quarta-feira, abril 27, 2005

Doença


Infelizmente, este blog também serve para transmitir notícias tristes!...
A família do Brasil tinha razão ao pensar que tinha acontecido alguma coisa...
É que eu (Quim) tive um problema no intestino (uma estenose) e tive de ser operado com urgência no Hospital da Universidade de Coimbra.
Estive ali internado entre os dias 8 e 25 de Abril de 2005.
Eu não quis preocupar as pessoas e, por isso, pedi para não dizerem nada durante algum tempo.
Agora, já estou em casa e sinto-me melhor.
Mas, ultrapassada a primeira fase do tratamento, vou começar em breve a fazer quimioterapia.
Para isso, já me implantaram um catéter fixo no peito.
Espero que a quimioterapia consiga devolver-me a saúde e que tudo corra pelo melhor.

Por agora, é só isto.

Um abraço para todos.

Quim

quarta-feira, abril 20, 2005

Mais um aniversário!

É verdade, mais um membro deste nosso respeitoso blog fez questão de celebrar mais um aniversário!
Esse membro é o meu tio Jorge!
Não sei quantos anos ele fez, mas acho que anda por volta dos quarenta e dezassete!
Tio, que tenhas um dia feliz e cheio de saúde.
Quando estiveres por cá, avisa!

Muitos beijinhos e abraços de nós todos.

Miguel

À minha Lua

«Mamy! Ter um filho custa muito?» Pergunta-me com frequência a minha filha Joana.
É fácil perceber porquê: é mulher, e não há nenhuma que resista a um «beijo de carne» quer ele vá ao colo da sua mãe, ou escondidinho num carrinho. O olhar de uma mulher procura sempre uns olhinhos - que não sei definir - que lhe façam recordar os que um dia beijou 1000 vezes e eram apenas «seus». Mas, a este ímpeto está ligado indissoluvelmente o receio, o medo da dor.
Eu respondo, como quem não dá muita importância à pergunta...«Claro que não custa muito ter um filho.» E desenvolvo um arrazoado de ideias e argumentos para descrever a beleza e o amor que se sente e vive depois desse momento e experiência inesquecíveis. Mas, neste caso às 5 horas da tarde do dia 20 de Abril, quando nasceu a Joana, a resposta é plenamente verdadeira. A Joana não custou nada a nascer. O Doutor Mário Mendes cumpriu o que me prometera... Não sofrer. E eu não sofri. A Joana nasceu através de uma cesariana, pois o cordão umbilical estava todo enrolado à sua volta, prendendo-a ao calor do ventre materno, como que advertindo-a ou a demorá-la em sinal divinatório de como a vida é difícil e cheia de sofrimento.
Ela hoje, mulher que é, sabe isso. E embora me tenha dito aos 10 anos: «Mãe, não quero crescer!», julgo que ama a vida e é feliz por ter nascido. A sua vida nunca perdeu sentido até hoje, e isso é a essência do existir. Não tenho dúvida de que terá a força, o saber, e a vontade de não desistir de construir em cada dia a sua felicidade, a sua «Eudaimonia».
Ela saberá sempre conciliar a virtude da prudência com a do conhecimento; os valores que a família lhe transmitiu com a humanidade, e a ternura que a constituem como pessoa.
Ela foi e é a minha força, a minha «caixinha dos segredos». Quando me fala é sempre para me dizer algo profundo, algo que me ensina a viver melhor.
No dia 20 de Abril nasceu o segundo filho da minha mãe, o meu irmão Jorge a quem abraço e desejo uma vida feliz e cheia de saúde. Nesse mesmo dia (uns anos depois) nasceu o meu segundo filho - a Graça Joana.
Minha filha, o teu nome é da inteira responsabilidade do pai que te adora, e muito embora naquela altura me tenha provocado um sentimento de estranheza (continha o meu nome), hoje é o nome mais doce que posso pronunciar ou ouvir. E a tua voz, quando entra em casa e chama «Mamy», enche de luz a minha alma como a lua ilumina uma noite fria.

Amo-te muito minha querida.

A tua mãe,

Graça

Aniversário

Faz hoje 21 anos que nasceu nesta cidade de Coimbra aquela que é para mim a menina mais linda de todos os tempos.
É a minha filha Graça Joana.
Naquele ano de 1984, pelas 5 horas da tarde, o dia 20 de Abril era uma sexta-feira santa.
Desde então até hoje, nunca mais a sexta-feira santa voltou a coincidir com o dia 20 de Abril. E já lá vão 21 anos. Pode ser que um dia isso ainda venha a acontecer...
Por isso, nestes anos todos, eu sempre brinquei com a minha filha dizendo que ela fazia anos duas vezes por ano - 1 vez no dia de sexta-feira santa, e outra vez no dia 20 de Abril.

Não sendo muito alta, a minha filha não aparenta ter mais de 15 ou 16 anos, o que nem sempre é do agrado dela.
Por essa razão, e também porque a adoro muito, a minha filha há-de ser sempre para mim a minha pequenina.

Aqui fica um abraço muito grande e muitos beijinhos para ela.

O papá

Quim

sexta-feira, abril 15, 2005

Parabéns Teco!

