – Abre-se a página que diz «Dashboard»;
5 – Clicar sobre a cruzinha verde (debaixo de «new post»);
6 – Escrever o título e, mais abaixo, o post (ou seja, o texto);
7 – Para ver como vai ficar, clicar em «Preview» (escrito a azul);
8 – Para sair do Preview, clicar em «Hide Preview» (escrito a azul);
9 – Para publicar, clicar em «Publish post» (escrito a vermelho);
10 – Esperar que a publicação esteja completa (100%);
11 – Para ver o blog já escrito por vocês, clicar em «View Blog»;
12 – Para sair, clicar em «Sign out».
....................................................
Nota:
Na instrução nº 1 eu escrevi «www ponto blogger ponto com».
Onde está escrito ponto é para vocês porem mesmo um pontinho .
Eu não pus ali um ponto porque transformava logo o endereço num link. E o blog não me autorizou a fazer isso.
O nome de utilizador e a palavra-passe são as mesmas que vocês usaram para se inscreverem.
Espero que agora consigam escrever algo no blog.
Estou ansioso por ver o que têm a dizer aos «Lapas» e aos seus familiares e amigos.
Um abraço
Quim
sábado, janeiro 29, 2005
Mudar de nome
Hoje é a minha vez de contar um episódio da vida do meu pai.
Vivíamos na Lousã. Eu tinha cerca de 11 anos. Uma tarde, cheguei da catequese e fui ao escritório do meu pai (lanço). Ali, dirigi-me a ele dizendo que o Sr. Padre me tinha dito na catequese para as crianças entregarem aos pais uns documentos, a fim de estes preencherem. Disse ainda que, se quisessem, as crianças podiam aproveitar o crisma para mudarem o seu nome.
O meu pai parou o que estava a fazer, ouviu-me com muita atenção, e disse-me:
- Está bem. Eu preencho esses papéis. Mas, porque me disseste que se pode mudar de nome?
Eu respondi-lhe:
- Não gosto do meu nome porque as minhas colegas estão sempre a gozar com ele, por ele significar piada e à borla (gratuito, sem valor).
O meu pai disse então:
- Mas olha que o teu nome tem um sentido bíblico muito bonito. Significa sagrado, luz, claridade, pureza, dom divino. As tuas colegas são umas ignorantes.
Depois, voltou a perguntar-me:
- Então, qual era o nome que tu gostavas de ter?
Eu disse-lhe:
- Ana Maria (este era o nome da minha melhor amiga).
O meu pai ficou em silêncio durante algum tempo. Depois disse:
- Muito bem. Se é isso que tu queres, fala com a tua mãe e logo resolveremos isso. Porém, eu gostava de te contar a história do teu nome.
E prosseguiu:
- Quando tu nasceste, foi uma alegria muito grande para todos. Não foi fácil escolher um nome para a primeira menina, porque todos (padrinhos, tias, família) queriam que o nome escolhido fosse o que cada um propunha. Mas, eu tinha muito pouco tempo para fazer o registo. Então, fui eu que decidi qual seria o teu nome. Escolhi o de Graça Maria. Portanto, tu ficas a saber que sou eu o responsável pelo teu nome. Se o quiseres mudar, mudas o nome que o teu pai escolheu para ti.
Depois disto, eu subi para minha casa e pus-me a pensar no que o meu pai me tinha dito.
À noite, o meu pai chamou-me para, na minha presença, falar com a minha mãe sobre este assunto.
A minha mãe apenas me disse isto:
- Olha, filha. Tu podes não gostar do teu nome. Mas, quando eras pequenina e nós fomos viver para S. João do Campo, todas as meninas que lá nasceram depois de nós ali chegarmos tiveram no seu nome a palavra Graça.
O meu pai disse-me então:
- Filha, devolvo-te os papéis do Sr. Padre para que sejas tu a escrever o que entenderes.
Quando chegou a altura de eu entregar os papéis, o meu pai ajudou-me a preenchê-los.
Mas, quando chegámos ao lugar do nome a escolher, fui eu que o preenchi sem hesitação.
E ali escrevi: - Graça Maria da Cruz Lapa. [3]
Vivíamos na Lousã. Eu tinha cerca de 11 anos. Uma tarde, cheguei da catequese e fui ao escritório do meu pai (lanço). Ali, dirigi-me a ele dizendo que o Sr. Padre me tinha dito na catequese para as crianças entregarem aos pais uns documentos, a fim de estes preencherem. Disse ainda que, se quisessem, as crianças podiam aproveitar o crisma para mudarem o seu nome.
O meu pai parou o que estava a fazer, ouviu-me com muita atenção, e disse-me:
- Está bem. Eu preencho esses papéis. Mas, porque me disseste que se pode mudar de nome?
Eu respondi-lhe:
- Não gosto do meu nome porque as minhas colegas estão sempre a gozar com ele, por ele significar piada e à borla (gratuito, sem valor).
O meu pai disse então:
- Mas olha que o teu nome tem um sentido bíblico muito bonito. Significa sagrado, luz, claridade, pureza, dom divino. As tuas colegas são umas ignorantes.
Depois, voltou a perguntar-me:
- Então, qual era o nome que tu gostavas de ter?
Eu disse-lhe:
- Ana Maria (este era o nome da minha melhor amiga).
O meu pai ficou em silêncio durante algum tempo. Depois disse:
- Muito bem. Se é isso que tu queres, fala com a tua mãe e logo resolveremos isso. Porém, eu gostava de te contar a história do teu nome.
E prosseguiu:
- Quando tu nasceste, foi uma alegria muito grande para todos. Não foi fácil escolher um nome para a primeira menina, porque todos (padrinhos, tias, família) queriam que o nome escolhido fosse o que cada um propunha. Mas, eu tinha muito pouco tempo para fazer o registo. Então, fui eu que decidi qual seria o teu nome. Escolhi o de Graça Maria. Portanto, tu ficas a saber que sou eu o responsável pelo teu nome. Se o quiseres mudar, mudas o nome que o teu pai escolheu para ti.
Depois disto, eu subi para minha casa e pus-me a pensar no que o meu pai me tinha dito.
À noite, o meu pai chamou-me para, na minha presença, falar com a minha mãe sobre este assunto.
A minha mãe apenas me disse isto:
- Olha, filha. Tu podes não gostar do teu nome. Mas, quando eras pequenina e nós fomos viver para S. João do Campo, todas as meninas que lá nasceram depois de nós ali chegarmos tiveram no seu nome a palavra Graça.
O meu pai disse-me então:
- Filha, devolvo-te os papéis do Sr. Padre para que sejas tu a escrever o que entenderes.
Quando chegou a altura de eu entregar os papéis, o meu pai ajudou-me a preenchê-los.
Mas, quando chegámos ao lugar do nome a escolher, fui eu que o preenchi sem hesitação.
E ali escrevi: - Graça Maria da Cruz Lapa. [3]
sábado, janeiro 22, 2005
O dinheiro do Sr. Director
Numa altura em que o Sr. Lapa era contínuo na Hidráulica do Mondego, em Coimbra, desapareceu uma certa importância em dinheiro da secretária do Director.
