Aproveito para endereçar os meus parabéns à Ana, e claro os da Inês, pelo belo lançamento do belo livro da ternurenta Geraldina, se a Ana não tiver a pachorra de vir ler isto, o que abona a seu favor, nós dar-lhos-emos pessoalmente numa próxima oportunidade.
Parabéns também para o Luís. – Olha que o Ricardo Reis era um "homem" avisado.
Miguel Torga também…Já agora, esta é a minha prenda:
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
Agora a "seca"
Eu costumava dizer que usava uma 7,35 às costas (referindo-me ao calibre da G3) e uma 35mm nas mãos (referindo-me à película usada pela minha máquina). Era uma piada que resultava naquele ambiente militar em que a potência das armas se reconhece pela medida do cano e em que uma foto da guerra podia ter a força de uma arma.

Os meus camaradas habituaram-se a ver-me de câmara na mão e de arma às costas e ainda hoje, parece, é assim que me recordam. E o que é mais lisonjeiro, é que recordam isso – a julgar pela forma como, alguns pelo menos, o referem – não como uma excentricidade irresponsável, mas como uma atitude corajosa.
Confesso que às vezes, vezes demais, tive que trocar a posição desses dois objectos e confesso que o fiz quando essa coragem, se coragem era, dava lugar ao primário instinto de sobrevivência. Mas a guerra é o último lugar onde se deve procurar um herói.
É esse conflito, presumo, que está na origem do distúrbio psiquiátrico, conhecido como PTSD, ou stress de guerra, como se tornou comum dizer em Portugal e, mais comummente ainda, "apanhados do clima" ou "cacimbados".
As fotos foram tiradas durante um golpe-de-mão (assalto) a uma "suposta" base da FRELIMO. Na de cima, o soldado à minha frente avança disparando de modo a fazer uma barreira de fogo ao seu avanço. Na de baixo um "suposto" guerrilheiro sai ferido de uma palhota. Vê-se mal, ou o rolo teria sido apreendido pelo controlo do correio de Mueda como outros que nunca me chegaram às mãos. (Eu mandava-os para Hamburgo para revelar.)
PTSD, stress de guerra, cacimbo, ou seja lá o que for, só em determinado grau de gravidade é que se considera uma doença, mas a fronteira nem os técnicos sabem ao certo onde se encontra. É uma doença da memória, que nos meus fracos dotes poéticos tive a ousadia de evocar neste post, felizmente, apenas como exercício literário.
As restantes fotos que o ilustram foram igualmente tiradas no referido ataque à referida base da FRELIMO no meio da mata virgem da África profunda. Olho para elas e, sinceramente, não acredito que estive lá.