Quem já passou por nossa casa, certamente conhece esta simpática personagem, de seu nome Teco.
Ele é um gatinho persa, e embora o senhor da loja onde ele foi adoptado tenha dito que ele era um «persa inglês», a verdade é que ele sempre miou no mais perfeito português.
Ele é um bicho pacato, humilde e simpático. Nunca o vi a arranhar ninguém sem ser em legítima defesa, e curiosamente convive cordialmente com toda a espécie de cães e de ratos.
Já com gatos a coisa muda de figura... Não sei se foi trauma de infância gerado pela cirurgia que fez com que passasse para todo o sempre a miar fininho, ou se é simplesmente medo que os seus donos se enamorem por outra criatura da mesma espécie. O que é certo é que o simples vulto de outro gato faz com que ele perca o discernimento e encete uma perseguição sem tréguas, que pode até chegar a vias de facto!
A verdade é que o Teco já não é nenhum jovem... Completou no passado dia 15 de Fevereiro onze primaveras, e a razão deste post é a celebração não do aniversário do seu nascimento, mas sim o aniversário do seu aparecimento em nossa casa! É que foi no dia 15 de Abril de 1994 que a minha mãe entrou em casa com uma caixa de cartão, anunciando a adopção do felino em questão.
Este acto foi na altura interpretado como sendo uma prenda de aniversário antecipada para a minha irmã, mas ainda hoje a sua propriedade é muito discutida...
O seu principal desporto é passear no jardim e saltar e deslizar pelas ombreiras das portas e das janelas.
Também gosta muito que lhe façam festas, e nem sequer se importa de servir de bola para os chutos "carinhosos" do meu pai.
Todos nós gostamos muito dele, e, apesar de por vezes nos pregar algumas partidas e de presentemente dormir cerca de 20 horas por dia, temos noção de que sem ele não haveria tanta alegria em nossa casa!


Parabéns Teco !


sábado, março 26, 2005

Aniversário

Olá Vinícius.
Não sabemos quantos anos fazes hoje.
Mas, a família que mora em Portugal espera que tu tenhas um dia muito feliz e divertido, que te dêem muitas prendas, que te vejas rodeado e acarinhado por aqueles que te amam, e que este dia se repita por muitos anos.
Muitos parabéns para ti e também para os teus pais (Regina e Sérgio).

Um grande abraço de nós todos.


P A R A B É N S !!!

Uma profissão de risco

Vivíamos na aldeia de S. João do Campo, perto de Coimbra.
O meu pai era o responsável pela vigilância do rio Mondego e seus afluentes desde Coimbra até à Figueira da Foz. Entre as suas competências contava-se a de proteger as margens da chamada vala do norte (um braço do rio), especialmente no tempo das cheias.
Com ele trabalhavam os guarda-rios que o acompanhavam a qualquer hora do dia ou da noite.
O seu zelo profissional não era bem aceite por uma parte da população, a qual costumava aproveitar essas alturas de inundações para atravessar os diques, ir à mata do Estado cortar árvores e arrastá-las na corrente até suas casas.
Esta actividade era proibida por lei. De facto, os troncos que eram conduzidos através da corrente provocavam a destruição dos diques, que tinham de ser reconstruídos a fim de protegerem os campos e as casas daquela zona.
Ora, todas as manhãs o meu pai ia encontrar os diques destruídos em vários sítios e as pessoas na maior aflição por terem as suas propriedades inundadas.
Para obviar a isto, o meu pai resolveu fazer a vigilância dos diques durante a noite.
É necessário que se diga que o meu pai tinha – por causa das suas funções – autorização de uso e porte de arma de fogo.
Logo que foram descobertos os vários infractores, estes foram multados e participadas as ocorrências ao tribunal.
Tendo visto frustrada a sua actividade criminosa, os referidos indivíduos juraram que um dia haviam de matar o meu pai.
E diziam pela aldeia fora para quem os ouvia:
- O senhor chefe só é destemido porque anda armado. Mas, um dia ele há-de ficar sem a pistola.
Contudo, o meu pai era muito corajoso e nunca se deixou intimidar. Assim, continuou a fazer a vigilância nocturna, muitas vezes sozinho.
Uma certa noite, ele saiu de casa para trabalhar. A minha mãe foi vê-lo sair à varanda do meu quarto. É que ela ficava muito aflita sempre que ele saía em missão de fiscalização.
Quando aquele estava prestes a chegar à esquina da casa, no cruzamento da povoação, a minha mãe deu um grito de aflição, exclamando:
- Cuidado, Manel!... Eles estão na esquina da loja e vão te matar!
Eu já estava a dormir na minha cama, e foi com este grito de aflição da minha mãe que acordei.
Soube depois que quatro indivíduos (alguns dos quais já eram ex-presidiários) tinham corrido para junto do meu pai, procurando imobilizá-lo e tirar-lhe a arma.
Para se defender, o meu pai ainda disparou um tiro para o ar.
Mesmo assim, eles conseguiram agarrá-lo, deram um golpe de navalha na mão que segurava a arma e tiraram-lhe esta.
A minha mãe continuou a gritar com toda a força que podia, repetindo sempre:
- Ah, seus malandros! Deixem o meu homem que ele tem filhos para criar e nunca vos fez mal.
Ao ouvirem o barulho, outros populares vieram às janelas de suas casas e gritavam de lá:
- Deixem o senhor Lapa.
Os quatro indivíduos puseram-se de imediato em fuga, levando com eles a arma da vítima.
Estando bastante ferido, o meu pai regressou logo a casa.
No dia seguinte, ele apresentou uma queixa-crime na esquadra da Polícia Judiciária de Coimbra.
O processo seguiu os trâmites legais, os quatro indivíduos vieram a ser condenados e a arma foi restituída ao meu pai.
Resta acrescentar apenas que esta arma acompanhou o meu pai durante toda a sua vida de funcionário público, uma vez que ele tinha uma profissão de risco e precisava de defender a sua vida e integridade física dos ataques dos criminosos.
Mas, embora essa arma lhe pertencesse, ele não quis continuar na sua posse nem deixá-la para os seus filhos na altura em que se reformou, com 70 anos de idade. Por isso, aquele decidiu entregar a pistola e os respectivos documentos na esquadra da Polícia de Segurança Pública mais próxima. [12]