Quando o facto ocorreu pela segunda vez, o Director chamou à sua presença todos os funcionários dos escalões mais baixos, entre os quais se contava o Sr. Lapa.
Esses funcionários eram três e tinham em comum o facto de possuírem a chave do gabinete do Director.
Então, o Director deu-lhes conhecimento da ocorrência, mostrou-lhes a sua preocupação e perguntou a cada um se tinha sido ele o autor do desvio.
O Sr. Lapa foi o último a ser ouvido. O Director fez-lhe as mesmas perguntas. Mas acrescentou que um dos colegas daquele lhe dissera que desconfiava que tivesse sido o Lapa, porque o viu por várias vezes a entrar no gabinete do Director fora das horas de expediente.
Convém referir que o Director era muito amigo do Sr. Lapa. Esteve na origem da sua admissão, pagava as propinas e os livros deste no curso comercial nocturno e dava-lhe mesmo algumas explicações de matemática.
Mas, o Director referiu-lhe que, apesar da confiança que tinha nele, teve de o chamar e fazer-lhe as mesmas perguntas que fizera aos outros.
O Sr. Lapa ficou “sem pinga de sangue” com toda esta situação. E disse que era verdade que tinha ido ali por várias vezes fora das horas de expediente para praticar dactilografia na máquina de escrever do Sr. Director, conforme lhe fora autorizado expressamente por este. Mas, jurou-lhe pela sua honra que não tinha sido ele o autor do furto.
Ao ver a reacção do Sr. Lapa, o Director disse-lhe:
- Conheço-te bem a ti e à tua família. Sei que és uma pessoa honesta. Por isso, nunca me passou pela cabeça que me tivesses tirado o que quer que fosse. Mas, tinha que te chamar aqui porque preciso de descobrir quem me anda a tirar o dinheiro.
Então, o Sr. Lapa disse ao Director o seguinte:
- Agradeço-lhe muito a sua confiança. E, se me permite a sugestão, parece-me que V. Ex.ª poderia continuar a deixar na sua secretária dinheiro em notas pequenas e em maior quantidade. Eu vou estar atento, fazendo tudo o que puder para ajudar na descoberta do autor do furto.
Passaram-se meses de atenção e discreta vigilância.
De vez em quando, o Sr. Lapa perguntava ao Director se tinha voltado a faltar-lhe dinheiro.
O Director respondia-lhe que não. E, a certa altura, disse-lhe:
- Lapa, não te preocupes mais. Já passou muito tempo. Não voltou a acontecer nada. O assunto está encerrado.
O Sr. Lapa pensou então que o autor do furto estaria também convencido de que todos teriam já esquecido o caso. Mas, em vez de abrandar a vigilância, ele resolveu reforçá-la, indo muito cedo para a repartição e ficando no exterior a ver quem entrava.
Um dia, os seus esforços foram compensados.
O colega que o tinha acusado entrou antes da hora de início do trabalho. O Sr. Lapa não entrou logo atrás dele, como vinha fazendo antes. Deixou passar alguns minutos. Depois, dirigiu-se directamente ao corredor do gabinete do Director, verificando que o casaco do colega não se encontrava no cabide. Abriu de imediato a porta do gabinete e deu de caras com esse colega ainda a fechar a gaveta da secretária. Chamou um outro colega que ia a passar e pediu-lhe que ficassem ali os três até à chegada do Director. No meio do diálogo que se gerou, o autor do furto tirou o dinheiro do bolso e atirou-o para dentro da secretária.
Logo que chegou ao gabinete, o Director deparou-se com esta cena e ficou o caso esclarecido.
No dia seguinte, o Director chamou ao seu gabinete o Sr. Lapa e o outro funcionário, tendo este acabado por confessar ser ele o autor de todos os furtos.
Então, o Director dirigiu-se ao Sr. Lapa, dizendo:
- A minha vontade é despedir imediatamente este funcionário. Mas, como ele te acusou a ti, és tu que deves decidir o futuro dele. O que tens a dizer?
O Sr. Lapa respondeu:
- Sr. Director, se me dá licença, a minha opinião é que ele não deve ser despedido porque, se o fosse, não era só ele que sofreria mas também toda a família dele. E os filhos dele não têm culpa das asneiras do pai.
Apesar desta atitude do Sr. Lapa, o funcionário em questão nunca foi um bom colega para aquele. [2]
Quando o facto ocorreu pela segunda vez, o Director chamou à sua presença todos os funcionários dos escalões mais baixos, entre os quais se contava o Sr. Lapa.
Esses funcionários eram três e tinham em comum o facto de possuírem a chave do gabinete do Director.
Então, o Director deu-lhes conhecimento da ocorrência, mostrou-lhes a sua preocupação e perguntou a cada um se tinha sido ele o autor do desvio.
O Sr. Lapa foi o último a ser ouvido. O Director fez-lhe as mesmas perguntas. Mas acrescentou que um dos colegas daquele lhe dissera que desconfiava que tivesse sido o Lapa, porque o viu por várias vezes a entrar no gabinete do Director fora das horas de expediente.
Convém referir que o Director era muito amigo do Sr. Lapa. Esteve na origem da sua admissão, pagava as propinas e os livros deste no curso comercial nocturno e dava-lhe mesmo algumas explicações de matemática.
Mas, o Director referiu-lhe que, apesar da confiança que tinha nele, teve de o chamar e fazer-lhe as mesmas perguntas que fizera aos outros.
O Sr. Lapa ficou “sem pinga de sangue” com toda esta situação. E disse que era verdade que tinha ido ali por várias vezes fora das horas de expediente para praticar dactilografia na máquina de escrever do Sr. Director, conforme lhe fora autorizado expressamente por este. Mas, jurou-lhe pela sua honra que não tinha sido ele o autor do furto.
Ao ver a reacção do Sr. Lapa, o Director disse-lhe:
- Conheço-te bem a ti e à tua família. Sei que és uma pessoa honesta. Por isso, nunca me passou pela cabeça que me tivesses tirado o que quer que fosse. Mas, tinha que te chamar aqui porque preciso de descobrir quem me anda a tirar o dinheiro.
Então, o Sr. Lapa disse ao Director o seguinte:
- Agradeço-lhe muito a sua confiança. E, se me permite a sugestão, parece-me que V. Ex.ª poderia continuar a deixar na sua secretária dinheiro em notas pequenas e em maior quantidade. Eu vou estar atento, fazendo tudo o que puder para ajudar na descoberta do autor do furto.
Passaram-se meses de atenção e discreta vigilância.
De vez em quando, o Sr. Lapa perguntava ao Director se tinha voltado a faltar-lhe dinheiro.
O Director respondia-lhe que não. E, a certa altura, disse-lhe:
- Lapa, não te preocupes mais. Já passou muito tempo. Não voltou a acontecer nada. O assunto está encerrado.
O Sr. Lapa pensou então que o autor do furto estaria também convencido de que todos teriam já esquecido o caso. Mas, em vez de abrandar a vigilância, ele resolveu reforçá-la, indo muito cedo para a repartição e ficando no exterior a ver quem entrava.
Um dia, os seus esforços foram compensados.
