quinta-feira, junho 23, 2005

Parabéns, poesia e "seca"

Cá vai mais uma "seca" sobre a guerra colonial.
Aproveito para endereçar os meus parabéns à Ana, e claro os da Inês, pelo belo lançamento do belo livro da ternurenta Geraldina, se a Ana não tiver a pachorra de vir ler isto, o que abona a seu favor, nós dar-lhos-emos pessoalmente numa próxima oportunidade.

Parabéns também para o Luís. – Olha que o Ricardo Reis era um "homem" avisado.
Miguel Torga também…Já agora, esta é a minha prenda:

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.


Agora a "seca"
Eu costumava dizer que usava uma 7,35 às costas (referindo-me ao calibre da G3) e uma 35mm nas mãos (referindo-me à película usada pela minha máquina). Era uma piada que resultava naquele ambiente militar em que a potência das armas se reconhece pela medida do cano e em que uma foto da guerra podia ter a força de uma arma.

Os meus camaradas habituaram-se a ver-me de câmara na mão e de arma às costas e ainda hoje, parece, é assim que me recordam. E o que é mais lisonjeiro, é que recordam isso – a julgar pela forma como, alguns pelo menos, o referem – não como uma excentricidade irresponsável, mas como uma atitude corajosa.
Confesso que às vezes, vezes demais, tive que trocar a posição desses dois objectos e confesso que o fiz quando essa coragem, se coragem era, dava lugar ao primário instinto de sobrevivência. Mas a guerra é o último lugar onde se deve procurar um herói.
É esse conflito, presumo, que está na origem do distúrbio psiquiátrico, conhecido como PTSD, ou stress de guerra, como se tornou comum dizer em Portugal e, mais comummente ainda, "apanhados do clima" ou "cacimbados".

As fotos foram tiradas durante um golpe-de-mão (assalto) a uma "suposta" base da FRELIMO. Na de cima, o soldado à minha frente avança disparando de modo a fazer uma barreira de fogo ao seu avanço. Na de baixo um "suposto" guerrilheiro sai ferido de uma palhota. Vê-se mal, ou o rolo teria sido apreendido pelo controlo do correio de Mueda como outros que nunca me chegaram às mãos. (Eu mandava-os para Hamburgo para revelar.)

PTSD, stress de guerra, cacimbo, ou seja lá o que for, só em determinado grau de gravidade é que se considera uma doença, mas a fronteira nem os técnicos sabem ao certo onde se encontra. É uma doença da memória, que nos meus fracos dotes poéticos tive a ousadia de evocar neste post, felizmente, apenas como exercício literário.
As restantes fotos que o ilustram foram igualmente tiradas no referido ataque à referida base da FRELIMO no meio da mata virgem da África profunda. Olho para elas e, sinceramente, não acredito que estive lá.
Posted by Hello

3 comentários:

Joaquim Gomes disse...

Amigo Manuel:

Por mero acaso assisti à colocação deste seu «post».
Você manobra muito bem estas ferramentas do Blogger e do Hello (como na guerra fazia, por certo, com a arma e com a máquina fotográfica).
As fotografias podem ser aumentadas, o que permite uma visão muito melhor do assunto.
Não acho que sejam uma «seca» estas suas crónicas sobre a guerra colonial.
Pelo contrário, são muito interessantes e esclarecedoras para quem não esteve naquela guerra que os ricaços deste país impuseram ao povo pobre do mesmo e aos povos explorados daquelas colónias.
Também é muito bonito o soneto de sua autoria que se encontra no blog «cacimbo».
Peço-lhe, pois, que continue a maravilhar-nos com as suas memórias e com a sua arte.
Muito obrigado.

Quim

Joaquim Gomes disse...

Manuel:

Eu tomei a liberdade de pôr a negrito (bold) o nome de Miguel Torga e o poema dele que você ofereceu como prenda ao nosso amigo Luís.
Espero que não se importe.
A intenção foi tornar a prenda mais enfeitada e o «post» mais bonito.

mcbastos disse...

Fez bem, ficou melhor assim.(Quando li os seus elogios acerca dos meus dotes de "blogger" pensei para comigo que até fazia coisas ser dar por isso.)