sábado, março 19, 2005

Uma falsa acusação

Eu ainda não teria seis anos de idade. Os meus padrinhos Natália e André trouxeram-me da casa dos meus pais em S. João do Campo para a casa em que eles viviam, na rua Augusta, em Coimbra.
O tempo estava quente e decorria a Festa do Espírito Santo, em Santo António dos Olivais.
Numa dessas noites, tínhamos ido ver os carrosséis. O meu tio comprou-me dois lindos brinquedos: - um pequeno fogareiro de barro e uma cântara pequenina do mesmo material. Senti-me feliz. Mas, essa alegria não durou muito tempo. Aliás, as minhas alegrias nunca duravam muito tempo quando eu estava junto dos meus tios.
No dia seguinte, Domingo, de manhã cedo, acordei e fui para a cozinha brincar com os meus presentes.
Aquele dia decorreu normalmente.
Na segunda-feira à tarde, a minha madrinha chamou-me e disse-me:
- Não te chegou o que te comprámos? Ainda tinhas que ir roubar o dinheiro que estava em cima do frigorífico para ires à mercearia comprar rebuçados?
Eu fiquei sem fala!... Não fazia a mínima ideia do que ela estava a falar.
- Então, ficas aí com essa cara espantada e não dizes nada? – perguntou a minha tia.
Eu, timidamente, respondi-lhe:
- Eu não tirei dinheiro nenhum. Eu não comprei nada.
- És uma mentirosa
– disse ela. Aliás, com esses dentes assim raros, quem é que pode acreditar em ti? Não só roubas como ainda mentes. Mas, quando o teu pai vier cá almoçar amanhã, podes crer que lhe contaremos este episódio.
Ao final da tarde, o meu tio chegou das suas aulas no Liceu D. João III.
A primeira coisa que a minha tia lhe disse foi:
- Sabes, André? A tua sobrinha tirou os trocos que estavam em cima do frigorífico. E não só os tirou como ainda negou tê-lo feito.
Eu estava aterrorizada porque era habitual o meu tio bater-me por qualquer motivo.
Ele sentou-se num banco, encostou-se à mesa da cozinha e disse-me:
- É verdade o que a tua tia acaba de me contar?
Com as lágrimas a rolarem-me pela cara abaixo, e aos soluços, eu disse-lhe:
- Eu não tirei dinheiro nenhum.
Ao ver-me chorar assim, o meu tio disse:
- O teu pai vem cá amanhã almoçar connosco e já resolve esse problema.
Nessa mesma noite, rezámos o terço todos juntos, como era habitual. Eu rezava em voz baixa por me sentir muito triste. De repente, levei uma grande chapada do meu tio, ao mesmo tempo que ele me dizia:
- Quero ouvir a tua voz. Reza alto, ouviste?
No outro dia, o meu pai chegou para almoçar. Ainda me lembro bem da felicidade que ele tinha no rosto ao ver-me. Eu também fiquei feliz por o ver e agarrei-me ao pescoço dele. Então, dei largas à minha tristeza e chorei convulsivamente, agarrada a ele.
Perante isto, ele perguntou-me:
- Filha, o que é que tu tens?
Eu não conseguia largar-me do pescoço dele e parar de chorar.
A minha tia apressou-se a explicar as minhas lágrimas, narrando todas as falsas acusações que já antes me tinha feito.
Depois de a ouvir, o meu pai sentou-se num banco, muito triste, tirou-me os braços do pescoço e pôs-me no chão entre as suas pernas.
E perguntou-me:
- Minha filha, tu tiraste o dinheiro à tua tia? Onde é que o tens?
Eu respondi-lhe:
- Ó papá, eu não tirei dinheiro nenhum. Não sei onde ele está.
Enquanto eu falava com o meu pai, a minha tia ia dizendo:
- Ó Manuel, é natural. São crianças. Elas nem sequer sabem o valor do dinheiro.
O meu pai disse-me então:
- Pronto, filha, não te aflijas. Mas, não voltes a tirar dinheiro nenhum porque eu fico muito magoado contigo. Não foi isso o que eu te ensinei.
Almoçámos. O meu pai foi-se embora e eu continuei a viver naquela casa.
Os dias continuaram sempre iguais. Só eu não esquecia o que tinham feito comigo.
A partir dali, eu metia-me nos cantos, atrás das portas, debaixo das camas, dentro dos guarda-vestidos, em silêncio, e sempre a chorar.
Ao ver isto, foi a minha tia que tomou a iniciativa de dizer ao marido que tinham de me levar para casa dos meus pais.
Uma certa noite, enquanto rezávamos o terço, a minha tia ia arrumando a cozinha. Terminada esta tarefa, começou a limpar o chão da mesma cozinha.
Ao passar com a serapilheira por baixo do frigorífico, ouviu-se um ruído metálico. A minha tia desencostou o aparelho e – ao ver o dinheiro no chão – disse:
- Ó André, afinal as moedas estão aqui. Caíram para trás do frigorífico.
O meu tio continuou a rezar e não disse uma palavra sobre o assunto.
Terminado o terço, fomos todos para a cama sem qualquer alusão ao acontecido.
Eles terão pensado na altura que eu não me apercebi de que aquele dinheiro encontrado no chão era o mesmo que eles afirmavam que eu tinha roubado.
Mas, eu vi bem os olhares que eles trocaram entre si e percebi que aquelas moedas eram as mesmas (duas brancas e três pretas) que eles disseram que eu tinha roubado de cima do frigorífico.
Para aqueles adultos, uma criança como eu não valia nada.
Talvez por isso, eu tratei sempre os meus filhos com seriedade e justiça, como se eles fossem pessoas adultas.
Quando regressei ao seio da minha família (deixando para trás todos os brinquedos que aqueles tios me tinham dado) eu levava esta grande alegria para contar ao meu pai:
- Papá, a madrinha encontrou as cinco moedas no chão, atrás do frigorífico. Como vês, eu não as roubei.
Nessa altura, ele abraçou-me muito e levantou-me no ar.
Depois disse-me:
- Ó minha querida filha, eu acreditei sempre em ti. Sei bem que tu nunca me mentiste. E queres saber uma coisa? Os teus tios bem querem perfilhar-te, mas eu nunca deixarei que isso aconteça. Nunca! [11]