O colega que o tinha acusado entrou antes da hora de início do trabalho. O Sr. Lapa não entrou logo atrás dele, como vinha fazendo antes. Deixou passar alguns minutos. Depois, dirigiu-se directamente ao corredor do gabinete do Director, verificando que o casaco do colega não se encontrava no cabide. Abriu de imediato a porta do gabinete e deu de caras com esse colega ainda a fechar a gaveta da secretária. Chamou um outro colega que ia a passar e pediu-lhe que ficassem ali os três até à chegada do Director. No meio do diálogo que se gerou, o autor do furto tirou o dinheiro do bolso e atirou-o para dentro da secretária.
Logo que chegou ao gabinete, o Director deparou-se com esta cena e ficou o caso esclarecido.
No dia seguinte, o Director chamou ao seu gabinete o Sr. Lapa e o outro funcionário, tendo este acabado por confessar ser ele o autor de todos os furtos.
Então, o Director dirigiu-se ao Sr. Lapa, dizendo:
- A minha vontade é despedir imediatamente este funcionário. Mas, como ele te acusou a ti, és tu que deves decidir o futuro dele. O que tens a dizer?
O Sr. Lapa respondeu:
- Sr. Director, se me dá licença, a minha opinião é que ele não deve ser despedido porque, se o fosse, não era só ele que sofreria mas também toda a família dele. E os filhos dele não têm culpa das asneiras do pai.
Apesar desta atitude do Sr. Lapa, o funcionário em questão nunca foi um bom colega para aquele. [2]
domingo, janeiro 16, 2005
Filha duas vezes
Então, aqui vai o primeiro registo.
Trata-se de um facto que o Sr. Lapa contava muitas vezes à sua filha Graça, especialmente quando queria expressar o grande afecto que tinha por ela.
Numa altura em que a família vivia na Conchada (ainda hoje uma zona pobre da cidade de Coimbra) e o Sr. Lapa trabalhava numa loja de bicicletas situada na Baixa da mesma cidade, aquele auferia o ordenado mensal de 300$00 e pagava de renda 200$00 por mês.
O agregado familiar era constituído pelo casal e por três filhos, o mais novo dos quais tinha uma doença muitíssimo grave que exigia um tratamento diário no hospital da Universidade.
A D. Lurdes encontrava-se na altura grávida da Graça.
Então, pretendendo aumentar um pouco os seus modestos rendimentos, o Sr. Lapa dirigiu-se ao seu patrão, explicou-lhe a situação aflitiva em que se encontrava e pediu-lhe um aumento do ordenado.
O patrão respondeu-lhe que compreendia bem a situação dele, que o Sr. Lapa era um empregado exemplar e indispensável para o seu negócio, mas que não podia aumentar-lhe o ordenado. No entanto, disse-lhe que o ia ajudar.
Ao dizer isto, o patrão abriu a gaveta da sua secretária, tirou uma nota de 1.000$00 e disse-lhe:
- Toma lá este dinheiro e, com ele, diz à tua mulher que vá fazer um “desmancho” (aborto).
O Sr. Lapa respondeu:
- Muito obrigado, mas uma ajuda dessas eu não a quero - e regressou ao seu trabalho de balcão.
Ao chegar a casa, o Sr. Lapa contou o sucedido à sua esposa, tendo da conversa entre ambos resultado a decisão comum de ele se despedir imediatamente daquele emprego, o que veio a suceder no dia seguinte.
E o quarto filho veio ao mundo e foi uma grande alegria para o casal, já que era a primeira menina.
Daí em diante, sempre que a Graça realizava algo de importante na sua vida ou que alguém fazia algum elogio àquela, o Sr. Lapa voltava a contar o episódio à filha e terminava sempre o mesmo com estas palavras:
- Não te esqueças que tu és minha filha duas vezes. [1]
Trata-se de um facto que o Sr. Lapa contava muitas vezes à sua filha Graça, especialmente quando queria expressar o grande afecto que tinha por ela.
Numa altura em que a família vivia na Conchada (ainda hoje uma zona pobre da cidade de Coimbra) e o Sr. Lapa trabalhava numa loja de bicicletas situada na Baixa da mesma cidade, aquele auferia o ordenado mensal de 300$00 e pagava de renda 200$00 por mês.
O agregado familiar era constituído pelo casal e por três filhos, o mais novo dos quais tinha uma doença muitíssimo grave que exigia um tratamento diário no hospital da Universidade.
A D. Lurdes encontrava-se na altura grávida da Graça.
Então, pretendendo aumentar um pouco os seus modestos rendimentos, o Sr. Lapa dirigiu-se ao seu patrão, explicou-lhe a situação aflitiva em que se encontrava e pediu-lhe um aumento do ordenado.
O patrão respondeu-lhe que compreendia bem a situação dele, que o Sr. Lapa era um empregado exemplar e indispensável para o seu negócio, mas que não podia aumentar-lhe o ordenado. No entanto, disse-lhe que o ia ajudar.
Ao dizer isto, o patrão abriu a gaveta da sua secretária, tirou uma nota de 1.000$00 e disse-lhe:
- Toma lá este dinheiro e, com ele, diz à tua mulher que vá fazer um “desmancho” (aborto).
O Sr. Lapa respondeu:
- Muito obrigado, mas uma ajuda dessas eu não a quero - e regressou ao seu trabalho de balcão.
Ao chegar a casa, o Sr. Lapa contou o sucedido à sua esposa, tendo da conversa entre ambos resultado a decisão comum de ele se despedir imediatamente daquele emprego, o que veio a suceder no dia seguinte.
E o quarto filho veio ao mundo e foi uma grande alegria para o casal, já que era a primeira menina.
Daí em diante, sempre que a Graça realizava algo de importante na sua vida ou que alguém fazia algum elogio àquela, o Sr. Lapa voltava a contar o episódio à filha e terminava sempre o mesmo com estas palavras:
- Não te esqueças que tu és minha filha duas vezes. [1]
Outras Memórias
Nas suas «Memórias» (ver o site “A página do Quim”), Manuel Vicente Lapa quis tão só registar as conversas que ouvira aos pais dele para as transmitir aos seus netos.
Em relação à sua pessoa, ele escreveu apenas isto: - “De mim nada direi, visto que os meus filhos me conheceram bem. Eles dirão, se o entenderem por bem, quanto eu fiz pela minha família”.
Pois bem. Parece-me que chegou a altura - e que este blog é o lugar próprio - para os filhos do Sr. Lapa recordarem alguns dos episódios que marcaram a vida do seu pai e que mostram bem que ele foi, de facto, um homem extraordinário.
Estas «Novas Memórias» (digamos assim) serão contadas em episódios breves e sem qualquer preocupação de respeitar a sua ordem cronológica.
Todos os contributos serão bem-vindos. Se alguém não puder ou não quiser escrever no blog, poderá ao menos indicar aqueles episódios que considere serem também merecedores deste simples registo.
Em relação à sua pessoa, ele escreveu apenas isto: - “De mim nada direi, visto que os meus filhos me conheceram bem. Eles dirão, se o entenderem por bem, quanto eu fiz pela minha família”.