sábado, março 12, 2005

Um homem pobre...mas feliz

O meu pai ia com frequência para longe de casa durante vários dias para fazer a fiscalização dos rios e das ribeiras. Ele ia de camioneta até certos sítios e, a partir daí, a viagem era feita a pé pelas serras, a corta-mato, seguindo aqueles cursos de água.
Os subordinados do meu pai (guarda-rios) acompanhavam-no e iam mostrando a este o trabalho por eles feito, as infracções verificadas, as multas aplicadas, as licenças concedidas, e os casos mais complicados que podiam acabar no tribunal.
Nesses longos percursos, os guarda-rios chamavam por vezes a atenção do meu pai para a necessidade de fazerem uma pausa e de comerem alguma coisa do farnel que traziam consigo.
Diziam eles:
- Meu chefe, é melhor nós pararmos aqui e aproveitarmos para comer qualquer coisa.
E tiravam dos cestos de verga que traziam pedaços de carne, de broa, e uma garrafa de vinho.
O meu pai dizia-lhes:
- Podem sentar-se e comer à vontade porque eu ainda vou dar por ali uma volta.
Isto ia-se repetindo ao longo do dia, de modo especial quando os muitos quilómetros percorridos exigiam ao corpo algum descanso e uma refeição mais substancial.
Mas, a resposta do meu pai era sempre a mesma:
- Sentem-se e comam porque eu vou comendo mesmo a andar.
E, ao dizer isto, ele continuava a andar enquanto tirava alguma coisa da sua mochila.
O meu pai nunca se sentou a comer junto aos seus funcionários. Comia sempre caminhando, o que era interpretado pelos subordinados como um excesso de zelo.
Só à noite, quando chegava a casa esgotado, é que nós ficávamos a saber que o meu pai tinha levado na sua mochila apenas três ou quatro pães que comia enquanto andava e que dobrava ao meio para que parecesse que eles tinham alguma coisa lá dentro.
O meu pai era o chefe de lanço. Mas, era muito mais pobre do que os seus funcionários (guarda-rios) que viviam nas aldeias remotas das serras e aí possuíam algumas terras que também agricultavam.
O meu pai sempre foi zeloso e cumpridor. Mas, aquilo que parecia um excesso de zelo era afinal um certo pudor em mostrar a sua pobreza.
Hoje, ao recordar estes factos, e tendo em conta as muitas ofertas que os guarda-rios faziam ao meu pai ao longo do ano (dizendo sempre “É para os seus meninos” – porque sabiam bem que este não aceitava nada para si), fico convencida de que aquele não conseguiu ocultar totalmente aos outros a pobreza de quem só tinha o seu magro ordenado de funcionário público e tinha sete filhos para criar. [10]

quinta-feira, março 10, 2005

Kinas Forever

tou a ver k este blog tem estado a crescer nao so no num de visitas como tambem na quatidade de pessoas k postam nele, parabens ao blog! vejam so k agora até a minha mae posta neste blog, ela k e dada às novas tecnologias!......
continua assim tio Kinas!

terça-feira, março 08, 2005

Aniversário

Olá Lucas:

Só hoje soubemos que tu fizeste 12 anos no passado dia 19 de Fevereiro.
Já não vamos a tempo de te desejar um feliz dia de aniversário.
Mas desejamos que todo este ano seja para ti cheio de saúde e alegria, com muito amor dos teus pais (Sérgio e Rosângela) e da tua irmã (Paula) e também com muitos êxitos nos teus estudos.
Muitos beijinhos da família de Portugal.

sábado, março 05, 2005

A verdade acima de tudo

O meu irmão Francisco tinha nascido no Hospital da Lousã.
Todos nós estávamos ansiosos por ir lá conhecê-lo.
O meu pai comprou na praça – sabe Deus com que dificuldade – um grande cacho de lindas bananas.
Depois de retirar as compras dos sacos, na cozinha, disse para os filhos ali presentes:
- Estas bananas são para nós levarmos à mamã, na visita que amanhã faremos ao Hospital.
Aquele dia passou.
No dia seguinte, um Domingo, o meu pai vestiu e arranjou os filhos. Depois, preparou-se para embalar o presente que ia levar à sua esposa. Então, deu-se conta de que tinham sido comidas muitas daquelas bananas.
Ao ver isto, o meu pai ficou muitíssimo perturbado. Assim, resolveu chamar todos os filhos à sua presença.
O tom de voz que ele utilizou era aquele que nós bem conhecíamos e que a todos aterrorizava.
Colocou os filhos em fila por ordem decrescente de idades, e a cada um deles perguntou se tinha sido ele que tinha comido as bananas.
A forma como foi feita aquela pergunta mostrava bem que o meu pai não admitia que alguém faltasse à verdade.
O interrogatório começou pelo Vítor, na altura com 18 anos. E terminou no Henrique, que então contava 7 anos.
Todos disseram que não tinham sido eles a comerem as bananas.
Perante isto, o meu pai decidiu:
- Então, vocês vão ser todos castigados. E começo já pelo mais velho que fica aqui comigo. Os outros vão embora, que eu depois vou chamando um de cada vez.
Os meus irmãos começaram a sair lentamente.
De imediato, eu resolvi dar um passo em frente e dizer ao meu pai:
- Papá, não lhes bata. Fui eu que comi aquelas bananas.
O meu pai mudou logo o seu tom de voz. E mandou que saíssem todos imediatamente da sala. Só ali fiquei eu e ele.
Aquele fixou o seu olhar no meu e disse-me:
- Nunca mais voltes a mentir. Eu conheço-te muito bem e sei que não foste tu a comer as bananas. Quem as comeu foi a Rosa e o Henrique. Mas, com a atitude que tu tomaste, impediste-me de os educar. Desta vez eu desculpo-te, porque sei que só o fizeste por amor a todos os teus irmãos.
Este episódio é um pouco triste. Sobretudo por ter acontecido num dia que devia ser só de alegria por irmos visitar pela primeira vez o meu irmão mais novo que acabara de nascer.
Hoje, porém, eu compreendo um pouco o meu pai. Ele tinha imenso gosto em levar aquelas bananas à esposa porque sabia bem que ela gostava muito delas e que se tratava de uma fruta que raramente era comprada em minha casa.
Recordo este facto porque ele mostra bem que o meu pai tudo fez para nos ensinar a nunca faltarmos à verdade.
Essa regra de conduta tem sido o princípio orientador de toda a minha vida e é também aquilo que eu procuro transmitir aos meus filhos, tendo a felicidade de verificar que eles compreenderam bem este valor. [9]

domingo, fevereiro 27, 2005

Minha querida mãe

A minha mãe faz hoje 79 anos e ainda é uma linda mulher.
Ela é linda por fora e é também linda dentro.
Tenho alguma dificuldade em escrever porque me sensibilizo muito e as lágrimas me enchem os olhos sempre que penso ou falo dela.
A minha mãe é o meu modelo de vida.
Foi ela que formou a minha personalidade e fez de mim o que hoje sou.
Sempre aspirei a ser como ela foi toda a vida.
Ela é uma mulher muito prudente e inteligente e eu sempre a admirei por isso.
Ela foi e ainda é o sustentáculo da família, o elo de união e a ponte entre todos os elementos.
Ela está sempre presente, nunca me faltou até hoje. Se eu telefonasse, se eu tocasse à campainha da casa, se eu a chamasse, ela lá estava sempre disponível e solícita.
A minha mãe deu-me segurança para toda a minha vida.
Sempre tentei ser como ela.
Por isso, procuro ser o elo de ligação entre toda a minha família, tento fazer a paz e a união entre todos.
Foi isso o que a minha mãe sempre fez.
Era a ela que, já depois de casada e em épocas de dificuldade, eu recorria a pedir ajuda económica ou a pedir conselhos.
E ela lá estava sempre… sempre!
A minha mãe nunca me faltou nas horas em que mais precisava.
Era com ela que eu partilhava as minhas alegrias e sonhos e que eu desabafava as minhas angústias e receios. Ela sempre soube guardar tudo, tentando ajudar-me conforme as suas possibilidades. Nunca guardou rancor aos que me faziam sofrer e sempre me ensinou a proceder da mesma maneira.
A minha mãe só me traz à memória coisas boas.
Gosto muito, mas mesmo muito, da minha mãe.
Ela pode contar comigo para sempre.

Querida mamã:
Um milhão de beijos muito repenicados é o que, por este meio, te manda a tua filha que te ama muito