Pois bem. Parece-me que chegou a altura - e que este blog é o lugar próprio - para os filhos do Sr. Lapa recordarem alguns dos episódios que marcaram a vida do seu pai e que mostram bem que ele foi, de facto, um homem extraordinário.
Estas «Novas Memórias» (digamos assim) serão contadas em episódios breves e sem qualquer preocupação de respeitar a sua ordem cronológica.
Todos os contributos serão bem-vindos. Se alguém não puder ou não quiser escrever no blog, poderá ao menos indicar aqueles episódios que considere serem também merecedores deste simples registo.
quarta-feira, janeiro 12, 2005
A Página do Quim
Há duas ou três semanas, o meu filho Miguel pôs-me mais algumas fotografias no «site» acima identificado.
São as cinco últimas fotografias inseridas em «Parentes Graça».
Mas, houve algum problema com o local da net em que essas fotografias foram colocadas.
Assim, essas últimas fotografias não eram visíveis (só se viam bem no meu computador).
Agora, o Miguel resolveu o problema colocando as fotografias no mesmo local da net em que já estavam as primeiras.
Espero que todas as fotografias sejam agora bem visíveis nos computadores da família Lapa, onde quer que se encontrem os seus membros.
Espero também que as referidas fotografias levem boas recordações a todos, especialmente aos que vivem longe da sua terra e do seu País.
Quim
São as cinco últimas fotografias inseridas em «Parentes Graça».
Mas, houve algum problema com o local da net em que essas fotografias foram colocadas.
Assim, essas últimas fotografias não eram visíveis (só se viam bem no meu computador).
Agora, o Miguel resolveu o problema colocando as fotografias no mesmo local da net em que já estavam as primeiras.
Espero que todas as fotografias sejam agora bem visíveis nos computadores da família Lapa, onde quer que se encontrem os seus membros.
Espero também que as referidas fotografias levem boas recordações a todos, especialmente aos que vivem longe da sua terra e do seu País.
Quim
sábado, janeiro 08, 2005
Jorge
Por ignorância ou incompetência, eu não apreciava este tipo de tecnologia. Mas, agora dou-lhe mais valor, já que aprecio a proximidade que ela dá entre as pessoas.
Leio o que tu escreves nas tuas mensagens (comentários) e parece-me ouvir-te neles. Isso cria um sentimento de tranquilidade e desvanece a distância. Esqueço-me de quão longe estás.
Depois disto, já não me vem aquela velha preocupação que me invadia sempre que me lembrava de ti e me perguntava: - Como estará o meu irmão?
Este meio de comunicação, que eu ainda não sei manipular, dá-me ao menos a sensação de que - o que quer que nos aconteça – tu e eu sabê-lo-emos rapidamente.
O ano de 2005 será para mim mais tranquilo, no que a isto diz respeito.
Desejo-te, meu irmão, um ano novo cheio de saúde (porque o resto compra-se no supermercado…).
Um beijo
Graça
Leio o que tu escreves nas tuas mensagens (comentários) e parece-me ouvir-te neles. Isso cria um sentimento de tranquilidade e desvanece a distância. Esqueço-me de quão longe estás.
Depois disto, já não me vem aquela velha preocupação que me invadia sempre que me lembrava de ti e me perguntava: - Como estará o meu irmão?
Este meio de comunicação, que eu ainda não sei manipular, dá-me ao menos a sensação de que - o que quer que nos aconteça – tu e eu sabê-lo-emos rapidamente.
O ano de 2005 será para mim mais tranquilo, no que a isto diz respeito.
Desejo-te, meu irmão, um ano novo cheio de saúde (porque o resto compra-se no supermercado…).
Um beijo
Graça
quarta-feira, janeiro 05, 2005
Aniversário
Zé Alves:
Parabéns pelo teu aniversário. Oxalá contes muitos (pelo menos outros tantos...), sempre com saúde e boa disposição.
Aqui fica um poema como prenda de anos.
Com pequenas alterações do texto, ele também pode aplicar-se a ti.
A uns anos
Dura a vida como a flor;
Mas dura uma eternidade
Passada na ansiedade,
Passada no dissabor.
Quando a fortuna bafeja
O frágil batel da vida,
Nunca parece comprida,
Por mais comprida que seja.
Ora tendo vós a sorte
De ver hoje a vosso lado
O vosso filho adorado,
Vossa adorada consorte,
A natural alegria
Vos faz cair num engano;
Vós não fazeis mais um ano.
Fazeis mas é... mais um dia.
João de Deus - «Campo de Flores - I»
Parabéns pelo teu aniversário. Oxalá contes muitos (pelo menos outros tantos...), sempre com saúde e boa disposição.
Aqui fica um poema como prenda de anos.
Com pequenas alterações do texto, ele também pode aplicar-se a ti.
A uns anos
Dura a vida como a flor;
Mas dura uma eternidade
Passada na ansiedade,
Passada no dissabor.
Quando a fortuna bafeja
O frágil batel da vida,
Nunca parece comprida,
Por mais comprida que seja.
Ora tendo vós a sorte
De ver hoje a vosso lado
O vosso filho adorado,
Vossa adorada consorte,
A natural alegria
Vos faz cair num engano;
Vós não fazeis mais um ano.
Fazeis mas é... mais um dia.
João de Deus - «Campo de Flores - I»
segunda-feira, janeiro 03, 2005
As Janeiras (2)
1.
Ainda agora aqui cheguei
Já pus o pé na escada
Logo o meu coração disse
Que aqui mora gente honrada.
2.
Nós não vimos pelas Janeiras
Nós Janeiras cá trazemos
Vimos pelas obrigações
Que a esta casa devemos.
3.
Viva lá senhor F…
Usa o seu chapéu direito
Quando vai pela rua fora
Todos lhe guardam respeito.
4.
Viva lá senhora F….
Raminho de palma branca
Ainda anda neste mundo
Já no céu é uma santa.
5.
De quem é aquele anel d’oiro
Com pedrinhas ao redol
É do menino F…
Que é bonito como o sol.
6.
Viva lá menina F…
Suas faces são romãs
Seus olhos são mais galantes
Do que a estrela da manhã.
7.
Levante-se minha senhora
Desse banco de cortiça
Venha-nos dar as janeiras
Ou morcela ou chouriça.
8.
Alegrai-vos companheiros
Que eu já sinto gente a andar
É a senhora desta casa
Que nos vem a convidar.
9.
Ó que estrela tão brilhante
Que vem dos lados do norte
À família desta casa
Deus lhe dê uma boa sorte.
UBI (internet)
Ainda agora aqui cheguei
Já pus o pé na escada
Logo o meu coração disse
Que aqui mora gente honrada.
2.
Nós não vimos pelas Janeiras
Nós Janeiras cá trazemos
Vimos pelas obrigações
Que a esta casa devemos.
3.
Viva lá senhor F…
Usa o seu chapéu direito
Quando vai pela rua fora
Todos lhe guardam respeito.
4.
Viva lá senhora F….
Raminho de palma branca
Ainda anda neste mundo
Já no céu é uma santa.
5.
De quem é aquele anel d’oiro
Com pedrinhas ao redol
É do menino F…
Que é bonito como o sol.