Rosa

A minha mãe volta à vida

Eu vinha do colégio de Santo António, na Lousã. O frio era intenso. Entrei pelo portão do fundo do quintal, atravessei a eira e subi as escadas da varanda a correr. Chamei pela minha mãe. Era hora do lanche e eu vinha cheia de frio e de fome. Abri a porta da cozinha, dei a volta à casa, pousei os livros, e saí de novo para a varanda pela porta do quarto dos meus pais.
O único ruído que se ouvia era o da tesoura que podava as videiras.
Voltei a chamar a minha mãe, enquanto me dirigia para o quarto da roupa, onde ela costumava coser e passar a ferro.
Abri a porta do quarto e vi logo a minha mãe sentada no divã com os pés sobre o estrado que suportava a braseira de carvão. Olhei para ela e apercebi-me logo que a mesma não estava bem porque se limitava a fazer-me gestos e não articulava qualquer palavra. Dirigi-me a ela, agarrei-a por baixo dos braços e puxei-a para mim para evitar que ela caísse na braseira. A minha mãe – quase sem forças e suspensa em mim – inclinou-se em direcção à porta do compartimento. Eu arrastei-a como pude até à varanda. Aí, ela estendeu os braços e agarrou-se com ambas as mãos ao parapeito da varanda.
Neste momento, apercebi-me que as mãos da minha mãe perderam toda a força e estavam a escorregar lentamente para o chão da varanda. De imediato, vi o corpo dela a cair, batendo com a cabeça na parede da casa e estatelando-se no chão. Tinha desmaiado.
Peguei-lhe nos braços e, gritando como louca pelo meu pai que estava a trabalhar no lanço, tentei arrastá-la pelo chão da varanda em direcção ao seu quarto. Mas, ela era tão pesada que a deixei e corri sempre a gritar pelo meu pai para a porta que dava acesso ao lanço.
Quando abri esta porta, já o meu pai estava no cimo das escadas.
Ao vê-lo, eu gritei-lhe:
- A mamã está morta!...
O meu pai puxou a minha mãe até ao meio da varanda, junto à janela do quarto dos meus irmãos.
Nesta altura, eu notei que a minha mãe estava completamente roxa e com os olhos abertos e todos brancos.
O meu pai meteu as mãos na boca da minha mãe e tentou separar-lhe os maxilares, enquanto dizia:
- Lurdes, abre a boca… Não me trinques…
O esforço do meu pai foi enorme, mas lá conseguiu abrir a boca dela o suficiente para lhe introduzir o lenço de assoar, a fim de impedir que ela voltasse a fechar a boca.
Logo a seguir, com os dedos, aquele puxou-lhe a língua que se encontrava enrolada.
Ao mesmo tempo, ia dizendo sempre:
- Lurdes, não morras, não morras. Eu não te deixo morrer.
Depois de o meu pai conseguir abrir totalmente a boca e desenrolar a língua da minha mãe, eu verifiquei que ela começava a ficar menos roxa, ao mesmo tempo que ouvia alguém atrás de mim a dizer:
- Ela já respira, Sr. Lapa. Já não morre, já não morre.
Era o senhor que andava a podar as videiras e que tinha acorrido, ao aperceber-se de que algo de grave se estava a passar.
O meu pai continuava a chamar pela minha mãe e a tentar dialogar com ela, enquanto as lágrimas caíam abundantemente sobre o peito da esposa.
Passados longos minutos, a minha mãe fixou os olhos no meu pai. Mas, continuava deitada no chão e ainda não conseguia falar.
Nesta altura, o meu pai pediu-me:
- Vai buscar qualquer coisa para cobrir a tua mãe.
Eu fui buscar um cobertor e cobri-a, enquanto o meu pai continuava sempre a manter-lhe a boca aberta e a segurar-lhe a língua.
Para mim, que na altura tinha onze ou doze anos, tudo isto durou uma eternidade.
A pouco e pouco, notámos que a minha mãe começava a recuperar a sua cor natural, a mexer a cabeça e os olhos, e a mostrar sinais de consciência e de profundo cansaço.
Durante este tempo de espera, eu narrei ao meu pai como tinha encontrado a minha mãe e tudo o que tinha acontecido antes de ele chegar.
Foi então que o meu pai me disse:
- Ó filha, foste tu que salvaste a tua mãe!...
Com a ajuda do senhor podador, o meu pai levou a minha mãe para a cama.
Passado mais algum tempo, a minha mãe tirou o lenço da boca, olhou em volta, e perguntou:
- O que é que me aconteceu?!... Só me lembro de estar à braseira…
Nesta altura, o meu pai explicou-nos que a minha mãe tinha sido intoxicada pelos gases libertados pela combustão do carvão na braseira e por se encontrar num compartimento fechado.
Só há pouco tempo, quando recordava este acontecimento, é que fiquei a saber que a Rosa e o Henrique – que andavam no quintal a ver podar as videiras – tinham também assistido a este regresso da nossa mãe à vida.
Para terminar, gostava de referir apenas o seguinte:
Se é verdade que a minha mãe teve alguns momentos menos felizes na sua convivência com o meu pai - quase todos por causa da educação dos filhos - também é verdade que este homem toda a vida a adorou e que só teve olhos para a ela.
Em relação a este episódio, parece-me que o mesmo mostra bem que a minha mãe deve a vida ao meu pai e não a mim, como ele na altura afirmou. [8]

Aniversário

Hoje, dia 27 de Fevereiro de 2005, a D. Lurdes da Cruz do Carmo faz a bonita idade de 79 anos.
É um dia de festa para os seus filhos e filhas, para os seus genros e noras, e para os seus netos e netas.
Infelizmente, o marido dela não pode associar-se à festa. Mas sabemos que ele está muito bem tratado e que aparenta não ter dores.
Todos aqueles desejam que a sua mãe, sogra ou avó tenha um dia de aniversário muito feliz, que a sua saúde melhore cada vez mais e que continue connosco durante muitos e bons anos.
Para comemorar esta data, vamos fazer o seguinte:
A filha Graça recorda um episódio da vida da mãe (que será colocado no blogue já em seguida).
A filha Rosa inscreveu-se no blogue e vai recordar também os melhores momentos que viveu com a mãe.
À tarde, vamos ver se é possível uma ligação por MSN (áudio e vídeo) com o Brasil, onde se encontra o Sr. Polívio – irmão da D. Lurdes – e respectiva família.
À noite, vamos cantar-lhe os parabéns e fazer uma pequena festinha, onde não faltará um bolo de aniversário com muitas velas e um bocadinho do seu manjar preferido (o leitão assado à moda da Bairrada).
Pode ser que tiremos também uma fotografia para pôr aqui no blogue.
Quem quiser associar-se a nós pode fazê-lo pelo blogue, pelo MSN, por telefone, ou então estar presente na tal festinha.
Muitos parabéns, D. Lurdes.

sábado, fevereiro 26, 2005

A prova de honestidade

O tesoureiro da Hidráulica do Mondego, que era vulgarmente chamado de pagador, a braços com o excesso de trabalho na tesouraria, dirigiu-se um dia ao gabinete do Sr. Director, dizendo-lhe que tinha necessidade urgente de um auxiliar de confiança.
E rematou a sua pretensão da seguinte forma:
- Mas tem de ser uma pessoa de absoluta confiança, porque neste serviço manuseiam-se milhares e milhares de contos e eu tenho tido muitos problemas com o pessoal que me mandam para lá.
Quando se dirigia já para a porta, o Director perguntou-lhe de uma forma simples e directa:
- Tem preferência por algum dos contínuos? É que eu só posso dispensar funcionários dessa categoria.
O pagador parou, deu um passo em direcção ao Director, e indicou-lhe então o nome de um dos contínuos.
O Director respondeu-lhe que estava de acordo com a escolha. Mas, advertiu o pagador que este teria de assumir pessoalmente toda a responsabilidade por eventuais desencontros de contas (ou seja, desvios de dinheiro), como os que vinham acontecendo habitualmente.
Ao ouvir isto, o pagador retorquiu:
- Não, senhor Director. Isso nunca! Está fora de questão. Eu não me responsabilizo por nenhum homem que vá para lá. Estou farto de me enviarem para a tesouraria ajudantes desonestos que só me criam problemas.
Perante uma tal resposta, o Director olhou calmamente o pagador e observou-lhe:
- Então, vou propor que o seu ajudante seja o Lapa.
Com um ar admirado, o pagador perguntou:
- Porquê esse homem, se ele não tem experiência nenhuma de contabilidade?
O Director respondeu:
- Porque eu só confio no Lapa. E, por ele, sou eu próprio que me responsabilizo.
- Então, está decidido. Vai o Lapa para junto de mim
– disse o pagador.
Deve dizer-se, em abono da verdade, que o pagador não tinha deste homem (o Manuel Lapa) a mesma impressão que o Director. Para além de ele ser muito pobre, tinha ainda uma ranchada de filhos…
O tempo foi decorrendo e chegou o momento das férias do pagador.
Este deixou no cofre o dinheiro dos salários de todos os trabalhadores. Mas, para além do que era devido, deixou ali um excedente bastante grande.
Ao despedir-se do seu ajudante, o pagador disse a este:
- Ó Lapa, o dinheiro do cofre está certo. Não quero que haja quaisquer falhas na minha ausência.
Quando regressou das férias, o pagador encontrou o seu ajudante a trabalhar tranquilamente.
- Então, novidades? Correu tudo bem na minha ausência? – perguntou. As contas bateram todas certas?
Ao ouvir esta última pergunta, algo inquietou o espírito do pobre ajudante, que lhe respondeu de imediato:
- Não, senhor pagador. As contas não bateram certas. Eu acho que não me enganei no pagamento dos salários aos trabalhadores porque todos vieram aqui buscar os seus envelopes, confirmaram as quantias, e nenhum deles se queixou. O certo é que ainda sobrou muito dinheiro, o qual está ali guardado no cofre. O senhor pagador saberá que rumo lhe há-de dar.
O pagador dirigiu-se ao cofre, contou o dinheiro, e disse ao Lapa:
- O teu Director confiava plenamente em ti. Agora, também eu confio.
Naquele momento, o meu pai compreendeu que tinha sido posta à prova a sua honestidade. E contava muitas vezes este episódio aos seus filhos.
A este propósito, e a título pessoal, devo acrescentar que foi este senhor pagador que me deu a mais bonita boneca que eu alguma vez tive, com a qual os meus filhos também brincaram, e que ainda hoje guardo com gosto.
A essa boneca eu dei o nome de Leonilde, por assim se chamar a minha professora da terceira classe, que eu adorei e de quem tenho uma grata recordação.
Mas, nunca poderei esquecer também a profunda tristeza que a minha irmã Rosa sentiu naquela altura por não ter sido contemplada com um presente igual. Esse sentimento impediu que a minha alegria tivesse sido total, já que eu fiquei dividida entre o amor que nutria pela minha irmã e a paixão que tinha pela boneca. [7]

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Aniversário

Olá Sérgio:

A família Lapa e Cruz do Carmo residente em Portugal deseja que você tenha um dia de aniversário muito feliz aí no Brasil, na companhia de sua esposa Regina e de todos os seus entes mais queridos.

Parabéns!

sábado, fevereiro 19, 2005

Um jantar estragado

A minha mãe desencostou a mesa rectangular da parede da cozinha. Pôs a toalha e os pratos sobre ela. Os bancos foram distribuídos e eu sentei-me no lugar que me pertencia. À cabeceira da mesa, sentou-se o meu pai.
A minha mãe começou a servir a sopa e cheirou-me de imediato a nabos. Eu nem queria acreditar que tinha de comer sopa de nabos!... O estômago revoltava-se-me e todos sabiam que eu não conseguia comer um tal manjar. Diante do prato da sopa, eu nem pegava na colher. Ouvia os meus irmãos a comerem, mas eu nem tirava os olhos do prato nem segurava a colher.
De repente, o meu pai grita-me:
- Fazes o favor de pegar na colher e de começar a comer?
E ficou a olhar fixamente para mim.
A minha mãe balbuciou algumas palavras para me incentivar a comer (do género “Eu já te pus tão pouca sopa…”). Mas, para mim, aquilo era uma imensidão de sopa de nabos.
Sentia os olhos do meu pai fixos em mim. E, de cotovelos na mesa, segurava a cabeça.
O meu pai voltou a dizer-me com cara de poucos amigos:
- Fazes o favor de começar a comer? Ou queres que eu me levante?
Eu arredei para trás o banco, levantei-me, e – do alto dos meus nove ou dez anos – bati com o pé no chão, dizendo:
- Esta sopa eu não como!...
O meu pai apareceu de repente ao pé de mim, puxou-me por um braço, afastou-me da mesa e deu-me um par de chapadas que ainda hoje me doem.
Perante isto, a minha reacção instantânea foi a de me abraçar fortemente ao meu pai e gritar-lhe:
- Papá querido, eu gosto tanto de ti.
O meu pai acalmou-se um pouco e tirou as minhas mãos da sua cintura, enquanto eu repetia vezes sem conta:
- Papá, eu gosto tanto de ti.
De seguida, o meu pai saiu da cozinha.
Voltei a sentar-me à mesa e a minha mãe tirou-me a sopa da frente.
Já não recordo o que comi a seguir. Mas sei que, enquanto eu comi alguma coisa juntamente com os meus irmãos, a minha mãe – que tinha ido ver do marido e que regressara – pegou no prato do meu pai e voltou a pôr a sopa na panela.
Olhámos todos uns para os outros e ninguém ousou dizer uma única palavra.
Findo o jantar, chegou a hora de nos deitarmos.
Para me dirigir ao meu quarto, eu tinha que passar pelo quarto dos meus pais. Então, descobri que o meu pai já se tinha deitado há muito.
Naquela noite, ele ficou sem jantar por minha causa.
Posso dizer que o meu pai nunca me tinha batido antes e que nunca mais me voltou a bater. Mais tarde, ele explicou-me que o que o magoara mais foi eu ter-lhe batido o pé.
Daí em diante, sempre defendi as minhas convicções. Mas, nunca mais ousei bater o pé a ninguém.
Hoje não tenho qualquer dúvida de que aquelas duas chapadas custaram bem mais ao meu pai do que a mim própria.
E assim aprendi que, afinal, os pais também sofrem quando castigam os filhos. [6]