6.
Viva lá menina F…
Suas faces são romãs
Seus olhos são mais galantes
Do que a estrela da manhã.
7.
Levante-se minha senhora
Desse banco de cortiça
Venha-nos dar as janeiras
Ou morcela ou chouriça.
8.
Alegrai-vos companheiros
Que eu já sinto gente a andar
É a senhora desta casa
Que nos vem a convidar.
9.
Ó que estrela tão brilhante
Que vem dos lados do norte
À família desta casa
Deus lhe dê uma boa sorte.
UBI (internet)
As Janeiras (1)
O Ano Novo é marcado pelas tradições milenares dos Reis e das Janeiras, responsáveis pelo clima de festa e alegria com que todos os povos ocidentais se despedem de um ano que parte e saúdam um ano que chega, enquanto cumulativamente celebram o nascimento de Jesus Cristo e o renascimento solar. É hora de actores, músicos e cantores saírem para as ruas e caminhos de cidades, vilas e povoados e contagiarem os vizinhos com a magia da música e o calor das palavras plenas de júbilo e esperança.
Tais tradições são festividades cíclicas associadas ao ciclo do Natal, cujas origens remontam às antigas celebrações universais do solstício de Inverno. No princípio, a astrologia dominou a mitologia de quase todos os povos, tanto mais que o sol, enquanto elemento central de todas as cosmogonias antigas, foi objecto de cerimónias, ritos e cultos. Em algumas civilizações, como se sabe, o sol foi até divinizado. Foi esta cultura e este espírito solar que a Igreja Católica aproveitou para, no séc. IV, colocar o nascimento do Salvador no momento em que os pagãos celebravam a festa do nascimento do sol invencível.
Daí a razão porque o Natal é uma festa que junta ingredientes religiosos e profanos. A adoração do Menino Jesus, com missas e presépios é acompanhada de lautas consoadas, trocas de prendas, bailes e fogueiras. O epílogo deste ciclo festivo acontece com a festa dos Reis que, segundo a tradição seriam Gaspar, Baltasar e Belchior, e que vieram adorar o Deus menino com prendas de ouro, incenso e mirra. A origem, número e condição destas figuras é nebulosa, como nebulosa é a descrição nos textos bíblicos da estrela de Belém. A astronomia não sabe ainda hoje explicar a natureza da estrela que guiou os reis magos até à gruta de Belém.
Fosse o que fosse, aparição de cometa, conjugação planetária, resulta hoje que a estrela de Belém é símbolo do nascimento de Jesus Cristo, luz que irrompeu das trevas para salvação da humanidade. A cristandade glosou esta simbologia histórica (o encontro de um rei espiritual com reis temporais) através de múltiplas representações, como é o caso das contradanças, dos Bailes dos Reis, das Reisadas e dos Encontros de Reis.
Do mesmo modo as Janeiras são cantigas de boas-festas e loas ao Menino Jesus e também saudações ao Ano Novo, com vigência entre o Natal e os Reis. Não é fácil determinar a origem deste costume que faz com que grupos de músicos e cantores percorram os lugares com luzernas para assinalarem a sua presença e a sua intenção pacífica. Ainda não há muitos anos os patrões convidavam a tocata para um repasto à base de frutos secos (nozes, pinhões e figos) e vinho, frequentemente de grande teor alcoólico (vinho branco, vinho fino ou jeropiga), para acudir aos rigores do frio. Infelizmente este costume está a ser descaracterizado, uma vez que os cantadores de “janeiras” estão a trocar a ceia das Janeiras por um contributo pecuniário, desaparecendo da tradição a sua imensa carga simbólica, isto é, o significado da comida natalícia, o canto do renascimento espiritual e temporal e a razão cosmogónica da festa solsticial.
Câmara Municipal de Braga/Cultura (internet).
Tais tradições são festividades cíclicas associadas ao ciclo do Natal, cujas origens remontam às antigas celebrações universais do solstício de Inverno. No princípio, a astrologia dominou a mitologia de quase todos os povos, tanto mais que o sol, enquanto elemento central de todas as cosmogonias antigas, foi objecto de cerimónias, ritos e cultos. Em algumas civilizações, como se sabe, o sol foi até divinizado. Foi esta cultura e este espírito solar que a Igreja Católica aproveitou para, no séc. IV, colocar o nascimento do Salvador no momento em que os pagãos celebravam a festa do nascimento do sol invencível.
Daí a razão porque o Natal é uma festa que junta ingredientes religiosos e profanos. A adoração do Menino Jesus, com missas e presépios é acompanhada de lautas consoadas, trocas de prendas, bailes e fogueiras. O epílogo deste ciclo festivo acontece com a festa dos Reis que, segundo a tradição seriam Gaspar, Baltasar e Belchior, e que vieram adorar o Deus menino com prendas de ouro, incenso e mirra. A origem, número e condição destas figuras é nebulosa, como nebulosa é a descrição nos textos bíblicos da estrela de Belém. A astronomia não sabe ainda hoje explicar a natureza da estrela que guiou os reis magos até à gruta de Belém.
Fosse o que fosse, aparição de cometa, conjugação planetária, resulta hoje que a estrela de Belém é símbolo do nascimento de Jesus Cristo, luz que irrompeu das trevas para salvação da humanidade. A cristandade glosou esta simbologia histórica (o encontro de um rei espiritual com reis temporais) através de múltiplas representações, como é o caso das contradanças, dos Bailes dos Reis, das Reisadas e dos Encontros de Reis.
Do mesmo modo as Janeiras são cantigas de boas-festas e loas ao Menino Jesus e também saudações ao Ano Novo, com vigência entre o Natal e os Reis. Não é fácil determinar a origem deste costume que faz com que grupos de músicos e cantores percorram os lugares com luzernas para assinalarem a sua presença e a sua intenção pacífica. Ainda não há muitos anos os patrões convidavam a tocata para um repasto à base de frutos secos (nozes, pinhões e figos) e vinho, frequentemente de grande teor alcoólico (vinho branco, vinho fino ou jeropiga), para acudir aos rigores do frio. Infelizmente este costume está a ser descaracterizado, uma vez que os cantadores de “janeiras” estão a trocar a ceia das Janeiras por um contributo pecuniário, desaparecendo da tradição a sua imensa carga simbólica, isto é, o significado da comida natalícia, o canto do renascimento espiritual e temporal e a razão cosmogónica da festa solsticial.
Câmara Municipal de Braga/Cultura (internet).
sexta-feira, dezembro 31, 2004
Bom Ano Novo
Está a começar o ano de 2005, segundo o calendário gregoriano.
Ou será o ano de 5763, como dizem os judeus?
Ou o ano de 1380, como entendem os islâmicos?
Poderá ser qualquer outro ano, ou mês, ou dia... Não tem importância.
O que importa é que todos os Lapas, os seus familiares e os seus amigos tenham os próximos 365 dias (ou 400 ou 500) cheios de saúde, de paz e de felicidade.
Este blog pretende ajudar a que este desejo se possa concretizar.
Para todos um Bom Ano Novo
Quim
Ou será o ano de 5763, como dizem os judeus?
Ou o ano de 1380, como entendem os islâmicos?
Poderá ser qualquer outro ano, ou mês, ou dia... Não tem importância.
O que importa é que todos os Lapas, os seus familiares e os seus amigos tenham os próximos 365 dias (ou 400 ou 500) cheios de saúde, de paz e de felicidade.
Este blog pretende ajudar a que este desejo se possa concretizar.
Para todos um Bom Ano Novo
Quim
quinta-feira, dezembro 30, 2004
Ano Novo (2)
É quase meia-noite. Numa inquietação crescente, vou escrevinhando a consultar o relógio a cada momento. Quero assistir à passagem do ano. Faltam vinte minutos, faltam quinze, faltam dez… Um agiota não faria melhor se estivesse ao pulso de um agonizante de quem esperasse herdar uma grande fortuna. E acabo por me rir. Farto de saber que nada vai mudar, roído de desilusões, e teimo na estupidez das mais vezes! Simplesmente, não desisto. A razão argumenta, a experiência ensina, e nos recônditos do meu ser nenhuma lição de objectividade encontra eco. Orgulhosos da nossa ciência, e seguros de que dominamos a natureza, zombamos dos nossos avós e dos rituais com que tentavam exorcizar as forças do mal e propiciar a renovação do tempo. Mas, no fundo, continuamos supersticiosos e crédulos como eles. A abafar ruidosamente a emoção a tiros de petardo ou de champanhe, ouvimos bater as doze badaladas na secreta esperança de que elas sejam a meta remissa do passado e o ponto de partida dum futuro redentor. Assim persiste sob a máscara soberba do civilizado a humildade do primitivo. A humildade que o mantém vivo nas selvas da ignorância, ao lado do morto que vai sendo nas avenidas da sabedoria…
Miguel Torga - «Diário XI» (31/12/69)
Miguel Torga - «Diário XI» (31/12/69)
Ano Novo (1)
Outro ano. Toda a gente excitada, e, de conhecido para conhecido, esta senha:
- Boas entradas!
- Igualmente! – responde o contemplado.
E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé direito à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas mói os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.
Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora – agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca:
- Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei!
Que me lembre, apenas Raul Brandão teve a grandeza e a lealdade de escrever que repetiria o calvário da vida sem lhe alterar o itinerário. Isto sim, isto é de quem entendeu a fundo que a existência não deve ter soluções de continuidade, nem ser prevista. Deus me livre de saber antecipadamente que por certo beijo que roubei em rapaz a uma cachopa da minha terra receberia a bofetada que recebi!
A coisa foi maravilhosa por ter sido um jogo, um atrevimento, um risco, e motivar aquela réplica inesperada e ardente!
«- Se eu soubesse…»
Mas como felizmente ninguém pode voltar atrás, nem saber antes de saber, vai de recomeçar vida nova cada novo ano. Cada novo ano que passa a velho logo que se fazem trezentas e sessenta e cinco tolices…
Miguel Torga – «Diário II» (1/1/1943)
- Boas entradas!
- Igualmente! – responde o contemplado.
E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé direito à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas mói os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.
Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora – agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca:
- Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei!
Que me lembre, apenas Raul Brandão teve a grandeza e a lealdade de escrever que repetiria o calvário da vida sem lhe alterar o itinerário. Isto sim, isto é de quem entendeu a fundo que a existência não deve ter soluções de continuidade, nem ser prevista. Deus me livre de saber antecipadamente que por certo beijo que roubei em rapaz a uma cachopa da minha terra receberia a bofetada que recebi!
A coisa foi maravilhosa por ter sido um jogo, um atrevimento, um risco, e motivar aquela réplica inesperada e ardente!
«- Se eu soubesse…»
Mas como felizmente ninguém pode voltar atrás, nem saber antes de saber, vai de recomeçar vida nova cada novo ano. Cada novo ano que passa a velho logo que se fazem trezentas e sessenta e cinco tolices…
Miguel Torga – «Diário II» (1/1/1943)
quarta-feira, dezembro 29, 2004
Para escrever no blog
1 – Abrir o site (sítio da net) www ponto blogger ponto com;
2 – Escrever o username (nome de utilizador) e a password (palavra-passe);
3 – Clicar em «Sign in»;
4 – Clicar sobre «Lapa-Mundi»;
5 – Clicar em «Create a new post»;
6 – Escrever o título e, mais abaixo, o post (ou seja, o texto);
7 – Para ver como vai ficar, clicar em «Preview» (escrito a azul);
8 – Para sair do Preview, clicar em «Hide Preview» (escrito a azul);
9 – Por fim, clicar em «Publish post» (escrito a vermelho);
10 – Esperar que a publicação esteja completa;
11 – Para ver o blog já escrito, clicar em «View Blog»;
12 – Para sair, clicar em «Sign out».
2 – Escrever o username (nome de utilizador) e a password (palavra-passe);
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4 – Clicar sobre «Lapa-Mundi»;
5 – Clicar em «Create a new post»;
6 – Escrever o título e, mais abaixo, o post (ou seja, o texto);
7 – Para ver como vai ficar, clicar em «Preview» (escrito a azul);
8 – Para sair do Preview, clicar em «Hide Preview» (escrito a azul);
9 – Por fim, clicar em «Publish post» (escrito a vermelho);
10 – Esperar que a publicação esteja completa;
11 – Para ver o blog já escrito, clicar em «View Blog»;
12 – Para sair, clicar em «Sign out».
Para ser membro do blog
Fazer o seguinte:
1 - Abrir o e-mail com o convite que eu enviei;
2 - Clicar na linha que está escrita a azul;
3 - Abre-se um ecran que diz «Join a Blog»;
4 - Clicar em «Create an account»;
5 - Abre-se o ecran «Create an account»;
6 - Preencher os espaços (basta os obrigatórios) e, depois, clicar no quadradinho junto a "acceptance of terms»;
7 - Clicar em «Continue»;
8 - Abre-se um ecran que diz «Dashboard». A inscrição está completa.
9 - Para escrever, deve ler o post: «Para escrever no blog»
1 - Abrir o e-mail com o convite que eu enviei;
2 - Clicar na linha que está escrita a azul;
3 - Abre-se um ecran que diz «Join a Blog»;
4 - Clicar em «Create an account»;
5 - Abre-se o ecran «Create an account»;
6 - Preencher os espaços (basta os obrigatórios) e, depois, clicar no quadradinho junto a "acceptance of terms»;
7 - Clicar em «Continue»;
8 - Abre-se um ecran que diz «Dashboard». A inscrição está completa.
9 - Para escrever, deve ler o post: «Para escrever no blog»
domingo, dezembro 26, 2004
Bola de Neve
Apesar de não terem passado ainda três semanas desde o dia em que este blog nasceu, dá gosto ver como ele tem crescido. Os seus participantes aumentaram um pouco, mas os conteúdos aumentaram muito.
Com o decorrer do tempo, o conteúdo do blog vai aumentando cada vez mais, o que faz lembrar uma bola de neve (cujo volume aumenta à medida que ela rola).