domingo, fevereiro 13, 2005

Imprimir o blog

Há já algum tempo, eu tive uma ideia que hoje venho partilhar convosco.

É o seguinte:
Eu comecei a imprimir cada um dos «posts» deste blog e fiz uma pasta de argolas (ou um dossiê), organizando-a da mesma forma que está o blog (os «posts» mais antigos em baixo; os mais recentes em cima).
Para a coisa ficar bem feita, deve proceder-se assim:
Do lado direito da página do blog aparece uma coluna que diz «previous posts». Aparecem ali os últimos «posts» (mas é possível fazer aparecer mais clicando - nos «Archives» - no mês de Fevereiro ou nos meses anteriores).
Ao clicarmos sobre um «post», abre-se apenas esse «post».
Depois de aberto esse «post», mandamos imprimir (só é impresso esse «post» e os respectivos comentários).
Se não se fizer assim, o computador imprime todos os «posts» a seguir uns aos outros.
Ora, o ideal é que fique um «post» em cada página (só os maiores é que ocupam várias).
Depois, proceder da mesma forma para todos os outros «posts» até ao primeiro.
A impressão pode ser feita a preto e branco ou a cores (as fotografias serão impressas de qualquer maneira).
Qual é o interesse disto?
É que nós podemos ter sempre à mão o blog, e consultá-lo ou mostrá-lo em qualquer situação.
Depois, há pessoas que não têm computador ou não sabem ver lá o blog.
Assim, essas pessoas podem ler os «posts» com toda a calma e guardar todo o blog.
É o que sucede no blog «Lapa-Mundi» em relação à minha sogra D. Lurdes (e também sucede isso em casa da minha tia e minha mãe com o outro blog que eu tenho - que é chamado «Todos-os-Gomes», sendo igual o resto do endereço).

Espero que gostem desta ideia e que ela vos traga muitas alegrias.

Um abraço para todos.

Quim

sábado, fevereiro 12, 2005

Um dia de anos diferente

Acordei feliz por ser o dia dos meus anos.
Até a escola me parecia ser um lugar mais agradável naquele dia.
Passei pelo quarto dos meus pais. A minha mãe dormia ainda, mas o meu pai já tinha saído para a serra em serviço de fiscalização.
Ia passando pelos meus irmãos e a todos anunciava:
- Hoje faço anos!
Alguns davam-me os parabéns. Outros apressavam-se a comer o pão para irem apanhar o comboio que os levava para o Liceu em Coimbra.
Aquele dia parecia ser igual ao anterior. E, como acontece em todos os dias de anos, é só no nosso espírito (na nossa esperança) que eles são diferentes.
A noite chegou e o meu pai tardava em regressar.
Estávamos a jantar quando sentimos bater a porta da varanda que dava acesso ao lanço (escritório do meu pai).
- O vosso pai chegou – disse a minha mãe.
Eu fiquei toda contente, à espera de um presente de anos.
Quando entrou, o meu pai dirigiu-se imediatamente a mim e, ao mesmo tempo que despia a gabardina, disse-me:
- Levanta a aba do teu vestido.
Depois, começou a tirar castanhas de todos os bolsos e a pôr-mas no regaço.
E acrescentou:
- Estas castanhas foram todas apanhadas por mim nos ouriços que encontrei no caminho. O meu guarda-rios, ao ver-me fazer isto, e porque já estava a fazer-se tarde, ainda me disse: - “Ó meu chefe, quando chegarmos a minha casa, eu dou-lhe um saco delas. Não precisa de estar a perder tempo a apanhá-las. É coisa que de que não tenho falta”. Mas, eu disse-lhe apenas que tinha de encher os bolsos com castanhas que fossem apanhadas por mim.
Depois, o meu pai prosseguiu:
- E assim apanhei mais algumas castanhas. É que eu não tinha outro presente para te dar pelos teus anos. Por isso, resolvi dar-te algo que obtivesse pelo meu esforço, pelo meu trabalho, enquanto pensava em ti.
Por fim, dirigiu-se à minha mãe e acrescentou:
- Tens um grande saco de castanhas no lanço. Podes ir lá buscá-lo.
Então, eu senti que as castanhas que o meu pai me deu eram muito especiais e que tinham muito valor. Elas mostravam bem que ele não se tinha esquecido de mim (que me teve presente no seu coração) e que queria dar-me alguma coisa que fosse mesmo dele.
Afinal, aquele dia de anos foi bem diferente!...
E eu aprendi que, mesmo os que são pobres, podem com pequenos gestos mostrar aos seus filhos o amor que têm por eles. [5]