Mas não é só a quantidade dos conteúdos que aumenta. É também a qualidade dos mesmos. De facto, o que começou por uns pequenos textos sem pretensões evoluiu para a transcrição de textos literários em língua portuguesa alusivos a esta quadra do Natal, para o cuidado estético desses textos, para a colocação de fotografias alusivas a vários temas e, por último, para a colocação de desenhos feitos por um dos membros.
O que é mais interessante é que, à medida que aumenta o grau de dificuldade de cada «post», se verifica a necessidade de uma maior colaboração entre os vários membros – cada um segundo as suas capacidades – para se atingir o resultado final.
Um exemplo disso é o post «Ti Jorge» em que a Sónia Catarina teve a ideia e fez o desenho, o irmão José Afonso ajudou a trabalhá-lo informaticamente, o pai José Alves ajudou a colocá-lo no blog, e o tio Quim colaborou na redacção do texto explicativo.
A beleza deste blog traduz-se precisamente nesta realização conjunta, na partilha de experiências e na satisfação que isto dá a quem participa e a quem usufrui deste nosso trabalho voluntário.
Espero que este espírito se alargue a outras pessoas e que se mantenha por muito tempo.
sábado, dezembro 25, 2004
Breve explicação
Alguém poderá perguntar por que razão um dos mais conhecidos textos sobre Cristo e o Natal (o «Evangelho segundo Jesus Cristo», de José Saramago) não consta dos excertos literários postos neste blog.
A razão é esta:
Aquilino Ribeiro e José Saramago são ambos cépticos (sem fé).
Mas, enquanto o primeiro (no «Livro do Menino-Deus») aborda o tema do ponto de vista popular e com absoluto respeito pelas crenças do povo, o segundo trata o mesmo tema construindo um romance em que – apesar de seguir o texto evangélico – altera o carácter das personagens e o papel tradicional representado pelas mesmas.
E, o que é pior, intercala na narração comentários que são pessoais ou subjectivos, e que – se não terão qualquer gravidade noutro contexto – aqui se tornam ofensivos da crença e da cultura do povo português em geral.
Por isso, entendo que devo defender a crença religiosa dos «Lapas», não colocando aqui (nem deixando que outros coloquem) textos extraídos do romance do prémio Nobel acima referido.
É esta uma das prerrogativas de ser administrador do blog.
Aceitam-se comentários.
A razão é esta:
Aquilino Ribeiro e José Saramago são ambos cépticos (sem fé).
Mas, enquanto o primeiro (no «Livro do Menino-Deus») aborda o tema do ponto de vista popular e com absoluto respeito pelas crenças do povo, o segundo trata o mesmo tema construindo um romance em que – apesar de seguir o texto evangélico – altera o carácter das personagens e o papel tradicional representado pelas mesmas.
E, o que é pior, intercala na narração comentários que são pessoais ou subjectivos, e que – se não terão qualquer gravidade noutro contexto – aqui se tornam ofensivos da crença e da cultura do povo português em geral.
Por isso, entendo que devo defender a crença religiosa dos «Lapas», não colocando aqui (nem deixando que outros coloquem) textos extraídos do romance do prémio Nobel acima referido.
É esta uma das prerrogativas de ser administrador do blog.
Aceitam-se comentários.
quinta-feira, dezembro 23, 2004
Saudação
Olá a todos!
Sou a Graça Lapa.
A partir de agora, também sou membro deste blog.
De vez em quando virei aqui dizer-vos alguma coisa.
Por agora, só quero agradecer ao meu marido (Quim) e ao meu filho (Miguel) pelo seu entusiasmo na criação deste esplêndido meio de comunicação entre os «Lapas» e respectivos familiares.
Aproveito para desejar a todos vocês um Feliz Natal e um Bom Ano Novo!
Graça
Coimbra
As fotos de S. Paulo e de Newark são bonitas.
Mas, temos de mostrar também algumas imagens da nossa bela cidade de Coimbra.
Ficam aqui dois exemplos arranjados um pouco à pressa.
A primeira é uma imagem mundialmente conhecida da Universidade (parte antiga - onde se situa a Faculdade de Direito e o Instituto Jurídico); e a segunda é uma vista geral da cidade (centro histórico).
Mas, temos de mostrar também algumas imagens da nossa bela cidade de Coimbra.
Ficam aqui dois exemplos arranjados um pouco à pressa.
A primeira é uma imagem mundialmente conhecida da Universidade (parte antiga - onde se situa a Faculdade de Direito e o Instituto Jurídico); e a segunda é uma vista geral da cidade (centro histórico).
Menino-Deus
Inspirada pelos anjos, recostou-se na manjedoira, duas tábuas com outra de guarda armadas contra a parede. E voltando-se para oriente, no mais quieto e sossegado da noite, com o céu a destilar mel e cinamono, Maria deu à luz o Unigénito. Era bonito o bebé, com o que saiu verdadeiro o dizer dos Cantares de que o ventre daquela mãe era um campo de trigo donde brotaria uma papoila nunca vista. Mas quando os reis da Pérsia destinavam cento e oitenta milhões para gastos de cama e as almofadas em que nasciam e se criavam os infantes; enquanto o trono de Salomão era de marfim recamado de oiro e o seu reclinatório de púrpura bordada a prata e oiro e constelada de gemas, com uma guarda de sessenta núbios à roda – ele nascia num presépio sobre o retraço dos animais.
(…) Nasceu sem adjutório ou ministério de qualquer pessoa, sem queixa nem moléstia de sua santíssima mãe, antes, como anunciara Isaías, laetabunda et laudans, contentíssima e dando graças. Da mesma maneira que a árvore não sente dor quando despega o fruto maduro, assim sucedeu com ela. E como não – argumentam os doutores de pensar subtil – se a dor e tormento do parto correspondem ao deleite da concepção carnal, e ela fora alheia a todo o toque?
(…) As vozes são discordes quanto à presença ou não presença da túnica placentária, secundina lhe chamavam S. Jerónimo e as nossas avós, que devia cingir o corpinho do Menino-Deus.
(…) Muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca, como ideou S. Francisco no primeiro presépio e, após ele, quantos poetas souberam pegar em pincéis, e quantos rapsodos vazaram a rude palavra de romance nas ledas estâncias dos autos e mistérios. Se veio a cavalo de Nazaré, não admira que apareça uma burra a bafejar o inocentinho intanguido nas palhas nuas. Mas donde saiu a vaca?
(…) Foi a noite santa uma noite de prodígios. Ruiu em Roma o templo da Paz, explicando os intérpretes sagrados que, bem embora há quatro anos se não ouvisse ferrolhar na bainha a espada de um legionário, tinha ali fim aquela paz torpe, feita de violência sob a égide dos fáscios romanos, e começava outra, a paz em que o leão havia de comer a palha com o boi, segundo Isaías, aquela em que Cristo seria o primeiro ladrão, na frase de Santo Ireneu, despojando o rico em favor do pobre, paz proclamada desde o começo das idades pelas longas e sacabuxas de anjos e serafins:
- Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!
Essa noite viu-se orvalhada a terra sem se molhar o véu de Gedeão. Calaram-se os oráculos em quantos bosques sagrados cobriam a Hélade e a terra latina, e ouviram-se os lamentos flébeis das pitonisas e divindades voluptuosas mergulhando para todo o sempre no recesso das selvas e nas grutas que se cisparam uma vez por todas. O grande Apolo Pítio, para o qual corriam os devotos como abelhas para a flor da esteva, desapareceu a clamar:
- Um menino judeu manda-me tornar para o Orco! Adeus para sempre, adeus para sempre!
Em Roma esteve a correr azeite à franca para quem queria, e vieram da Suburra e até mesmo da oficina de Vénus que havia na Via Ápia mulheres munidas de celhas a apará-lo. As vinhas de Engadi deram uvas. Caíram ao chão no Egipto, despedaçando-se, os ídolos de bronze. Desfez-se também em bocados a estátua da Loba e até as letras sagradas se apagaram nas colunas votivas dos templos e das praças.
Mal o Menino veio à luz, sem uma mancha, branco e limpo que nem talhado em neve pura, beijou-lhe Maria os pés como a seu Deus e depois o rosto como a seu filho. E logo ele lhe sorriu um sorriso que a inundou de luz, sinal do sol rútilo que ia alvorecer para o mundo.
Enfaixou-o a mãe nos panos de beatilha com que viera preparada e chegou-o ao peito. Foi mamando, agora já de beicinhos roxos pelo frio, que os pastores o vieram encontrar com as oferendas. Traziam queijinhos de seus bardos, braçadas de flores, fruta e aves de capoeira. (…) Os pastores entraram de surrão, com suas mocas debaixo do braço, seus chapeirões contra o sol, a gaita a espreitar da algibeira. E, dobrando o joelho, o adoraram. A voz dum vulto que se escoava na noite dissera-lhes na primeira modorra:
- Ide à corte dos gados, à entrada de Belém, no caminho da cisterna de David, que nasceu lá o Messias!
Era então verdade? Os coxos e os trôpegos iam saltar como cervos? Ia raiar o sol da justiça para todos? Nunca mais o forte espancaria o fraco, nem o rico poderia jantar duas vezes enquanto ao pobre só restava o direito de morrer a louvar o Senhor?
Afirmam os teólogos que ali se operou miraculosamente a união dos termos mais antitéticos que o espírito pode conceber: - Deus e homem, virgem e mãe, eternidade e tempo, céu e terra, morte e vida, e a percepção de tal mistério pelo coração do homem. Os pastores, esses, esperavam a redenção humana do mal, do sofrimento, da dor e da agonia. Por isso, entoavam e a sua voz chamava a gente que passava para os agros na manhã alta:
- Gloria in excelsis Deo!!
Aquilino Ribeiro – “O Livro do Menino-Deus”
(…) Nasceu sem adjutório ou ministério de qualquer pessoa, sem queixa nem moléstia de sua santíssima mãe, antes, como anunciara Isaías, laetabunda et laudans, contentíssima e dando graças. Da mesma maneira que a árvore não sente dor quando despega o fruto maduro, assim sucedeu com ela. E como não – argumentam os doutores de pensar subtil – se a dor e tormento do parto correspondem ao deleite da concepção carnal, e ela fora alheia a todo o toque?
(…) As vozes são discordes quanto à presença ou não presença da túnica placentária, secundina lhe chamavam S. Jerónimo e as nossas avós, que devia cingir o corpinho do Menino-Deus.
(…) Muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca, como ideou S. Francisco no primeiro presépio e, após ele, quantos poetas souberam pegar em pincéis, e quantos rapsodos vazaram a rude palavra de romance nas ledas estâncias dos autos e mistérios. Se veio a cavalo de Nazaré, não admira que apareça uma burra a bafejar o inocentinho intanguido nas palhas nuas. Mas donde saiu a vaca?
(…) Foi a noite santa uma noite de prodígios. Ruiu em Roma o templo da Paz, explicando os intérpretes sagrados que, bem embora há quatro anos se não ouvisse ferrolhar na bainha a espada de um legionário, tinha ali fim aquela paz torpe, feita de violência sob a égide dos fáscios romanos, e começava outra, a paz em que o leão havia de comer a palha com o boi, segundo Isaías, aquela em que Cristo seria o primeiro ladrão, na frase de Santo Ireneu, despojando o rico em favor do pobre, paz proclamada desde o começo das idades pelas longas e sacabuxas de anjos e serafins:
- Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!
Essa noite viu-se orvalhada a terra sem se molhar o véu de Gedeão. Calaram-se os oráculos em quantos bosques sagrados cobriam a Hélade e a terra latina, e ouviram-se os lamentos flébeis das pitonisas e divindades voluptuosas mergulhando para todo o sempre no recesso das selvas e nas grutas que se cisparam uma vez por todas. O grande Apolo Pítio, para o qual corriam os devotos como abelhas para a flor da esteva, desapareceu a clamar:
- Um menino judeu manda-me tornar para o Orco! Adeus para sempre, adeus para sempre!
Em Roma esteve a correr azeite à franca para quem queria, e vieram da Suburra e até mesmo da oficina de Vénus que havia na Via Ápia mulheres munidas de celhas a apará-lo. As vinhas de Engadi deram uvas. Caíram ao chão no Egipto, despedaçando-se, os ídolos de bronze. Desfez-se também em bocados a estátua da Loba e até as letras sagradas se apagaram nas colunas votivas dos templos e das praças.
Mal o Menino veio à luz, sem uma mancha, branco e limpo que nem talhado em neve pura, beijou-lhe Maria os pés como a seu Deus e depois o rosto como a seu filho. E logo ele lhe sorriu um sorriso que a inundou de luz, sinal do sol rútilo que ia alvorecer para o mundo.
Enfaixou-o a mãe nos panos de beatilha com que viera preparada e chegou-o ao peito. Foi mamando, agora já de beicinhos roxos pelo frio, que os pastores o vieram encontrar com as oferendas. Traziam queijinhos de seus bardos, braçadas de flores, fruta e aves de capoeira. (…) Os pastores entraram de surrão, com suas mocas debaixo do braço, seus chapeirões contra o sol, a gaita a espreitar da algibeira. E, dobrando o joelho, o adoraram. A voz dum vulto que se escoava na noite dissera-lhes na primeira modorra:
- Ide à corte dos gados, à entrada de Belém, no caminho da cisterna de David, que nasceu lá o Messias!
Era então verdade? Os coxos e os trôpegos iam saltar como cervos? Ia raiar o sol da justiça para todos? Nunca mais o forte espancaria o fraco, nem o rico poderia jantar duas vezes enquanto ao pobre só restava o direito de morrer a louvar o Senhor?
Afirmam os teólogos que ali se operou miraculosamente a união dos termos mais antitéticos que o espírito pode conceber: - Deus e homem, virgem e mãe, eternidade e tempo, céu e terra, morte e vida, e a percepção de tal mistério pelo coração do homem. Os pastores, esses, esperavam a redenção humana do mal, do sofrimento, da dor e da agonia. Por isso, entoavam e a sua voz chamava a gente que passava para os agros na manhã alta:
- Gloria in excelsis Deo!!
Aquilino Ribeiro – “O Livro do Menino-Deus”
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